Nelson Faria 2

INPS e a suspensão de contratos de trabalho

Por: Nelson Faria

O INPS tem sido ultimamente alvo de críticas em várias frentes por diversos atores, particularmente nas redes sociais, por causa das prestações definidas pela conjuntura que vivemos do COVID-19.

Se, por um lado, em algumas críticas se pode reconhecer justeza tendo em conta o que foi aprovado pela legislação do contexto, incongruente e deficiente em muitos aspectos, e, sobretudo, por atrasos no pagamento, por razões internas da instituição ligadas a um processo novo num contexto de trabalho delicado, por outro lado, denotam-se críticas injustas, modismo, oportunismo e populismo de muitos “críticos”.

Vamos por partes. O INPS tem missão definida na lei garantindo a cobertura e apoio aos seus beneficiários nas prestações de assistência médica e medicamentosa, nas prestações complementares de apoio a família, pensões, em situações de perda de rendimento, desemprego, e até na perda de capacidade para o trabalho, doença, para o qual recebe contribuições. O INPS zela e é reconhecido pelo seu exemplar e escrupuloso cumprimento das leis no tocante as prestações, mesmo sem ser devidamente salvaguardado nas leis que garantem cobrança das contribuições obrigatórias. Portanto, o INPS não legisla, cumpre as leis, mesmo que estas não sejam integralmente favoráveis a missão institucional.

Ora, esta instituição, como referi, que de forma zelosa e exemplar tem cumprido o seu papel com os beneficiários, tem reconhecido valor acrescentado na economia e finanças nacionais, tem, sobremaneira, peso na paz e estabilidade social e no garante de condições sanitárias ou de tratamento dos seus beneficiários, foi chamada a servir, como não poderia deixar de ser, no momento delicado que vivemos. Prontificou-se, como sempre, mantendo-se em atividade condicionada no período de confinamento. Com todas as condicionantes, tem conseguido responder ao que foi chamado na conjuntura. O valor da instituição, é visto e reconhecido, a vista desarmada, dentro e fora do país, por pessoas e organizações. Quem não vê, ou não quer ver, é ignorante por falta de informação, ou por opção. Contra os ignorantes de informação, pode-se tentar explicar e informar, contra os por opção, pouco ou nada se poderá fazer, infelizmente. A estupidez humana tem sido deveras ilimitada…. Querendo ver o óbvio, o valor e a importância do INPS ultrapassam o contexto COVID, não se resume ao pagamento de parte do valor da suspensão de contrato e não deve ser posta em causa, oportunisticamente, como tem feito alguns incumpridores, oportunistas e profetas de conveniências, conhecedores de tudo e sabedores de nada.

Dizia, por esta instituição ter esta solidez e o peso que tem na nação cabo-verdiana foi “convocada”, como seria de esperar, para ajudar nos impactos da pandemia do COVID 19. Foi chamada na garantia de condições de rendimentos de subsistência dos segurados e beneficiários do sistema, na garantia de empregos durante e pós COVID, no apoio aos empregadores, na estabilidade laboral e económica do país, mesmo sem nunca ter recebido uma contribuição específica para este fim.  Basicamente, utiliza dos recursos de quem já contribuiu, com fins pré-definidos, e outros conseguidos através de uma boa aplicação dos primeiros, recorrendo ao mecanismo de solidariedade inerente a atividade previdenciária, para apoiar os seus segurados e contribuintes neste momento difícil. Digo eu, podendo ser considerado faccioso, felizmente temos esta instituição com esta capacidade a quem podemos recorrer e que consegue responder.

Contudo, para as prestações do COVID 19, particularmente da suspensão de contratos de trabalho, tem havido um coro de críticas, muitas delas injustas. Obviamente, nas injustas não incluo as dos trabalhadores que efetivamente contribuíram para o sistema e os valores nunca chegaram ao INPS porque a entidade patronal é criminosa e conveniente, de certa forma, protegido pela legislação vigente. Não incluo as que por falhas internas no processo, ainda não foram pagos. Isto dos que realmente necessitam do valor e tem direito a ele. Incluo, sim, os incumpridores que pretendem retirar de uma instituição valores para as quais não contribuem achando, se calhar, que os recursos do INPS vieram de alguma árvore milagrosa ou de outro planeta e são ilimitados. Os que acham que a tudo tem direito e deveres nenhuns. Ignorantes, de informação e por opção, oportunistas que querem fazer do valor da prestação um bónus em  vez de um apoio e que por outros interesses aproveitam o momento para tentar fragilizar a imagem de tão valiosa instituição.

Com isto não quero dizer que o INPS fez tudo bem neste processo. Mas, quem fez neste contexto COVID 19? Quem estava preparado para responder no dia ou no dia seguinte quando ninguém trabalhou num contexto normal? Com isto, também não quero desculpar eventuais falhas internas do INPS que possam ter acontecido no processo para que até agora não fosse possível pagar de forma célere e segura todos com direito a prestação. Porém, ainda bem, grande parte já foi pago e, certamente, todos com direito a prestação receberão o valor devido nos próximos dias. Acredito piamente que as eventuais falhas e erros internos cometidos, mesmo nesta conjuntura de exceção, num processo novo, serão inventariadas e corrigidas de modo que o INPS em momentos de tensão, pressão e stress, como este, não cometa os mesmos erros. Todavia, como não poderia deixar de ser, porque a relação da instituição é com todos que o envolvem, é preciso também questionar: os contribuintes terão o mesmo zelo no cumprimento das obrigações contributivas como tem na reivindicação de direitos pelos quais não contribuíram? Terão o mesmo zelo no simples cumprimento de procedimentos definidos para aceder as prestações? Os segurados e sindicatos terão a mesma diligência e atuação sobre entidades incumpridoras? Será feito a mesma pressão para que a instituição que protege seja protegida dos incumpridores? Terão a mesma noção da importância e do valor da instituição como o INPS tem de cada segurado e contribuinte?  Esperemos que sim…

 Os tempos de stress, de pressão e tensão, como os que vivemos, são propícios a mal-entendidos, confusões, procura de culpados, criticas e condenações injustas, mas, não devem ser barreiras de lucidez, portões de ignorância e muito menos de atrofia mental e do bom-senso que se exige para se ver, pessoas e instituições, além da conjuntura, além COVID 19. Compreensão, empatia e bom-senso, é o desejável. Bem-haja o INPS e a todos que dele fazem parte, sobretudo, os contribuintes e segurados.

