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“Pá Soncent, k´forsa d´krêtxeu”: Emigração jovem é um problema ou uma solução?

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Janice da Graça

Frequentemente, coloco todos os meus afazeres em pausa e vou assistir a palestras, conferências de interesse social e afins, momentos de onde retiro grande prazer, já que o gosto por aprender é parte de quem sou. Com esse gosto e apetência, vem a reflexão informada sobre questões de importância social, assunto para o qual me sinto fortemente inclinada. É chegada a hora de amplificar a sua partilha, de grupos de reflexão para este espaço público, com todos vós, com o propósito de contribuir para o desenvolvimento das pessoas e da sociedade cabo-verdiana.

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Apresento-vos assim este ciclo de crónicas, “Pá Soncent, k´forsa d´krêtxeu”, como uma chamada à criação de um Cabo Verde mais justo, próspero e sustentável (“toque para sentir, toque para pensar,
toque para agir”). Falarei do Cabo Verde real, com factos, números e reflexões, de forma simples, para informar e participar na criação de reflexão rumo à construção do Cabo Verde do futuro.

O primeiro artigo desta série é traçado a partir da apresentação, em novembro de 2025, das “Novas perspectivas sobre as vidas dos jovens em São Vicente”, um projeto do FUMI (Future Migration as Present Fact), que visa “compreender as vidas e os sonhos dos jovens, para melhor entender os desejos de emigrar”.

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Fui com a curiosidade de especialista em políticas sociais, mas também com o coração inquieto de quem se dedica à causa da juventude, da justiça social e do desenvolvimento de Cabo Verde. À medida que os dados eram apresentados, senti um eco profundo daquilo que tem sido a minha observação constante no terreno e, como partilharei mais adiante, da minha própria vivência. O que ouvi articulou-se de tal forma com as minhas reflexões que senti o “chamado” para partilhar esta análise, traçada no cruzamento dos dados com a análise da nossa realidade constitucional e social e da minha vivência pessoal.

Ora, esse chamado nasceu da intervenção de um dos participantes que, no final da sessão, tomou a palavra para colocar esta questão aos apresentadores: “Então, a emigração é problema ou solução?”. Não resisti a dar o meu bitate, que aqui tranformo numa opinião mais desenvolvida, sustentada por fatos estatísticos, legais e científicos.

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No debate público cabo-verdiano, a emigração juvenil é frequentemente enquadrada numa dicotomia política simplista. Para a situação, é a prova de um “bom trabalho”, “exportando” jovens qualificados que atestam a qualidade da nossa formação. Para a oposição, é uma “fuga de cérebros”, sintoma de um país que falha em reter os seus melhores. Entre estas duas narrativas, onde estará a verdade? O que nos dizem a ciência, a lei e, mais importante, os próprios números e as vozes dos jovens?

A Constituição da República de Cabo Verde (CRCV) consagra um direito dual. Garante, inequivocamente, o direito de “sair e de entrar livremente no território nacional, bem como o de emigrar” (Art. 51.º). Contudo, essa mesma Constituição impõe ao Estado a tarefa fundamental de “remover progressivamente os obstáculos” que impeçam o “pleno desenvolvimento da pessoa humana e limitar a igualdade dos cidadãos e a efetiva participação destes na organização política, económica, social e cultural” (Art.1.º).

A tensão entre o direito de partir e o direito a ter condições para ficar é o cerne da questão. Esta tensão torna-se ainda mais crítica quando olhamos para os direitos específicos da juventude. O Artigo 75.º (“Direitos dos jovens”) é claro: incumbe ao Estado promover uma política de juventude que vise, entre outros, “o desenvolvimento da personalidade dos jovens” e, crucialmente, “a criação de condições para a sua integração na vida activa” e a “efectivação dos seus direitos económicos, sociais e culturais”. O cerne da questão é, portanto, este: o direito de partir (Art. 51.º) está a tornar-se uma necessidade porque o direito a ficar e a ter uma “integração na vida activa” (Art. 75.º) não está a ser plenamente assegurado.

Como partilhei na sessão (o tal bitate), o problema não reside na emigração em si. O problema reside em não ser uma escolha, mas uma necessidade.

A ciência social defende que devemos deixar de ver a juventude como um “problema” a ser gerido e passar a vê-la como “agentes fundamentais de mudança”, cujo potencial o país parece estar a desperdiçar.

Os dados do FUMI apresentados ontem expõem as profundas dicotomias que alimentam esta necessidade de partida. Entre essas, selecionei uma para aprofundar nesta partilha: a dicotomia “sonhos vs. necessidades”, ou seja do “querer ficar, mas ter que partir”. Esta expressão, que resume de forma tão precisa o sentimento nacional, não é apenas um lugar-comum; é o cerne do “drama do Cabo-verdiano”, como imortalizado na letra da morna “Separação”, na voz de Titina. Contudo, se nos primórdios da república, um país a “dar os seus primeiros passos” após a independência, era natural que assim fosse, será ainda natural a prevalência dessa dualidade?

O estudo FUMI revelou que, embora 80,1 % dos jovens sanvicentinos se sintam “realmente em casa” no lugar onde moram, não sendo significativa a percentagem de jovens que acalentem o sonho de emigrar, 79,2% desses revelam, no entanto, que preferiam trabalhar e viver noutro país dentro de cinco anos, sendo que 78,6%. já pensou seriamente no assunto e mais de metade (52,2%), espera, de facto, estar já emigrado dentro de 5 anos. Inquiridos se emigrariam se lhes fosse oferecido um visto e uma passagem, o número sobe de forma alarmante para 90.2 por cento. Ou seja, menos de 10% dos jovens considera que ficaria no país se lhes fosse dada a possibilidade real de emigração e estariam prontos a partir já, num prazo de um mês (77,4%) a um ano (12,8%).

