Fosse esse um discurso político, diria que São Vicente se tornou uma “galinha de ovos de oiro” para alguns e que estamos a ser mercantilizados, não cuidados, pelo governo eleito para nos servir. Contudo, dizê-lo poderia trazer-me problemas, assim, vou já desdizê-lo e colocar a coisa de outro modo (toque de humor, está dito e essa é minha opinião – informada; desenvolvo de seguida). Vou falar de algo primordial para qualquer sanvicentino; a dignidade da nossa identidade e de como esta está a ser colocada em risco.
Sou “mnininha de Soncent, nascid e criod” 1. Sou fruto do Mindelo de outrora, difícil de definir, mas que qualquer outra pessoa que nasceu nesta ilha sabe entender. Há dignidade neste chão. A mesma dignidade do Monte Cara que repousa nas encostas da nossa ilha repousa no nosso espírito. Essa dignidade que nos ensinou a andar pelo mundo de cabeça erguida e nos impele a resistir (ainda!) a qualquer forma de opressão.
Tem-me trazido uma angústia imensa ver a ilha que me fez mulher ser corrompida por um modelo que trata o nosso chão como uma “cidade para visitar” e não para viver, um modelo de silenciosa e progressiva opressão ao nosso modo de vida, à nossa identidade, ao nosso potencial. Já notaste? Não estás, também, a transbordar de indignação? És de São Vicente ou tens aqui a quem amar? Se sim, este artigo diz-te respeito (toque para sentir, toque para pensar, toque para agir)!
Vamos aos factos:
Pedimos educação e cultura (sala de espetáculo, centro de juventude, expansão da biblioteca, ocupação saudável de tempos livres – exemplos possíveis, entre tantos outros); deram-nos, ao invés, um ecossistema que propicia entretenimento, vícios e problemas sociais complexos, com festas frequentes, estímulo ao turismo de massa, casinos e afins, enquanto se privatizam espaços de bem-estar públicos da população.
Pedimos habitação digna e acessível; propiciaram a construção de hotéis e condomínios de luxo em larga escala, enquanto a realidade de grande parte dos residentes é a precarização, com pessoas a morar em “casas de lata”, escassez e encarecimento do mercado do mercado para arrendar (conversão em alojamento temporário) e para construção ou compra (empurrando-se a população para a periferia ou para a construção clandestina, enquanto o mercado é dominado por grandes empresários vocacionados para lucro, com ofertas a preços inacessíveis para o salário local).
Pedimos justiça social; insistiram no atual modelo de crescimento, indutor de desigualdade social e que tem pressionado pessoas, especialmente jovens para a marginalidade2; aumentaram a repressão e chamaram isso de incremento da segurança, vitimando duas vezes quem está em condições precárias, introduzidas por este modelo injusto de crescimento económico.
Pedimos empregos qualificados (a possibilidade de semear no nosso chão o nosso potencial); recebemos a expansão de ofertas de emprego não qualificado, na indústria hoteleira e de eventos, e isso é chamado de combate ao desemprego. Isso é agravado pelo contexto geral de centralização, clientelismo e partidarismo na administração pública (“job for the boys”).
Pedimos autonomia para decidir as nossas prioridades, construir o nosso futuro (anos manifestando-nos contra a centralização), deram-nos um projeto imposto de fora para dentro que não respeita as nossas necessidades, as nossas aspirações, a nossa identidade.
Pedimos para participar; deram-nos fóruns, conselhos inefetivos, e um lugar “na fotografia”, mas nunca na mesa de decisões.
Enfim, pedimos para prosperar, ser felizes e amar aqui na nossa ilha; estão a construir para nós e à revelia da nossa vontade, uma cidade onde é raro encontrar um cidadão local num restaurante, onde aumenta a cada dia o número de pessoas a pedir, onde viver se torna um desafio e o “sab”, já não felicidade, mas escape à dor. Nada de “sab” passar necessidades e nada de “sab” estar bem e circular entre quem passa necessidades. Sobretudo quando essas pessoas são as nossas pessoas.
Sim, “Mindel ê sab”, mas cada vez menos “sab” para quem é local e mais “sab” como produto a ser vendido. Essas decisões não são nem poderiam ser as nossas. Ninguém trata a sua casa como espaço de diversão. A decisão vem de fora, mas é a nós que afeta. Nós, cujo coração aqui encontra casa. Ao invés de sermos amparados nas nossas necessidade e ambições, está-nos a ser imposto um projeto que está a transformar o nosso espaço: de nos ser casa/lar, para um local de onde precisamos ou aspiramos evadir3 . Contudo, recordemos Ovidio Martins:
“Pedirei
Suplicarei
Chorarei
Não vou para Pasárgada
Atirar-me-ei ao chão
E prenderei nas mãos convulsas
Ervas e pedras de sangue
Não vou para Pasárgada
Gritarei
Berrarei
[…]Não vou para Pasárgada”
É inaceitável! E revolto-me, não apenas aqui por escrito, mas todos os dias. Que este desabafo sirva para amparar quem, também, se sente revoltado ou conscientizar (minha esperança), quem não esteja consciente do rumo que se tem estado a tomar ou dos seus impactos.