 2,894 total views,  1 views today

Rosario Luz

My Turn

Por: Rosário Luz

Na última sessão parlamentar, o Vice-Primeiro-ministro, Olavo Correia, deixou claro em diversas intervenções que a pandemia Covid-19 desembocará numa severa recessão económica; e que o futuro exigirá enormes sacrifícios de todos os Cabo-verdianos – trabalhadores e empresas. De todos? Pelos vistos, de todos não; para alguns, a pandemia até alargou as oportunidades comerciais.

Uma das principais notícias da semana passada foi a exposição, por uma publicação online.cv, de uma empresa de aplicativos informáticos que terá, alegadamente, ludibriado os processos legais de aquisições públicas e sido indevidamente contratada como fornecedora por um conjunto de serviços e empresas satélites do Estado. A base da acusação? A participação de um deputado da Maioria, alto executivo do partido, e de sua esposa, no capital da referida empresa. 

“O deputado visado defende que pratica a política com ‘nobreza e honestidade’; que nunca utilizou indevidamente a sua influência junto de decisores públicos para avançar interesses empresariais.”

No último ano, essa empresa foi selecionada para representar o sector das TIC.cv em feiras nacionais e internacionais, para além de ser destacada para um prémio de empreendedorismo local. O seu principal produto – um organizador de filas virtuais – tem sido glorificado por governantes e militantes, promovido à exaustão nas redes sociais pelo próprio deputado em questão e, na atual conjuntura sanitária, tem assumido particular visibilidade – para não falar em rentabilidade – como “the solution” para evitar filas físicas e aglomerações. 

O deputado visado defende que pratica a política com “nobreza e honestidade”; que nunca utilizou indevidamente a sua influência junto de decisores públicos para avançar interesses empresariais; avisa que já constituiu advogado para sanar ofensas feitas à sua honra; e desafia os seus acusadores, tanto  políticos quanto mediáticos, a provar a ocorrência de tráfico ilícito de influência. 

Nunca é fácil provar esse tipo de contrafação; mas a prática histórica.cv desafia-nos a acreditar que, numa situação análoga, um membro da cúpula do partido no poder não tenha utilizado os seus contactos e a sua posição para beneficiar os seus interesses empresariais. Não por maldade, coitado; por necessidade; por imperativos de competitividade inerentes à estreiteza da economia nacional. Quando dizemos que a terra é pobre isso não significa apenas que muita gente vive na pobreza; significa também que é extremamente difícil satisfazer honestamente as nossas ambições de riqueza. Cabo Verde é um país onde não é fácil ter “vez”…

Historicamente, no território que é hoje os Estados Unidos, a “vez” de cada um estava grandemente nas mãos de cada um. Um aventureiro com garra podia enriquecer num conjunto de sectores. Se não fosse negro, se estivesse disposto a dizimar a população nativa, a ocupar-lhe a terra, a enfrentar as agruras do clima e dar muito duro na labuta, poderia tornar-se um agricultor independente – ou até rico. Para além disso, sectores como o garimpo, a ferroviária e a especulação financeira, entre tantos outros, ofereceram aos aventureiros mais intrépidos excelentes oportunidades consecutivas de enriquecimento rápido, mais ou menos dentro da lei.

“Com a Independência, um sector novo e de alto retorno abriu-se perante o povo esfomeado de mobilidade económica e social: a política.”

Já aqui.cv, o aventureiro focado no enriquecimento nunca teve grande variedade de oportunidades. Sobre os limites apertados do nosso sector agrícola, tivemos cinco séculos de ensinamento; de resto, a Ribeira Grande de Santiago e o Porto Grande do Mindelo constituíram as duas únicas – e mui breves – janelas  favoráveis às ambições do capital e da força de trabalho.cv. Fora delas, até à Independência, a solução para quem aspirava exceder os ásperos limites materiais da terra era a emigração. 

Mas com a Independência, um sector novo e de alto retorno abriu-se perante o povo esfomeado de mobilidade económica e social: a política. Para além de uma cúpula dirigente, o Estado em rápida expansão necessitava de chefias para as suas novas instituições, de quadros para os seus novos serviços, e de uma massa crescente de delegados, supervisores, administrativos e condutores. Ambicionada por todos, a inclusão entre os beneficiados do sistema requeria um investimento em duas áreas fundamentais: nas habilitações necessárias para ser útil ao Estado; e na postura política adequada para ser desejável ao Estado.

No topo da pirâmide de beneficiados, a cúpula política vivia com relativo conforto; mas as expectativas materiais dos líderes da época eram bastante modestas, e as suas ambições eram cabalmente preenchidas pelo salário e privilégios inerentes a cada cargo. Em primeiro lugar, porque as benesses adquiridas com o posto de trabalho pareciam soberbas à luz do nosso histórico de miséria generalizada; em segundo lugar, porque a própria ideia de acumulação de capital era contrária à ideologia vigente. 

Mas, com a derrota do pensamento Marxista-Leninista e com o advento da liberalização económica, da televisão e da hiper-globalização que caracterizou a década de 1990, a ideologia reinante sofreu uma transmutação radical; e a nova classe dirigente – livre de restrições filosóficas e espicaçada pela introdução do consumismo no país –  passou a conceber a atividade política não apenas como uma fonte de privilégio salarial e relevância social, mas também como uma oportunidade de enriquecimento, via o açambarcamento de oportunidades empresariais. 

Qualquer empresário.cv que queira singrar honestamente, seja em que sector for, tem um caminho espinhoso pela frente. Para produzir, tem que lidar com a carência de crédito, com o custo de inputs importados, com as deficiências da força de trabalho, com a extorsão e a falta de visão da administração do Estado. Para colocar o produto, espera-lhe um mercado diminuto, descapitalizado e geograficamente fragmentado. 

“É por isso que, a cada vez que uma nova clique ascende ao poder, os seus membros podem ser ouvidos a cantar em uníssono: ‘t’s my turn, to reach and touch the sky.’ ” 

Tal como as perspectivas de emprego dos profissionais.cv na primeira República, as perspectivas de crescimento das empresas contemporâneas dependem grandemente da boa vontade do Estado – e da rede de contactos que o empresário mantém no seu seio. É o Estado que consegue remover os obstáculos e garantir o acesso ao limitadíssimo leque de oportunidades; e, tal como antigamente, o Estado só o faz de acordo com as suas conveniências políticas e corporativas. É por isso que, a cada vez que uma nova clique ascende ao poder, os seus membros podem ser ouvidos a cantar em uníssono: “It’s my turn, to reach and touch the sky. ” 

Gravada por Diana Ross em 1980, a canção “It’s My Turn” anuncia que a sua protagonista não continuará a viver uma vida menor; e celebra o advento da “sua vez” de viver como merece. É assim que raciocinam os nossos profissionais e aventureiros empresariais quando são politicamente empoderados por uma vitória eleitoral – e pelo consequente domínio dos recursos e das decisões do Estado: it’s my turn. My turn de facturar um troco a sério, de construir uma casa supimpa sem taxas de juros asfixiantes, de comprar um carro para mim e outro para a patroa, de comer em restaurantes finos e de fazer uma férias como se faz na televisão. Nha bex. Não é à toa que as acusações generalizadas de nepotismo e tráfico de influência perpassam a totalidade da lista de Governos da Nação. 