Em contrapartida, 84,4% dos jovens apontam preferência para ficar, caso houvesse a possibilidade de um rendimento que lhes permitisse viver confortavelmente. Os números são claros e expõem o volume da emigração por necessidade. Na prática, isto significa que a esmagadora maioria dos jovem não sonha partir, mas que considera essa possibilidade por percepcionar que é a única via para a realização que procura. E que realização estamos aqui a falar? Riqueza? Luxo? Vamos mais a fundo nesta questão, para a entender devidamente.

A chave para decifrar este paradoxo está nas condições socioeconómicas, perfeitamente ilustradas no “Mapa dos Sonhos”, do referido estudo. Esse revela que tipo de realização é procurada pelos jovens que se sentem obrigados a emigrar. Os dados informam algo que não me surpreende, já que ecoa a observação que tenho feito e a minha própria experiência pessoal:

 Para os jovens de baixas condições, os sonhos são pragmáticos e ligados à base da pirâmide de Maslow – esta teoria postula que as necessidades humanas são hierárquicas, começando pelas mais básicas (fisiológicas e de segurança) antes de se poder almejar as de nível superior (como a autorrealização). Assim, os seus sonhos refletem essa urgência primária: “ter uma casa”, “trabalho e condições de vida”, “educação” e “emigrar”. A partida não é um sonho de realização, mas uma necessidade de subsistência pessoal e de dependentes ou outros familiares.

 Para os jovens de altas condições, resolvida a base da pirâmide, os sonhos movem-se para o topo: “sintí realizode” (sentir-se realizado) e “tem vida e saúde”. Para estes, emigrar não é fugir da pobreza; é procurar um ecossistema onde o seu potencial possa, de facto, realizar-se, onde possam viver com bem-estar e qualidade de vida.

O que nos leva de volta à questão final da apresentação. A emigração é um problema ou uma solução?

A emigração não é o problema. Ela é um direito (CRCV, Art. 51.º) e pode ser um sonho legítimo. O problema é a necessidade de emigrar.

Quando a partida não é uma escolha livre, mas uma fuga à falta de condições dignas de subsistência (para os de menos condições) ou à falta de realização pessoal (para os de mais condições), ela deixa de ser uma “solução” individual para se tornar um sintoma de uma falha coletiva. É a falha do Estado em cumprir o seu dever constitucional de criar as condições para o “pleno desenvolvimento da pessoa humana” (CRCV, Art. 1.º) em território nacional. Os dados do FUMI confirmam-no: os jovens sonham, preocupam-se com a família e procuram realização. A questão é se lhes estamos a dar um país onde o possam fazer.

Conforme prometido, vou fechar com uma estória pessoal: eu também, tenho considerado, muito seriamente, emigrar, desde 2023. Ainda estou cá. Não quero ir. Vai contra tudo o que sempre sonhei: contribuir com os conhecimentos que tão empenhadamente cultivei, para o desenvolvimento do meu amado país. Estudei em Portugal, por cinco anos. No primeiro ano, fui distinguida como uma das cinco melhores alunas da Universidade Técnica de Lisboa. Terminei como a melhor aluna do meu curso, galardoada com o Prémio “Cardeal Don António Ribeiro” do ISCSP. Mal terminei, rumei para Cabo Verde. Nem pedi a nacionalidade portuguesa, deixei na mesa propostas de emprego e para trás amizades sólidas (uma nova família). Depois de enfrentar em Cabo Verde diversas dificuldades (matéria para um outro artigo, quiçá), muitas vezes quase me arrependi. Mas de algum modo sempre renasceu o fogo de insistir.

“Querer ficar e ter que partir”, é o dilema de tantos. Eu tenho escolhido o meu próprio dilema: “ficar mesmo quando tudo indica que deveria partir”. Continuar a ter fé, ser resiliente, reinventar-me e (re)inventar oportunidades a cada novo desafio e ir procurando fazer acontecer a mudança que gostaria de ver no nosso pedacinho do mundo. Para mim e para muito outros em situação semelhante, não emigrar é um ato de resistência. Teimar no sonho, ao invés de ceder às necessidades.

Referências:
Carling, J., Caso, N., Chavez-Aagaard, M. H., & Karl, E. Z. (2025). Resultados do Inquérito FUMI (Future Migration as Present Fact). Zenodo. https://doi.org/10.5281/zenodo.14824338

Nota:
Esta rubrica está à procura de financiamento, desde que seja financiamento que permita a reflexão e partilha livre, sem prejuízo da verdade, da ética e da possibilidade de livremente refletir. Acredita no meu trabalho? Comunique comigo: dagracajanice@gmail.com

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Constanca Pina

Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ). Trabalhou como jornalista no semanário A Semana de 1997 a 2016. Sócia-fundadora do Mindel Insite, desempenha as funções de Chefe de Redação e jornalista/repórter. Paralelamente, leccionou na Universidade Lusófona de Cabo Verde de 2013 a 2020, disciplinas de Jornalismo Económico, Jornalismo Investigativo e Redação Jornalística. Atualmente lecciona a disciplina de Jornalismo Comparado na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

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