Com o olhar atento de politicóloga tenho visto com inquietação essa realidade desde o início da sua formação, há alguns anos. Vi isso a chegar desde que o projeto de São Vicente como ilha de “turismo de luxo”, foi “vendido” ao Governo atual, apresentado por grupos de investidores, com foco capitalista, não alinhados com as necessidades ou aspirações dos locais. Estive lá, na inauguração de um tal espaço flutuante (por acaso, já que ia para uma entrevista de emprego como assessora de um dos diretores que prontamente recusei depois da tal inauguração) – que supostamente seria um grande centro de dinamização da cultura local e hoje está como vocês sabem – ouvi com os meus ouvidos e tomei conhecimento de vários hotéis em construção ao mesmo tempo, desde essa altura, entre outros aspetos hoje já evidenciados. Mas creio que o que mais me alarmou foi um comentário de um senhor presente no evento, que comentou que se a pessoa que inaugurou esse espaço e parceiros conseguisse implementar todo a sua visão, os sanvicentinos precisariam de licença para viver na sua própria ilha.
Num chamado incontrolável da minha alma inquietamente ativista, procurei usar a minha voz e potenciar outras para colocar em evidência estes riscos (hoje factos, a vista de tod@s). Disseram-me “São Vicente está parado, isto é melhor do que nada”. Mas não, não era melhor do que nada. Onde nada há, há potencial. Onde há construção que desrespeita a identidade e dignidade das pessoas, há problemas sociais a formarem-se, que uma hora ou outra, afetarão a vida de todos. Mais: independentemente da falta de recursos ou escassez de bens públicos, São Vicente tem as suas gentes, que amam a ilha com intensidade, são capazes e têm-se prontificado para agir em prol do desenvolvimento da ilha. Desejo esse sucessivamente negado, mantendo-se uma visão centralizadora e diria até, castradora.
É inaceitável que São Vicente concentre hoje mais de metade das habitações precárias (“casas de lata”) de todo o país.
A pergunta é simples: onde está a dignidade quando se promove hotéis e condomínios de luxo, enquanto o povo vive na fragilidade, na vulnerabilidade,
na indignidade? É inaceitável que quase 90% dos jovens de São Vicente estejam a pensar em emigrar.
A pergunta é, também, simples: onde está a dignidade quando, para satisfazer as nossas necessidades ou a nossa aspiração de desenvolvimento do nosso potencial temos que, por força, abdicar de viver junto dos que amamos? É inaceitável a introdução forçada desta desigualdade no nosso ambiente social.
A pergunta é ainda mais simples: como posso viver bem, dormir tranquila,
aspirar a mais quando os meus (sobre)vivem com tão pouco?
É minha firme opinião (baseada em factos e observação e à luz da minha formação em Política Social) que depois de tanto tempo sem investimento público de relevo, as opções atuais colocam a população em grave vulnerabilidade. Contudo, além do custo social já evidente, o risco é ainda maior, São Vicente (!): estamos em risco de perda de referências territoriais, paisagens urbanas e mais grave, identidade cultural e sentido de agência coletiva. Já vos tinha ocorrido?
Se nada for feito para corrigir o rumo, corremos o risco de perda progressiva e
irreparável da nossa identidade como povo, com os jovens a crescerem num contexto muito diferente do qual crescemos nós, onde, vulneráveis, aprendem a estar dependentes, a não aspirar a muito, a calar-se e a servir. Mindelo foi sempre símbolo de cultura e intelectualidade, morabeza e solidariedade, inovação e resistência.
Mindelo não pode ser transformado numa cidade de prazeres, empurrando-se a população local para a dicotomia entre serviço e elitismo. Nós somos sanvicentinos, todos nós, somos irmãos.
Este artigo é, portanto, como diria Ovídio, um grito. Uma declaração de que queremos qualidade de vida, queremos ver bem todos os nossos, queremos um projeto de desenvolvimento que oiça a nossa identidade e nos permita realizar o nosso potencial.
O potencial de todos nós. Não emigrar continua a ser, para muitos de nós um ato de resistência. A demanda para participar tem estado na agenda dos sãovicentinos, demandando autonomia e descentralização há décadas. É tempo de parar de esperar e fazer por acontecer.
O voto nas próximas legislativas pode ser o nosso próximo ato de resistência mais poderoso. É a escolha entre continuação neste caminho (inseguro) e ser figurante neste projeto que está a corromper a nossa ilha, ou retomar o comando do nosso destino através de uma visão focada nas pessoas, que nos devolva a soberania sobre o nosso próprio chão.
Nessa linha, eu diria que o primeiro passo para São Vicente “emancipar-se” dessa visão que atenta à nossa dignidade é, neste momento, eleger um governo de esquerda, que cuide da dignidade das pessoas em primeiro lugar – uma esquerda a quem pedimos que seja de escuta, de empatia e construção de vínculos, onde haja distribuição de poder, contando-se com o cidadão como real parceiro de desenvolvimento 4 (o que me parece alinhado com o que está a ser a proposta feita).
Logo a seguir, negociar a descentralização. Com alguma brevidade, eleger uma nova equipa para o poder local, que esteja comprometida com São Vicente em primeiro lugar e que tenha como prioridade o desenvolvimento das nossas pessoas e o bem-estar de quem habita a ilha.
Pelas “casas de lata” que precisam de ser lares. Pelos jovens que sonham viver e desenvolver o país. Por São Vicente, pela nossa dignidade.
Citações:
1) Filha de São Vicente, nascida e criada.
2) “Psicóloga da Comunidade Terapêutica relata mudança do perfil dos usuários e policonsumo de drogas em S. Vicente”, ver mais: https://mindelinsite.com/atualidade/psicologa-da-comunidade- terapeutica-relata-mudanca-do-perfil-dos-usuarios-e-policonsumo-de-drogas-em-s-vicente/
3) Vide artigo #1 desta rubrica, “Emigração jovem é um problema ou uma solução?”, que aponta dados científicos sobre intenções e motivações de emigração, disponível em: https://mindelinsite.com/opiniao/pa-soncent-kforsa-dkretxeu-emigracao-jovem-e-um-problema-ou-j]uma-solucao/