“O primeiro escândalo deste Governo aconteceu pouco tempo após a sua investidura, quando o Ministro das Finanças efectivou um aumento das taxas alfandegárias sobre a  importação de produtos lácteos.”

O primeiro escândalo deste Governo aconteceu pouco tempo após a sua investidura, quando o Ministro das Finanças efectivou um aumento das taxas alfandegárias sobre a  importação de produtos lácteos. Aos olhos do público, a medida foi cirurgicamente desenhada para beneficiar a empresa da qual Correia tinha sido administrador financeiro durante 10 anos – e da qual ele e a esposa são acionistas. O caso suscitou muito barulho popular, foi politicamente denunciado e até levado á atenção das autoridades judiciais; contudo, tal como é da praxe em situações análogas, o barulho foi rapidamente arquivado.

Desde então, a sociedade civil já questionou a idoneidade do Executivo num conjunto de decisões estruturantes para a economia nacional: no acordo com a concessionária do tráfego aéreo doméstico, na privatização da transportadora aérea nacional e nos termos da concessão do tráfego marítimo inter-ilhas, para citar apenas algumas. Os cidadãos propõem sistematicamente a criação de uma miriade de instituições de regulação, destinadas a erradicar tais atos de alegado favorecimento e corrupção. Mas não é por ser ilegal que o tráfico de narcóticos deixa de ser atrativo – principalmente quando o mercado de trabalho e de capitais é tão restrito que não oferece opções. Naturalmente, nas mesmas circunstâncias, não é por serem ilegais que as práticas de nepotismo e tráfico de influência desaparecerão da política nacional. 

 

 3,567 total views,  3 views today

Areolino Soares Delgado

CRÓNICAS SEM TEMPO – FILHO DA PÁTRIA

Depois de semanas ao sabor do vento e ao som de ondas cantantes, o céu abria e o azul invadia a vista. Lá longe o céu beijava o mar, os lábios se tocavam e o horizonte ganhava altura. Com velas cheias e uma brisa a sussurrar os ouvidos, rasgavam-se mares da crista à cava, sem medo do respingo salgado que, intrometido, invadia o convés.

Do alto do mastro, o marinheiro vasculhava incessantemente o horizonte, à procura de novidades para o capitão. Olhos cansados, rosto de mil e uma rugas, cabelo da cor do tempo, tempo da cor da maresia. Despido de resmungos e de cabeça levantada, o corpo segura-se pelas mãos fortes e amassadas pelas lides de marinheiro, como se só existisse o agora. De relance, a vista é invadida por longínquas e desconhecidas paragens. Sorridente, o marinheiro confirma o avistado, clareia a garganta e do fundo desta solta em alta voz:

– Terra à vista, terra à vista por estibordo.

Depressa, os mastros são invadidos por outros marinheiros à procura de confirmar o avistamento. À medida que sobem, o sorriso estampa-se na cara de cada um e cada um à sua vez confirma o relato inicial. Alegrado pela informação, o capitão, que há muito suspirava por destinos desconhecidos, ordena efusivamente:

– Todo leme a estibordo.

De coração aos saltos, o navio ganha novo rumo aproado às rochas que emergem do fundo do oceano. Às milhas que se somam, subtraem-se distância até ao destino, aos detalhes que se acumulam, multiplica-se ansiedade pela nova descoberta. Latitudes desconhecidas, ares não antes respirados, sol comum, calor diferente. De olhos fartos e entusiasmado o capitão volta a ordenar:

– Arriar de tacada.

Já parados e a escassos metros de distância, contemplava-se a paisagem invulgar. Rochedos que, silenciosamente, emergiam do fundo do oceano, por vezes áridos, por vezes esverdeantes, por vezes brancos, sempre firmes, filhos do Atlântico. 

Ao ler esta prosa num livro Nhô Manel emocionou-se, sentiu as palavras invadir o tempo, cheias de orgulho. Sentado num banco de madeira, via o sol beijar a cara do monte, num testemunho de final de tarde. Na praia duas crianças corriam, visivelmente alegres e imunes às incidências que caraterizavam os novos tempos. Coração ungido pela inocência, pureza em tons de esperança. À memória de Nhô Manel chegavam nostálgicas imagens do presente já vivido. Lembrava-se do caminho percorrido por estes rochedos que fazem o atlântico curvar-se, da resiliência deste povo que de incertezas se fez nação. Da impossibilidade à confirmação, do improviso ao sonho, assim se faz esta nobre pátria. 

Uma das crianças soltou um balão, de imediato tomado pelo vento. Os olhos acompanhavam a, aparente, liberdade do voo, sem, contudo, estar a ver propriamente o balão. O voo do balão era como uma música que nos toca, ouve-se e viaja-se à boleia dos sentimentos que invadem o coração. Nhô Manel tirou do bolso um pequeno bloco de notas e uma caneta, e inspirado rabiscou:

Do mar ao céu, sempre azul. De alma enriquecida pelas conquistas, desafios nenhuns nos intimida. Intempéries vários passamos, lutas constantes travamos, do suor às lágrimas, de incertezas a vitórias, esperança sempre, coração cheio de razões. Somos frutos da resiliência, da incapacidade de desistir, do sonho de ser nação.

Do mar ao céu, sempre azul. Ontem vencemos, hoje lutamos e amanhã novamente venceremos. Não sabemos ser diferente, não sabemos não lutar. À história emprestaremos as nossas conquistas, para que o futuro saiba de nós. E nas paredes do tempo deixaremos um manuscrito, um testemunho do nosso amor por estas pedras atlânticas. Somos milhares aos, mais de, quatro cantos, somos um único coração. Somos filhos da pátria.

Autor: Areolino Soares Delgado

 1,022 total views

Odette Pinheiro 2

Dualidade de critérios

Por: Maria Odette Pinheiro

Qualquer pessoa que minimamente tenha feito investigação científica sabe que em qualquer estudo, avaliação ou contagem, os critérios usados para os diversos conjuntos devem ser rigorosamente uniformes para que os resultados possam ser comparados. É um princípio básico. Questões epidemiológicas não são excepção.

