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O primeiro abraço depois do último

Por: Aerolino Delgado

Sol de verão emprestado, brisa de meia-manhã, passos apressados, destino de múltiplas direções. Ruídos de retoma, sorrisos de alívio, vozes engrandecidas. A alegria voltava a invadir a rua, a cura matava o mal. Os olhares se cruzam, de relance, num virar à direita e não mais os olhos se desgrudam do horizonte.

Pouco mais de metade de meia centena de metros os separa. Os corpos se enrijecem de braços firmes, o sorriso se estampa na cara sofrida, lar de mil e uma rugas, testemunha de todos os trilhos de uma vida. Os passos se alargam, o coração se descompassa ao compasso da emoção e o pensamento é invadido por nostálgicas recordações. Pedaços do todo que compõe o ser, razões desmedidas de viver. Versos de múltiplos sentimentos, estrofes de igual emoção, poesia de vida, a vida em poesia.

A distância se encurta a cada passo duplo, mesma direção, sentidos opostos. Nhô Manel, atarefado, tenta ajeitar uma pasta que tem na mão direita. Não satisfeito, por fim coloca-a debaixo do braço esquerdo. Nha Joana, famosa vendedeira de pastéis e croquetes, chama-o para a compra do costume, enquanto a sensivelmente meia dúzia de metros à sua esquerda Ti Djon espera-o, já preparado, para o engraxamento semanal dos sapatos. Mas os olhos e os ouvidos ganham, momentaneamente, imunidade a fatores alheios e o coração impulsiona a ânsia do desejado toque físico.

Os passos se alargam, o coração se descompassa ao compasso da emoção e o pensamento é invadido por nostálgicas recordações. Pedaços do todo que compõe o ser, razões desmedidas de viver.

A escassos metros um do outro, ainda a pasta atrapalha e Nhô Manel pousa-a no chão. Bonifácio, por sua vez, enrola umas folhas brancas que tem na mão esquerda e ajeita o chapéu. A ânsia invade o corpo e energicamente os braços se abrem para receber o outro. Uma repentina voz emerge do íntimo do ser e invade, taciturnamente, o pensamento: que é do homem sem um aperto de mão, sem um beijo amigo! Que é de mim sem o teu abraço, amigo! Imposições factuais, restrições extemporâneas.Vazio que invade o corpo adentro e se aloja nas entranhas identitárias, alma despida de sorriso alheio, coração depauperado do calor de corpo outrem. Que é de mim sem o teu abraço, amigo!

Os corpos se tocam e se unem. Os braços, carentes, circundam o corpo amigo. Os olhos fecham e a respiração acelera para depois se normalizar. A emoção transborda o que se tem por comum e de ávido que estão os corações, nada menos que lágrimas de alegria. Cantos mudos, silêncio audível, olhares sentimentalmente recíprocos. Que é do homem sem um aperto de mão, sem um beijo amigo! Que é de mim sem o teu abraço, amigo! 

Sopra uma fresca brisa, arrefecendo, por breves instantes, o ar quente que bafeja as artérias da cidade. O abraço desafia o tempo e resiste ao tic-tac do relógio que Nhô Manel empunha no pulso esquerdo. Tempo, mas que tempo? De que importa o tempo se não for um acumular de vivências, uma montanha de emoções. De que vale o tempo sem um abraço amigo, sem um afetuoso olhar, sem a saudade que aperta o peito e alimenta o coração. Tempo? Que parasse o tempo a cada abraço, para que este nunca conhecesse o fim. Que é de mim sem o teu abraço, amigo!

Um abraço a ti, a todos.

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