Américo Medina (Consultor em Aerospace)
A International Air Transport Association (IATA) acabou de publicar uma projeção em que prevê que o tráfego aéreo mundial duplique até 2050, com África a liderar o crescimento relativo. Este dado, que está sendo acolhido e citado com muito entusiasmo por muitos analistas da nossa região, encerra uma armadilha analítica que outros, mais precavidos, vêm sublinhando e que países como o nosso devem ter em conta: crescimento não é sinónimo automático de relevância estratégica!
Para países como Cabo Verde, somos muitos que pensamos que a questão-desafio não é crescer com o mercado, mas posicionar-se dentro da cadeia de valor dessa fantástica indústria da aviação global – Isso sim deve ser a nossa ambição, quando projectamos 2050!
O crescimento africano é real, mas notem que parte de uma base reduzida e permanece concentrado em poucos polos regionais. Além disso, continua dependente de fatores estruturais frágeis, como rendimentos médios baixos e limitações regulatórias. África cresce, mas ainda não funciona como um verdadeiro mercado aéreo integrado.
Simultaneamente, a meta de neutralidade carbónica até 2050 representa uma transformação profunda da indústria. O desenvolvimento de combustíveis sustentáveis de aviação e a necessidade de novas tecnologias estão aí para nos exigirem investimentos massivos e irão redefinir sem dúvida, novos modelos operacionais, ou melhor, cada vez modelos operacionais mais inovadores. Cabo Verde dificilmente será produtor relevante, mas pode posicionar-se como plataforma logística e destino alinhado com exigências ambientais crescentes.
Persistem, no entanto e ainda(!?) narrativas desajustadas, como a ideia do Sal como Hub Global no Atlântico Médio! Ora, como já tivemos oportunidade de demonstrar, um hub exige, dentre outros aspectos, massa crítica, hinterlândia, rede de alimentação e uma companhia âncora sólida, condições/pressupostos que o país não reúne. A insistência neste modelo-narrativa revela um erro de diagnóstico estratégico.
Notem que na nossa sub-região, Dakar tenta posicionar-se como hub e já está uns passos largos à nossa frente; o Ghana (Accra) cresce como gateway e a gigante Nigeria domina pela escala! Na África Ocidental, Cabo Verde pode não competir diretamente, mas pode diferenciar-se como plataforma estável com uma aposta forte num ambiente regulatório previsível e gateway turístico premium!

A cada dia, a nossa opinião tende a consolidar-se, em como a verdadeira oportunidade poderá residir na criação de uma base operacional para companhias low-cost na ilha do Sal. A evolução tecnológica, com aeronaves de médio curso de maior alcance, vem permitir operações transatlânticas ponto-a-ponto mais eficientes. Neste contexto, Sal apresenta vantagens claras: localização, infraestrutura existente e estabilidade operacional.
Este modelo não corresponde a um hub clássico, mas a uma base operacional eficiente (overnight aircraft base, turnarounds rápido, rotas diretas não conexão massiva) orientada para rotas diretas e elevada produtividade. Neste cenário, a TACV enfrenta desafios estruturais significativos. A sua escala reduzida, dependência operacional (ACMI), fragilidade financeira e a sua crônica inconsistência estratégica, colocam em causa a sua sustentabilidade num mercado cada vez mais competitivo.
Num cenário de consolidação das LCC’s entre nós, vai ser fortemente pressionada nos yelds, acentuar a sua perda comercial, tornando-se residual/eternamente subsidiada! A questão estratégica deixa de ser como preservar a companhia e passa a ser qual o papel que ainda pode desempenhar(??): operar um nicho (diáspora/PSO), integração parcial com um operador estrangeiro ou saída progressiva do mercado?

Os aeroportos de Cabo Verde, sob gestão da VINCI Airports, representam ativos com potencial significativo, mas ainda subaproveitados. A concessão trouxe capital e know how mas a questão central mantém-se: estamos a medir performance ou apenas investimento? A ausência de uma estratégia comercial agressiva (eu pessoalmente esperava mais) e de incentivos claros são evidentes e limitam a capacidade de atrair novos operadores e maximizar o seu valor.
Num contexto de transformação global da aviação, Cabo Verde enfrenta escolhas claras e a solução de dilemas “irritantes”: persistir em modelos desajustados ou adaptar-se às novas dinâmicas do setor; persistir em narrativas eleitoralistas ou abraçar de vez políticas e opções estruturantes! Num mundo onde a aviação se transforma rapidamente, os países não são recompensados pela sua retórica, localização geoestratégica, mas pela sua capacidade de transformar esta última em modelo de negócio.