Foi por isso que estranhámos quando a equipa técnica do Ministério da Saúde resolveu reavaliar o caso de São Vicente, somando-lhe dois casos que foram negativos para o vírus activo (PCR), mas posteriormente mostraram ter anticorpos positivos – quando idêntica reavaliação não estava a ser feita em nenhum outro lugar. E estranhámos, também, o timing: o anúncio veio 44 horas antes de se saber se o estado de emergência seria levantado em São Vicente, como todos esperavam. São Vicente estremeceu!

“Aberrante era que o novo critério de contagem fosse só para São Vicente: somar ao único caso com vírus activo (o único PCR positivo na ilha) dois casos evidenciados a posteriori por testes de anticorpos; nas outras ilhas só eram contados casos que tinham o vírus activo no momento em que foram testados.” 

Imediatamente falei com alguns colegas, até em outras ilhas, que também estranhavam. Recebi telefonemas de pessoas atónitas com o que tinham ouvido. E a explicação que eu dava era que os anticorpos mostravam que realmente os dois familiares da doente tinham tido contacto com o vírus num passado em relação ao teste. Aberrante era que o novo critério de contagem fosse só para São Vicente: somar ao único caso com vírus activo (o único PCR positivo na ilha) dois casos evidenciados a posteriori por testes de anticorpos (que não identificam o vírus activo, somente a reacção de uma pessoa que teve contacto com esse vírus – e, por sinal, os únicos que testaram positivo para anticorpos, de muitos testes feitos em São Vicente); nas outras ilhas só eram contados casos que tinham o vírus activo no momento em que foram testados. 

Como tenho a convicção de que todos que possamos contribuir para que algo melhore ou endireite o devemos fazer, contactei alguém com responsabilidade no Ministério da Saúde, dizendo exactamente o que eu pensava: que não é correcto usar dois pesos e duas medidas em qualquer situação, mormente em casos de investigação científica. Que ou o Ministério esperava até poder ou querer fazer testes de anticorpos aos contactos que nas outras ilhas fossem negativos para o PCR; e, então, só então, seria legítimo contar como doentes curados todos que tivessem anticorpos; ou, caso não o pudesse ou quisesse fazer, não devia contar os dois casos em causa – por não haver uniformidade de critérios entre as ilhas. A solução seria, portanto, fazer uma “revisão da revisão” dos casos de São Vicente, desta vez para baixo! De três para um!

“Se em São Vicente o número de ‘doentes’ triplicou com esse modo de contar – e isso com uma família recatada, em que a doente até saiu de máscara quando se sentiu enferma -, imaginem se o mesmo critério fosse aplicado lá onde o vírus foi passeado, dançado, visitado de quarto para quarto…”

Claro que não esperei que o fizessem! Seria inédito ente nós! E hoje, 9 de Maio, ouvi na conferência de imprensa que já começaram a ser realizados testes de anticorpos noutras ilhas, nomeadamente na Boa Vista, mas que, sendo positivos, não vão ser contados! E à justificada insistência da jornalista responderam que em São Vicente os testes foram feitos para investigar a cadeia de transmissão. É verdade. E foi bom, pois realmente esclareceu-se a questão. Mas, então, que se ficasse por isso! Se outros que tiverem anticorpos não vão ser contados, por que foram contados esses dois? Anticorpos são anticorpos em qualquer lado: são sinais de que o vírus entrou no organismo das pessoas que os tiverem. Como podemos considerar uns como doentes curados e os outros não? Privilégio de São Vicente (pela negativa)?

Se em São Vicente o número de “doentes” triplicou com esse modo de contar – e isso com uma família recatada, em que a doente até saiu de máscara quando se sentiu enferma, imaginem se o mesmo critério fosse aplicado lá onde o vírus foi passeado, dançado, visitado de quarto para quarto nas quarentenas conjuntas em que não se sabia ainda quem era positivo ou negativo (para o vírus), em que foi alegremente ao trabalho, conviveu durante dias e dias, inocentemente, debaixo do mesmo tecto de uma família numerosa, como ouvimos na TV, etc., etc.? 

Realmente, fazem bem em não contar os que têm anticorpos positivos nas outras ilhas afectadas! Eu não gostaria que Cabo Verde fizesse manchetes mundiais com os números que teríamos! Aliás, na Europa, não se está a contar desse modo. Até porque as pessoas com PCR negativo e anticorpos positivos não sobrecarregam o sistema de saúde, pois a “doença” assintomática já está curada e as pessoas já não devem poder infectar outras (ao contrário dos que têm o PCR positivo). Noutras paragens, mesmo aquelas donde costumamos copiar, os anticorpos não estão a servir para, isoladamente, contar como “doentes já recuperados” pessoas que sempre estiveram assintomáticas. Só se posteriormente tiverem um PCR positivo, já que teoricamente ainda podem ser infecciosas. 

“O importante, e que preocupa, é que os que estabelecem os critérios não se importem com a falta de uniformidade, não reconheçam a ausência de rigor científico e a falácia das respostas dadas quando inquiridos.”

O importante aqui não é São Vicente ter um caso ou três. Felizmente, o número não mudou muito. Mas se outros contactos tivessem apresentado anticorpos (e seria interessante saber o número total de testes feitos e que foram negativos), com este método de contagem aplicado exclusivamente a esta ilha, estaríamos fritos! O importante, e que preocupa, é que os que estabelecem os critérios não se importem com a falta de uniformidade, não reconheçam a ausência de rigor científico e a falácia das respostas dadas quando inquiridos. Se não mostrarmos um raciocínio lógico e consistente nas coisas pequenas, que garantias podemos dar de o fazer nas coisas grandes? Os princípios científicos e o rigor intelectual são para ser aplicados em tudo que diz respeito à ciência, para não dizer à vida. 

E é por isso que escrevo. Devo isso a mim mesma. Devo isso ao meu país. 

Médica e antiga Assistente da Faculdade de Medicina de Coimbra 

 3,654 total views,  4 views today

Albino-Sequeira

Quantos somos?

Por: Albino Sequeira

Estamos no ano de realização do Recenseamento-Geral da População e Habitação. Ano 2020, tempo de contabilizar a matriz demográfica, social e económica do País e de saber o nosso estado de desenvolvimento. As informações dão conta do cancelamento do estudo devido a propagação do coronavírus no território nacional. 

