Opinião

Homenagem a Miguel João Fortes, exímio artesão-mestre/formador na cestaria e tecelagem

Por: Maria de Lourdes Jesus (Jornalista)

Já se passaram dois meses que a ilha de S. Nicolau perdeu, para sempre, um dos seus melhores filhos, nascid e criod na Calenjon.

1. Um artesão de fino trato inspirado por uma terra fértil em criatividade.

Miguel Fortes era filho de João de Nhâ Marê Milha e Maria de Tia Bia, residentes em Calejão, localidade do Município da Ribeira Brava, S. Nicolau.

Calejão, terra de muitas tradições, é uma povoação que dista cerca de 3 km do aeroporto de Campo de Preguiça e com idêntica aproximação do principal aglomerado urbano da Ilha, a cidade da Vila da Ribeira Brava. Nos tempos passados, essa aldeia exerceu uma função muito importante na história de S. Nicolau e de Cabo Verde. Mas hoje, a nível nacional, é conhecida sobretudo por ser o berço do primeiro grande escritor da literatura cabo-verdiana: Baltazar Lopes da Silva, famoso sobretudo pela sua obra prima “Chiquinho”.

50 anos depois, em 1957, nascia na mesma zona de Caleijão Miguel Fortes, conhecido por Djey de Maria de Ti Bia, artesão, formador, especializado na cestaria, mestre e cesteiro.

Djey iniciou a sua formação com o seu mestre nho José Roque de Vila da Ribeira Brava, lá na Tchãzinha. Como diz a Eulalia, filha de nho José Roque, Djey iniciou o aprendizado nos anos ’80, com o pai dela, e em pouco tempo aprendeu a fazer bandejas e balaios. Sendo a tecelagem uma arte que Djey gostava muito, foi aperfeiçoando até desenvolver uma forma muito pessoal, com muita criatividade até criar o seu próprio estilo.

O repentino falecimento de Djey deixou toda a família e a população incrédulas. Djey sempre gozava de boa saúde e, como de costume, depois de ter tomado o seu café, vestia o seu calção e com o seu chapéuzinho de pala, dirigia-se para a horta a recolher palha que servia de alimento para suas cabras, suas companheiras do dia a dia, às quais carinhosamente chamava de Jossara e Tieta. Na volta, a caminho de casa, cumprimentava todas as pessoas, de perto e de longe. Parando com algumas, dava dois dedos de conversa, tal como é hábito nas localidades onde todos se conhecem e sabem do quotidiano de cada um.

Depois, sentava-se na soleira da porta de casa e bebia sua água fresca, antes de iniciar o seu trabalho. Fazia pausa para o seu bom café entre as 9:00h e 10:00h. Aproveitava também esse momento para conversar ao telefone com a sua única filha Jericia Fortes, nutricionista do Hospital Dr. Agostinho Neto, na cidade da Praia. Depois da pausa do almoço, Djey trabalhava até por volta das 17hrs, altura em que saía para passear com as suas cabras e as dar de comer. Todos os dias, depois dessa hora, também aproveitava para visitar seu primo Djack, na loja deste, onde passava a tarde conversando ou assistindo jogos de futebol, principalmente se fosse o seu estimado Benfica a jogar. Depois seguia para visitar Rogério e família, com os quais mantinha uma excelente relação e, como dizia, eram como se fossem parentes. Depressa voltava para casa, pois tinha o hábito de dormir cedo.

2. Djey tinha particularidades muito próprias

Conheci melhor Djey como artesão, quando em 2013 tomei a decisão de transferir a minha morada de Stanxa para Calejão. Nessa altura, Djey tinha o seu atelier no início do canal, uma estreita e íngreme via que dá acesso à minha casa. Todas as vezes que descia ou subia a ladeirinha, Djey lá estava a tecer uma bandeja ou um balaio, sentado na soleira da porta da grande casa que ele tinha transformado no seu laboratório. Dizia sempre que a Educação lhe tinha entregue as chaves para esse fim e por isso não as entregaria a ninguém que não fosse essa Instituição.

