António Santos
Um facto é que a criação do conceito de “escola a tempo inteiro” – ainda que esta corresponda a uma necessidade social (por causa dos horários de trabalho de muitos pais) – a que a escola não pode ficar indiferente, tal não pode transformar-se em “sala de aula a tempo inteiro”.
A partir da carga excessiva dos horários e do tempo letivo dedicado a cada área disciplinar permitir constatar que as organizações do tempo escolar são as mais variadas e com resultados no desempenho dos sistemas educativos o mais variados. É que, segundo especialistas, “mais tempo escolar não significa melhor tempo escolar, tal como um currículo mais denso de conteúdos poderá não significar a sua melhor aprendizagem”.
É necessário transformar o ensino “em função das famílias”, o que significa criar um ecossistema onde a escola e o lar operem como parceiros complementares, e não como instâncias isoladas ou em conflito. Essa transformação exige que a escola se torne um espaço de acolhimento e escuta, reconhecendo que os valores éticos e o convívio social básico começam em casa. Contudo, não é com 6 avaliações por trimestre em cada disciplina, que se resolve os problemas no ensino. Um professor que tem 8 turmas com 37 alunos tem uma média de 1.584 avaliações para corrigir por trimestre. O que é incomportável.
Não podemos esquecer que seria “positivo” dar às escolas maior flexibilização na abordagem curricular, fossem acompanhadas também de “capacidade de inovação e organização dos horários e do planeamento das atividades”. Também não podemos omitir que os horários prolongados podem levar ao burnout académico, com sintomas de ansiedade, stress e irritabilidade. Contrariamente ao esperado, o excesso de horas pode piorar o desempenho escolar devido à fadiga e à perda de concentração.
Os especialistas alertam que “escola a mais faz mal”, pois retira o tempo essencial para o brincar livre, fundamental para a criatividade e competências sociais. Muitos estudantes dormem menos do que o necessário devido à carga de aulas e trabalhos de casa (TPC), o que afeta o desenvolvimento cognitivo. Por outro lado, com os filhos a passar até 10 horas na escola (entre aulas e ATL), o tempo de convívio familiar é reduzido a poucas horas de rotinas apressadas.
Os trabalhos de casa prolongam o “horário de trabalho” das crianças para a noite, gerando conflitos e stress parental ao tentar apoiar os filhos após o dia de trabalho dos próprios pais. Contudo, muitos pais aceitam horários escolares longos por necessidade de depósito das crianças enquanto trabalham, o que revela um desfasamento entre as necessidades pedagógicas e as exigências do mercado de trabalho.
Um outro aspecto negativo no ensino cabo-verdiano (como já referimos) é o excesso de exames, que tem um impacto direto no bem-estar emocional e no sucesso académico dos estudantes, sendo a pressão e a ansiedade os efeitos mais imediatos. O modelo de avaliação intensiva afeta os alunos de várias formas: Saúde Mental e Desempenho Académico.
Uma outra preocupação dos pais cabo-verdianos prende-se com os trabalhos de grupo no ensino que, na sua perspectiva, poderão prejudicar os bons alunos. Todavia, essa é uma perceção comum e, em muitos casos, tem fundamento na realidade escolar, especialmente quando a dinâmica não é bem estruturada. O sentimento de que os “bons alunos” (aqueles mais empenhados ou com notas mais altas) são prejudicados costuma surgir de alguns problemas específicos. Frequentemente, os alunos mais dedicados acabam por assumir a maior parte do trabalho para garantir que a nota final não seja baixa, o que gera cansaço e frustração.
Esta pseudo injustiça na avaliação só acontece se o professor atribuir a mesma nota a todos, o aluno que se esforçou “carrega” os colegas que pouco contribuíram (os chamados “baldas”), o que é visto como uma injustiça no sistema de avaliação. Em grupos grandes, as contribuições individuais podem passar despercebidas, privando o aluno de um feedback valioso sobre o seu desempenho específico.
Apesar destas falhas, as escolas e universidades insistem no trabalho de grupo porque ele visa desenvolver competências que o estudo individual não alcança. No mercado de trabalho, a capacidade de colaborar, comunicar e lidar com pessoas difíceis é tão valorizada quanto o conhecimento técnico. Ensinar um colega é uma das formas mais eficazes de consolidar o próprio conhecimento.
O papel do professor é fundamental, ao contrário do que pensam os nossos políticos, na criação de grupos onde impere a diversidade de competências. Grupos bem formados permitem que cada um contribua com o que faz melhor (exemplo: um é bom em escrita, outro em investigação, outro em apresentação). Para que o trabalho de grupo seja justo, especialistas sugerem que o professor atue como um “gestor de equipa”, defendendo que parte da nota deve ser coletiva e outra parte deve ser baseada no desempenho individual ou na autoavaliação dos membros do grupo.
Os professores devem atribuir responsabilidades claras para cada membro, evitando que um faça tudo sozinho, devendo monitorizar o progresso do grupo durante as aulas, e não apenas avaliar o produto final.