O Censo Recenseamento-Geral da População e da Habitação, abreviadamente designado Censo, é uma investigação ocorrida num período de dez em dez anos, para recolher dados sobre a população do arquipélago e a sua qualidade de vida. O Censo responde a várias questões básicas que orientam o País e que auxiliam o Poder Central nas tomadas de decisões, tais como: informações sobre o estado, a estrutura e as características sócio-económicas da população; as componentes da dinâmica da população, ou seja, a fecundidade, a mortalidade e as migrações; dados sobre a alfabetização e educação; dados sobre as caraterísticas económicas da população, nomeadamente: a população ativa e inativa, o emprego e o desemprego, a procura de emprego; dados sobre a população portadora de deficiência, crianças e idosos; informações sobre as tecnologias da informação e comunicação; dados para a elaboração das estatísticas do género; dados sobre o parque de edifícios e, em particular, o parque de habitações e as caraterísticas essenciais da habitação; o inventário das infraestruturas e dos equipamentos coletivos existentes ao nível de cada localidade.

A realização do Censo em Cabo Verde é assegurada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e previa gastar dos cofres do Estado cerca de 650 milhões de escudos pagos aos vários funcionários distribuídos pelos terrenos nas ilhas em coleta de informações.

Quanto ao número de cabo-verdianos residentes no estrangeiro, o Censo não permite conhecer o seu montante pois limita-se a perguntar às famílias se existe algum membro do agregado que emigrou nos últimos 5 anos antes do estudo. Desconhecemos assim a forma como os nossos conterrâneos na diáspora estão a viver, em que trabalham, quantos estão a estudar e como podem ajudar o nosso território. De fato é um exercício que está fora do alcance do INE, mas no encalço da República de Cabo Verde através das suas representações diplomáticas.
As Embaixadas representam os demais serviços de um Estado nos países em que existem, que vão desde um simples registo de nascimento até atestado de óbito.

A incerteza no cálculo dos cabo-verdianos que radicam fora do território nacional é uma realidade provocada por falta de interesse das instituições públicas do Poder Executivo. É possível termos dados estatísticos certos dos nossos que vivem pelos cantos do mundo. Para tal, duas medidas são essenciais para apuramento destes valores.
1— Um indivíduo quando sai do país recebe no seu passaporte uma estampa de saída pelos serviços de fronteira e é um dado adquirido. Ou seja, através dos serviços de fronteiras podemos saber quantos deixaram Cabo Verde e estes, ao chegarem no destino, procuram os serviços consulares para o registo, dar conhecimento de que vão residir naquele território.
2— As Embaixadas da República de Cabo Verde nos demais países conseguem informações de registo de crianças e atestado de óbito, com a diferença se consegue ter o saldo, daí é só contar.

Para além destas duas normas, sugiro ainda que os serviços consulares sejam alargados e capacitados com mais recursos humanos que sejam capazes de dar resposta às questões prementes de que necessitam os Governantes. Com mais condições nestes serviços é exequível que seja realizado uma espécie de Censo na Diáspora, uma vez que os endereços dos patrícios já constam nos arquivos da Embaixada e assim obtermos informações atualizadas. Outra proposta seria descentralizar os serviços do INE, com a fixação de um pequeno gabinete contíguo às atividades do Consulado. São atenções que a comunidade cabo-verdiana merece devido a grande contribuição das suas transferências de remessas para o crescimento económico do País.

Em se tratando da importância para o PIB, em 2019 os emigrantes enviaram para o arquipélago 19.900 milhões de escudos. Para além de serem considerados os verdadeiros turistas que buscam a “morabeza” das suas terras. Deixam divisas ao consumirem, pela utilização dos transportes terrestres, investem na compra de terrenos e na construção de moradias. São os autênticos turistas e investidores do nosso território. Portanto, é altura de apostarmos mais nos residentes fora de Cabo Verde. Retribuir o que eles têm feito para melhorar as condições de vida das pessoas.

Se houver um investimento por parte do Governo nas propostas aqui apresentadas poderá aproximar de um valor real de quantos somos dispersos pelos arredores do planeta e nos anos seguintes atualizar a pesquisa. O importante é não ser prepotente em aceitar as propostas, mas sim, analisá-las e optar por uma solução melhor.

 716 total views

Antonio Santos

Erros de estratégia

Por: António Santos

A atual situação pandémica veio pôr a nu algumas fragilidades do nosso sistema. Eventualmente, poderia ter sido menos penoso para o Estado cabo-verdiano, tanto a nível sanitário como a nível financeiro, se tivesse sido feito um trabalho de preparação para uma situação que, todos nós, sabíamos que, mais tarde ou mais cedo, chegaria a Cabo Verde. Deveríamos ter adquirido, a tempo e horas, equipamentos para que as Forças Armadas de Cabo Verde, nomeadamente a nível aeronáutico, pudessem ter ocorrido, prontamente, a esta «guerra global»..

É, por isso, que não se entende a posição do comandante da Guarda Costeira, o comandante Santana, que se vangloria da grande missão prestada pelas Forças Armadas no combate à Covid-19, esquecendo que o alastramento da doença se deve, em parte, à ineficiência demonstrada no transporte dos testes e de equipamentos de proteção individual, bem como na evacuação dos doentes. Tudo por causa do meio de transporte utilizado, o “navio” que, por natureza, não é suficientemente rápido para uma emergência deste tipo.

Todos estamos de acordo: em momentos de crise sanitária não nos devemos preocupar com os custos dessas missões. No entanto, é no mínimo estranho que se tenha optado pelos transportes marítimos em vez de optar pelo transporte aéreo. Poderia arriscar a dizer (pelas informações que tenho, mas que carecem de alguma tecnicidade) que uma missão de São Vicente/Praia/São Vicente, por via marítima, pode custar cerca de 2.000.000$00 CVE. Quando a mesma missão, se fosse usada uma aeronave do tipo Dornier, não ultrapassaria, talvez, os 200.000$00 CVE.

“Se o Guardião estiver envolvido no transporte de testes ou outro equipamento necessário para minimizar os riscos de contágio pelo Covid-19, que meios vão ser atribuídos à patrulha/vigilância do litoral da Boa Vista em consonância com o litoral da ilha de Santiago?

Contudo, a mensagem que estão a tentar passar é que não é preciso uma aeronave porque o navio Guardião, da Guarda Costeira, dá conta do recado. Compreende-se que o comandante da Guarda Costeira não reivindique um avião, por “ter olhos” só para os meios navais. Até aqui, tudo bem. Agora, já não se compreende e nem se entende que o responsável pela Guarda Costeira não “enxergue” o quão útil é uma aeronave no cumprimento das missões, muitas delas navais, designadamente as de busca e salvamento.

Bom, a inexistência de meios para o patrulhamento coloca em causa, também, a soberania nacional. Se o Guardião estiver envolvido no transporte de testes ou outro equipamento necessário para minimizar os riscos de contágio pelo Covid-19, que meios vão ser atribuídos à patrulha/vigilância do litoral da Boa Vista em consonância com o litoral da ilha de Santiago?