Era sabido que a qualquer momento Djey havia de deixar aquela casa, e assim foi. Entregou as chaves a quem lhe veio a dar prova de posse do imóvel, mediante exibição do competente certificado da inscrição na Conservatória. Djey teve que deixar a casa no canal para voltar à morada onde nasceu: a casa dos seus pais.

A nova casa de Djey era especial porque muito parecida com ele, na sua simplicidade. [1] [2] [3] [4] Situada no início do mesmo caminho em direcção à casa de Baltazar Lopes da Silva, foi transformada no seu laboratório e mantinha uma exposição permanente.

Por aí os poucos turistas, e sobretudo os conterrâneos emigrados em féria que conheciam a sua fama, passavam e compravam. Aproveitavam ainda para adquirir peças que serviriam de prenda muito especial, para oferecer aos amigos no regresso.

A casa chamava atenção devido a mais duas particularidades: não tinha água canalizada e não tinha ligação elétrica, porque Djey nunca decidiu entrar na nova era da eletricidade, depois que chegou a S. Nicolau. Não obstante estas particularidades, tudo na sua casa funcionava muito bem. Logo à entrada estavam dois grandes e belos potes, sempre cheios de água fresca. Havia também plom pa kutxi midje, meidor pa moí papa, caldera pa cuzinha catchupa, lavatório d’smalt e mais utensílios ligados à reminiscência de uma cultura e tradição doutros tempos e que Djey conservava com muito zelo e orgulho. 

3. Um artista da cestaria cuja obra encarnava o seu criador

Em todo lado desta casa, estavam as obras acabadas e muitas em fase de acabamento: cestos, balaios, canastras e fruteiras confecionados com vara de barnedera e bandejas de várias dimensões para uso doméstico e com função decorativa. Ainda com função decorativa tecia, com uma mestria indescritível, peças pequeníssimas, como chinelinhos, coração e outras dotados de íman para colocação na porta da geladeira, com matéria prima de origem vegetal – tona de coqueiro. Expunha também outro tipo de peças decorativas por ele criados como casinha tradicional e garrafas artisticamente forradas com tecelagem confecionada a partir da casca seca de tronco de bananeira.

Trabalho não lhe faltava, mas às vezes a matéria prima é que era escassa, tal como afirmava. Outras vezes, ocorria atraso na entrega por parte de quem lhe fornecia a matéria prima que precisava, o que deixava Djey muito chateado.

O seu carácter, o seu rigor e seu elevado grau de organização, traduzia-se em dois exemplos. Ele tinha um dia específico na semana para ir a Stanxa e, por isso não era qualquer motivo que o levava a desviar-se desse hábito, e desta forma o seu trabalho tinha uma rotina que daí decorria. Outro exemplo nesta linha era o facto de procurar ter notícias da pessoa que mais amava e a quem tudo fazia, a sua única filha, Jericia Fortes. Todos os dias, à mesma hora, cumpria o ritual de telefonar para saber da sua querida filha. Esse hábito fez com que no dia da triste notícia, cedo se tivesse dado conta que algo de anormal se passava com ele. A filha, ao não receber a chamada habitual do pai naquele dia, que, infelizmente, terá falecido pela manhãzinha, procurou saber o que se passava através de terceiros. Na procura por Djey, a pedido da Jerícia, tempestivamente se soube da tragédia.

4. Homen de caráter, Djey.

Por causa do seu carácter, o seu rigor e seu elevado grau de organização, as autoridades temiam a sua reação, quando as coisas não corriam bem nos preparativos da sua participação, como artesão, nas exposições em Cabo Verde e no exterior. Não era muito diplomático com as autoridades… mas era muito amado e apreciado pela população. Homem que não brincava, Djey, como de resto acontece com os artistas de renome, não era um homem comum. Às vezes ele era mesmo rafilom, sobretudo quando achava que não estava sendo devidamente valorizado como artesão.

Djey não fazia diferença entre o tratamento reservado a sua obra e ele mesmo. Por isso, sabia que se a sua obra era valorizada, considerava que também tinha que lhe ser dado a devida consideração. Assim, no seu entender, ele e a sua obra eram a mesma coisa e nesta perspetiva, requeria para si aquela dignidade que era atribuída às suas obras, que por sua vez encarnavam o seu criador.