Voltando à “vaca fria”. Um dos calcanhares-de-Aquiles deste Governo, e que ainda está por resolver, é o “negócio CASA”, em que só um lado saiu a ganhar em todos os aspetos, incluindo o equipamento hospitalar (maca de transporte de doente) que foi montado no avião da SeveNair à conta do erário público cabo-verdiano. A pergunta que se impõe é sobre as razões que levaram o Governo a entrar «nesta fria».

A resposta pode ser encontrada na escolha do assessor militar, (Capitão de Patrulha), que estava autorizado a assinar um protocolo em representação do Governo/FAS de Cabo Verde, tendo feito uma viagem a Portugal para negociar um avião para transporte de doentes (Ambulância Aérea) e o conserto do Dornier de Cabo Verde pela empresa SevenAir.

“Um dos calcanhares-de-Aquiles deste Governo, e que ainda está por resolver, é o ‘negócio CASA’, em que só um lado saiu a ganhar em todos os aspetos, incluindo o equipamento hospitalar (maca de transporte de doente) que foi montado no avião da SevenNair

Este negociador teve uma visão histórica digna da sua competência. Conseguiu propor/negociar a troca de um avião (Dornier) no momento operacional, mas que carecia da revisão das hélices, por dois Aviocar Casas 212-100, da Força Aérea Portuguesa entre 1973 e 1975, mas desativados há pelo menos 12 anos e ainda por cima «descontinuados» em termos da sua fabricação.

O senhor Ministro da Defesa, pelos vistos, não se deu ao trabalho de analisar o curriculum desse individuo, que já demonstrou não ter nenhuma competência em aconselhar o MD ou o CEMFA nessa matéria e que já encobriu as coisas maléficas desse negócio para o Estado de Cabo Verde. Não relatando ao Ministro que a dita empresa não tinha nenhum contrato de trabalho com forças aéreas a nível da aviação militar, e muito menos aval da EADS Casa, fabricante dessa aeronave que há muito foi “descontinuada a sua produção”.

Mas, o pior desta situação, no mínimo caricata, foi a ida a Portugal de quatro militares para participar nos trabalhos de overhal (fachada) para confundir a nação cabo-verdiana e mostrar que os negócios/trabalhos estavam indo bem. Algo confirmado pelo próprio Ministro e, posteriormente, desmentido.

Sabemos que esse Capitão de Patrulha conseguiu realizar formações junto da SevenAir, usando os recursos do Estado. Já que, conforme explica um técnico da Força Aérea Portuguesa, um piloto militar não precisa de fazer formações a nível de piloto comercial para obtenção de uma licença comercial para pilotar aviões militares, sendo que essa empresa forma pilotos civis para o trabalho aéreo comercial. Pilotos militares são formados nos exércitos ou nas Forças Aéreas.

“O Dornier sempre que esteve operacional deu prova de ser um grande equipamento, mas a sua gestão sempre foi um fracasso, também muito por culpa da Autoridade Aeronáutica Civil Cabo-verdiana…”

E, pelo que apuramos, o curso do JetStream que o mesmo fez em Portugal não traria nenhum beneficio a nível operacional, visto falar-se na aquisição de aviões de natureza militar para as Forças Armadas. De propósito, usou como argumentos para confundir o MD da Defesa que havia uma necessidade imperiosa dos pilotos da Guarda Costeira fazerem a habilitação na aeronave Jetstream. Formação que, ao que sabemos, custou muito ao Estado de Cabo Verde, que não retirou nenhum proveito.

Mas não fica por aqui, o ex-Diretor Nacional da Defesa foi exonerado do cargo por não ter o mesmo entendimento do MD sobre o Capitão de Patrulha.

Sabemos que o coronel Miranda foi o escolhido do Ministro para dar corpo ao negócio fachada dos Casas, tendo o mesmo liderado a vinda a Portugal de uma equipa de “navegabilidade e inserção de frota” pouco tempo depois da sua tomada de posse. Pergunta-se inserção de frota ou destruição de frota? Mostrando também que a falta de competência o fez entrar num “campo onde a bola para ele é quadrada”.

Sim porque o Dornier sempre que esteve operacional deu prova de ser um grande equipamento, mas a sua gestão sempre foi um fracasso, também, muito por culpa da Autoridade Aeronáutica Civil Cabo-verdiana, que tomou para si – a pedido de algum “intelectual militar” – a tutela inspectiva e navegável do avião, como se tratasse de um avião para uso comercial; quando na verdade esse avião é para uso militar não obstante o seu registo, não poder estar inserido no sistema da aviação civil nacional e ter de cumprir com os mesmos requisitos de uma aeronave para fins comerciais. Isso é inconcebível, só gera mais custos ao Estado e limita a missão de natureza espontânea e pontual, mas também confidencial.

Claro que sabemos que os aviões para navegarem precisam todos de certificados de navegabilidade, mas cada um com a sua especificidade. Militar e civil são campos de atuação diferente mesmo que, em termos de tráfego aéreo, cumprem com os mesmos requisitos estabelecidos na Organização Internacional da Aviação Civil.

“Se o Governo quer ter uma aviação que ajude na segurança das nossas ilhas, na salvaguarda dos nossos recursos marinhos, no patrulhamento das nossa águas, no combate ao narcotráfico, entre outras ameaçastem de parar de pensar como amador.”

Sendo assim, desde que esteja em condições de voar, sem pôr em perigo a segurança em termos de navegação aérea, pode voar, sem problema, para cumprimento das missões militares ou do Estado. Um avião para uso militar não tem fins lucrativos. Logo não lhe é exigido seguro para terceiro, sabendo que o Estado acautela, em caso de acidente ou incidente, os custos. O pagamento de seguro incide obrigatoriamente nos aviões de companhias aéreas comerciais principalmente. Pelo que sei e investiguei não encontrei uma força aérea que pague seguro dos seus aviões de transporte, de combate, de projeção de tropas, de lançamento, etc.

Se o Governo quer ter uma aviação que ajude na segurança das nossas ilhas, na salvaguarda dos nossos recursos marinhos, no patrulhamento das nossa águas, no combate ao narcotráfico, entre outras ameaças, de parar de pensar como amador e fazer as coisas certas, que é ter como parceira as Forças Aéreas dos países com quem nos relacionamos, assim como tem sido feito com as marinhas dos países amigos no apetrechar da Esquadrilha Naval.

É obrigatório elaborar um projeto que vise servir o Estado e não elaborar projetos de fachada para politiquices e realização de fantasias de alguns amadores armados em assessores.

Tenho dito.

 6,106 total views,  4 views today

Pedro Pires

Covid-19: Mensagem de Pedro Pires aos cabo-verdianos

Escolhi esta altura para vos dirigir mais uma mensagem, justamente, após as Autoridades nacionais terem decidido, e bem, pela prorrogação do estado de emergência nacional. Esta decisão significa que não estão ainda criadas condições sanitárias e comportamentais que permitiriam dispensar, sem riscos sérios para a saúde pública, as medidas obrigatórias de confinamento domiciliário e de distanciamento físico e social.

Nestas circunstâncias críticas é preciso ter em conta que o Governo e o Poder Local agem e trabalham em prol do nosso bem-comum. Por isso, a responsabilidade para o sucesso desta batalha nacional pela saúde e pelo bem-estar incumbe a todos nós. Vejo nesta atitude participativa o cumprimento do dever patriótico de cooperação e de solidariedade com os poderes públicos. Entendo que é na perspectiva de proteger a saúde pública e a continuidade da Nação que se deve encarar o dever pessoal e colectivo inadiável de solidariedade com a nossa terra e com o nosso Povo. Esta missão digna de defesa e segurança da perpetuidade da nossa Nação incumbe a cada um e a todos nós.

O exercício efectivo e eficaz da autoridade pública é, nestas circunstâncias, imprescindível. Ela é legítima, pois provém de instituições legitimadas pela vontade nacional, livremente expressa. Os agentes de Autoridade não podem escusar-se a exercê-la, por mais incómodo que seja este exercício. É uma função institucional inerente ao normal funcionamento do Estado de Direito. Por isso, os agentes da Polícia Nacional, das Forças Armadas, das Polícias Municipais e da Protecção Civil devem ser respeitados e as suas orientações pacificamente acatadas por todos nós. Devemos ainda realçar a outra face da situação que é de natureza pessoal: eles correm riscos de contágio, estão afastados dos seus familiares e amigos e estão sujeitos às mesmas pressões psicológicas e renúncias e a idênticos sacrifícios pessoais. Estão-se sacrificando, por dever de ofício, pelo nosso bem-comum. Merecem respeito, gratidão e reconhecimento!

Além disso, a situação grave na ilha da Boavista preocupa-nos a todos. Pois, constituímos um todo unido, a Nação cabo-verdiana! Há uma parcela do nosso País que está em aflição. Assim, manifestamos a nossa solidariedade com a população da ilha, com as suas organizações sociais e as suas empresas e com a Assembleia e a Câmara Municipal, juntamente, com o seu Presidente. Estamos convencidos de que vencerão e, juntos, venceremos este difícil desafio, de forma solidária e com a contribuição e a solidariedade da sociedade, da Nação e do Poder Central. Não podemos também descuidar-nos da situação na cidade da Praia, que, por si, já é bastante preocupante.

A cooperação e a participação responsável das pessoas são imprescindíveis. No nosso comportamento do dia-a-dia, devemos conduzir-nos de forma cautelosa, considerando que o coronavírus está sempre presente e os riscos de contrair a enfermidade são permanentes. Em tais circunstâncias, a irreflexão e a imprudência são más companheiras de viagem.

Uma saudação de encorajamento e solidariedade aos que tiveram a pouca sorte de se contaminar. Não devia ter acontecido mas, infelizmente, aconteceu. Porém, não estamos diante de um papão invencível! Há razões suficientes para acreditar e estar optimistas. Desejo, a todos, coragem, paciência, confiança e muita fé. Resistam e lutem, porque conseguirão a realização dos vossos desejos, nossos também! Desejo-vos muita força de vontade e muita sorte!

Amigas e amigos, caros compatriotas:

Esta pandemia mexeu com a vida das pessoas e das Nações. Ninguém ficou incólume! O que estava seguro passou a ser inseguro; o que estava certo passou a ser incerto. Semeou a incerteza e a imprevisibilidade por todo o lado. Destas alterações, virão graves e variadas consequências que, vencida a epidemia, terão que ser repensadas, re-equacionadas e resolvidas. Disto, devemos estar prevenidos, quer da abrangência, quer da complexidade, das tarefas que nos esperam, cada um a seu nível e à sua dimensão.

Entre nós, as alterações ao nosso dia-a-dia e os incómodos causados pelo vírus são enormes. No entanto, variam com a condição material de uns e de outros. Há diferenças entre a cidade e o campo e, certamente, entre as ilhas. Mas, são os que vivem dos ganhos imediatos de uma labuta do dia-a-dia os mais afectados com as restrições impostas pelo estado de emergência nacional, vendo-se na impossibilidade de angariar o necessário ao seu sustento quotidiano. Merecem, por isso, uma atenção particular dos poderes públicos. Porém, haverá pessoas ainda mais afectadas: os doentes isolados, os idosos sós e as pessoas incapacitadas e sem amparo familiar. São outras situações críticas que reclamam a atenção dos poderes públicos, dos cidadãos e das instituições beneméritas e solidárias.

Nas actuais circunstâncias, é importante fixar a primeira prioridade, a mais urgente, entre as prioridades nacionais. Entendo que a primeira prioridade seja a concentração dos meios e dos esforços no combate à expansão do coronavírus, a fim de se acelerar a sua erradicação do nosso País e se atingir o “ponto de risco mínimo” o mais cedo possível, o que nos permitiria alcançar a normalidade social, a partir da qual estaríamos em condições de criar os outros requisitos essenciais para a arrancada e a impulsão de uma nova caminhada, que possibilitará o enfrentamento, com sucesso, dos complexos e difíceis desafios económicos, financeiros e sociais, que se seguirão.

Este é o tempo da ponderação, do bom senso, da desenvoltura e perspicácia, da reflexão sincera, da união e de responsabilidades partilhadas. É óbvio que juntos e solidários, seremos muito mais fortes!

Estou convencido de que, caldeada por esta dolorosa e difícil provação, a sociedade cabo-verdiana sairá menos emocional, mais amadurecida e mais calejada para enfrentar outras situações complicadas. De igual modo, as intuições do nosso Estado sairão fortalecidas e mais credibilizadas, o que representa um avanço importante na construção e na garantia do nosso futuro. E, o mais importante, as lideranças nacionais, políticas, económicas, financeiras, sociais e religiosas, sairão melhor apetrechadas para vencer os próximos desafios que nos esperam. Poderá, até, significar uma experiência fecunda que reforçará a nossa maturidade e consolidará a nossa maioridade política, psicológica e cultural, enquanto Povo livre e soberano.