As suas criações eram a expressão do seu rigor, da sua procura de perfeição e da sua perceção de beleza, que revelavam também um forte apego à tradição do artesanato da ilha de S. Nicolau.

O respeito era uma outra característica de Djey. Uma vez ele assegurou-me que se tivesse recebido um convite, mesmo a nível internacional, que não respeitasse os seus princípios, ele não teria aceitado. Ele achava que havia uma falta de respeito em relação ao artesão que ele não tolerava. Não era uma ameaça, fazia assim mesmo, não cedendo, como chegou acontecer em certas ocasiões.

Djey era um homem de forte personalidade.

Detestava participar na Feira Agro-Cultural que o Município organiza todos os anos na Passagem da Vila de Ribeira Brava. Por essa ocasião, a ribeira da passagem é toda vestida e enfeitada com duas filas laterais de stands que expõem os melhores produtos da agricultura, do artesanato e da gastronomia: grogue de terra, ponche de vários sabores de fruta, mas infelizmente nem sempre de grogue de Terra. Não poderia faltar o palco central para receber os melhores músicos e intérpretes da ilha. Tudo é bem feito e organizado para valorizar os produtos da ilha e pa passa sabe.  

Mesmo num contexto assim tão atraente, economicamente, Djey nunca aceitou o convite a participar. O espaço e o ambiente não correspondiam às suas exigências, ao seu ideal. Queria muito mais, porque a sua obra, para ele e para muitos, merecia mesmo. Era bastante selectivo nesse aspecto. Até porque achava que quem estivesse interessado em comprar a sua obra, podia ir visitar a sua exposição pessoal na Biblioteca Central da Vila, no Centro da Juventude ou na sua casa na Calejão.

 Djey defendia a sua arte até ao extremo. Não fechava nenhum compromisso sem ter a certeza que as regras de organização e seus princípios eram respeitados. Era um homem que podia ser visto como intransigente mas respeitava as regras, tinha lealdade para consigo, de acordo com seus próprios princípios e para com os outros.

 O que à primeira vista poderia parecer como uma rigidez devido ao carácter dele, era de facto sinal de um homem de grande personalidade, com uma educação baseada em princípiosrigorosos e bem sólidos, difícil hoje de encontrar. E se formos analisar a sua obra, ela mesma vai-nos revelar as mesmas características moldadas pelas mãos do autor. A beleza da sua obra é visível no seu estilo rigoroso e ao mesmo tempo delicado, simples e ao mesmo tempo majestoso, e a firmeza das sua mãos dava-lhe confiança. Era crítico em relação a tudo, mas dedicava muito amor à sua arte.

São essas características a distinguir o autor em apreço e a classificá-lo como o melhor artesão de Cabo Verde.

Em fim, quero aqui lembrar algumas feiras que coroaram uma vida de Miguel Fortes dedicada ao artesanato. Ele participou na Feira de Artesanato e Design de Cabo Verde, foi um dos integrantes da Residência Criativa Kutxi em 2017 e teve os seus produtos expostos nos Estados Unidos da América, nas ilhas Canárias (Feira de Artesanato de 2017), no Fórum Mundial de Desenvolvimento Local, em Santiago e em outras ilhas.

O seu percurso como artesão e as suas participações em eventos culturais elevaram a ilha de S. Nicolau e Cabo Verde a um patamar muito alto.

5. Nota final

O apelo que gostaria de deixar aqui é dirigido, em primeiro lugar, à população de Calejão, mas também a todo o povo de S. Nicolau e das outras ilhas de Cabo Verde, bem como na diáspora.

Miguel Fortes, Djey de Maria de Ti Bia cumpriu de forma excelente a sua missãao nesta Terra, deixando um grande património cultural, de valor inestimável. Agora cabe a nós revelar a nossa gratidão eterna a Djey e darmos prova de merecer esse património. Basta que um grupo de pessoas, apoiado pela Câmara e o Mininistério da Cultura, seja promotor de uma iniciativa capaz de valorizar a figura do mestre Miguel Fortes e a sua obra para sempre.

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