Do meu lado, a minha atitude e o meu compromisso são de cooperação solidária com o Povo e com as instituições públicas nacionais, incluindo o Governo cabo-verdiano, nesta batalha inadiável contra o coronavírus, que estamos convocados a ganhar. E, proximamente, nas batalhas que virão e que serão mais duras, complexas e exigentes!

Saúdo-vos com muito afeto e esperança, do vosso “mais velho” e companheiro de jornada, Pedro Pires.

 1,616 total views

Alector Timas

Um chamado do Jovem Líder Embaixador da Paz de Cabo Verde

Por: Alector Timas

2020 é o ano que marcará a humanidade. A pandemia denominada de covid-19 está a criar pânico por toda a parte do mundo, obrigando líderes mundiais a tomar medidas radicais para prevenir a propagação do vírus. Países como os Estados Unidos da América, Itália e Espanha, segundo as estatísticas são das mais afetadas, chegando até 500 mortos num dia, estão a ver os seus cidadãos a serem dilacerados por essa pandemia.

Uma das medidas amplamente tomadas em todo o mundo é a quarentena total por um largo período, o que tem causado um conjunto de transtornos, sobretudo na economia. Outros até chegaram ao ponto de decretar o estado de emergência, como é o caso de Cabo Verde, um país com 560 899 habitantes (estimativa 2017 INE), com uma economia que depende parcialmente do exterior e da sua comunidade na diáspora – que é bem maior do que os próprios residentes -, por isso  vê-se encuralado pela pandemia. Mas o povo cabo-verdiano é forte e resiliente.

Nenhum país pode resolver esse problema sozinho, nenhuma parcela da sociedade deve ser desconsiderada se quisermos efetivamente enfrentar esse desafio mundial. Essa pandemia é um teste, não só aos nossos sistemas e mecanismos de assistência médica para responder às doenças infeciosas, mas também à própria comunidade de nações diante de um desafio comum. As universidades como polos de conhecimento preparando os seus jovens para colmatarem os desafios do mercado, digo que já é chegada a hora dos jovens soldados universitários unirem e mostrarem ao país que são o futuro e dignificarem os esforços que foram feitos para eles. Os laboratórios universitários podem e devem prestar auxílio neste momento aos nossos guerreiros da saúde, não só, todos os alunos, cada um na sua área, neste momento é um soldado na nossa luta contra este novo inimigo invisível. 

O país precisa da solidariedade de todos neste momento. Não apenas dos nossos amigos de Cuba e da China, que são ponta-de-lança no apoio sanitário aos mais afetados, peço que também olhem para nós, esta “ilha insular e afortunada” como disse Basil Davison. Aos estudantes cabo-verdianos no exterior é hora de colocarmos as nossas habilidades técnicas em ação, porque somos CABO VERDE.

O nosso novo inimigo colocou-nos entrincheirados nas nossas casas, mas é a partir das trincheiras que se derruba o inimigo. Fiquemos em casa, sim, mas fabriquemos estratégias a partir das nossas trincheiras. Um soldado quando vai à luta não sabe o que a originou, mas sabe porquê está a lutar. Esta luta é de todos nós, venceremos com a solidariedade de todos. 

 1,328 total views

Nelson-Faria-Final-648x599

Carnaval D’Soncente: Fantástico? Só? Maravilhoso!

Por Nelson Faria

A cada ano melhor que o anterior num patamar elevado onde só pode retornar ao futuro. O futuro artístico e económico do evento. Só se pode projetar onde melhorar para que este grandioso evento seja devidamente apreciado e aproveitado em todas as vertentes. 

Carnaval d’Soncent é composto pela animação empregue pelos mandingas, grupos espontâneos, dos centros educativos entre outros foliões, mas, sobretudo, feito pelas agremiações carnavalescas que desfilam na terça-feira de Carnaval e competem para os prémios. 

Todo o Carnaval é especial e tem o seu prazer, porém, a terça a tarde suscita outro interesse e outra envolvência. Cada ano exige e vem requerendo outro preparo e outro trato. O nível é o de sempre: top, top top. Ot level!

A nível artístico a dimensão é estratosférica. A nível económico é certo e cristalino, a vista do olhómetro, que todo o investimento tem retorno garantido. Ao nível da cumplicidade e envolvimento da ilha, dos residentes, dos visitantes e da diáspora, não poderíamos estar mais juntos e misturados, não obstante as preferências “clubísticas” pelas agremiações. 

Felizmente os grupos não dececionam. Garantem um trabalho de exímia qualidade ao alcance apenas de grandes artistas e pessoas extremamente determinadas e dedicadas a causa do carnaval. Válido para todos. Meus parabéns e agradecimento por mais um extraordinário evento. Ainda estou deleitado com o que vi e vivi este ano! Não vou pormenorizar porque já se escreveu e está visto nas fotos e vídeos o quão maravilhoso é este espetáculo.

Difícil é a tarefa do júri nas escolhas que tem de fazer, todavia penso que será feita com critério e consciência. Só pela assunção da responsabilidade sobre tão difíceis decisões merecem aplauso e respeito. Na minha opinião, decidem sempre bem. Decidem na justeza dos critérios que avaliam de forma coletiva e não na subjetividade das preferências individuais.

Do que vi, referente a acomodação dos espectadores nas bancadas, cadeiras, minibancadas, projetos de, de pé, sentados no chão, permitam-me uma opinião, sem tabus e apego a “tradições”.  O espectáculo do desfile de competição merece outro palco, não que as Ruas de Morada não sejam merecedoras e dignas da magnitude  do evento, mas sim porque o espectáculo per si já merece ser tratado da forma profissional e elevar-se em todos os quesitos: na proximidade com estaleiros, na facilidade de acesso sem por em causa outras acessibilidades, na  previsibilidade de desfile sem contratempos por cima e por baixo dos andores e foliões, num trajeto adequado a constante intensidade do espectáculo em todas as fases, na propagação do som de forma uniforme, na boa acomodação do espectador que quer e está disposto a pagar pelo espectáculo.

Reconheço o esforço que se tem feito com as bancadas, contudo, manifestamente insuficientes para todos. Isto contribui apenas para outro tipo de negócios e tratamento desigual de todos que querem e estão dispostos a pagar por um espectáculo de grande nível. Que alternativas? Várias. “Sambódromo” construído ou adaptado, porque não? Basta olhar para a ilha. Garantidamente, qualquer investimento feito com este intuito seria amortizado em pouco tempo. O espectáculo merece, as agremiações merecem e o espectador também. 

Valeu Soncent! Valeu Carnaval 2020! PARABÉNS!

 1,060 total views