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O poder destrutivo da disseminação de Fakenews e desinformação: Da polarização à intolerância!

Por: João Bosco Gertrudes(*)

Em um texto anterior abortei o tema de uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) na educação em tempos pandêmicos e pós-pandêmicos onde chamei atenção sobre a necessidade de legislação específica para combate implacável às fakenews (informações falsas) e a desinformação (desconstrução de verdades cientificamente comprovadas e de conquistas históricas, por exemplo). Naquela altura a preocupação era com o estrago que a disseminação de informações, notícias falsas e desinformação podem causar no setor da educação intermediado por tecnologias digitais. 

Mas esse tema é um pouco mais abrangente e resolvi trazê-lo a tona com outro enfoque no campo político. A motivação é a percepção através de posts, comentários e até mesmo de convites explícitos (para palestras em agremiações juvenis partidárias) que; pessoas inclusive do meu círculo de contatos estão a consumir fakenews e desinformação produzida pelos chamados digital influencers de outras paragens e obviamente fiquei encasquetado. Alguns desses ditos influencers são conhecidos como verdadeiros arruaceiros digitais e que têm contribuído para a disseminação de intolerância mundo afora.

À título de exemplos de extremistas digitais, “ideólogos” como Steve Bannon ou Olavo de Carvalho são considerados os casos de maior sucesso no poder de manipulação de grandes massas pelas redes sociais e são supostamente os responsáveis pela eleição e/ou pela geração de uma legião de figuras com discursos abomináveis e absolutamente intolerantes um pouco por todo o mundo. O pior é que essas duas montanhas (Bannon e Carvalho) deram voz e pariram muitos ratinhos mundo afora (milícias digitais) e um modus operandi que tem na disseminação de fakenews e desinformação o seu maior perigo. [Segue o fio nos parágrafos seguintes].

As fakenews e a desinformação aliada à paixões politico-ideológicas têm contribuído mundo afora e de forma preocupante para a deterioração do discurso político propositivo; têm aumentado a crispação política; têm contribuído para a criação de ambientes políticos ríspidos e polarizados que prejudicam a criação de consensos e que podem facilmente descambar para extremismos e cometimento de crimes. Prova disso à nível nacional é o recente episódio de post radical com ameaça de morte dirigido à parlamentar e presidente de um dos partidos de oposição em Cabo Verde (CV) por intolerância política (sugestivo de crime cibernético).

E a nível internacional uma cena lastimável, nunca antes vista na história. A recusa do ainda presidente dos EUA em aceitar o veredicto das urnas e que busca incessantemente através da divulgação de fakenews, desinformação e delíros fazer-se acreditar em possíveis fraudes nas eleições nos states, por hora sem sucesso. O que aparentemente é cômico e que até agora só lhe rendeu memes engracadíssimos de mau perdedor (bad loser) é ao mesmo tempo perigoso para a democracia do país (e do mundo!) porque abre precedentes para a judicialização desnecessária de pleitos eleitorais e em última instância de relativização do resultado (já que no fundo o que se pretende de forma sorrateira é a possibilidade de decisão no tapetão depender de inclinação politica o que seria um absurdo); abrem-se também precedentes para o “caos” e baderna social por parte daqueles que acreditam nessa balela de fraude; além de promover o descrédito nas instituições democráticas do país.  Mas tudo isso é produto de um enredo já muito bem planejado: o tal de dividir para reinar.

De volta aqui para a nossa realidade. A questão prática diante disso é o que queremos enquanto sociedade de brandos costumes. Se nossa pretensão enquanto sociedade é manter a morabeza e a educação como nossas bandeiras de apresentação ao mundo, precisamos falar sobre esse mal, suas consequências; beber da experiência em outras paragens e criarmos os mecanismos necessários para combatê-lo. 

A disseminação de fakenews e desinformação é um dos efeitos colaterais mais maléficos do avanço das TICs. Circulam na velocidade dos cliques nas redes sociais e já contam com suporte de ferramentas cada vez mais sofisticadas para sua criação e disseminação. Hoje em dia com o avanço das TICs e das suas versões do mal é possível a qualquer indivíduo (sob a denominação de bloggers, digital influencers, youtubers, instagamers, deepfakers; etc) distorcer textos, fatos, falas, vídeos (isso mesmo!) e/ou abrir as chamadas “lives” para disseminar um monte de baboseiras nas redes sociais sem nenhum compromisso com a verdade ou com o bem comum; sem nenhuma punição por isso ou até mesmo sem ser descoberto. Ou às vezes descoberto tardiamente depois de ter criado uma legião (também chamado de bolha) de fiéis seguidores capazes de acreditar em “verdades paralelas” como o terraplanismo; movimentos anti-vacinas; movimentos pro-cloroquina e ozônio como curas milagrosas para COVID-19, entre outros absurdos, balelas e delírios. 

Soma-se a isso a já tradicional disseminação de conteúdos apelativos capazes de potencializar e dividir a opinião pública e que obviamente nesse ambiente digital de rápida propagação geram frenéticos “likes”, “dislikes” e “replays”, uma espécie de réplica, tréplica e autodireito de resposta oriundos de comentários apaixonados do público (followers) na tentativa de defender seus pontos de vista de forma rápida, rasa, e às vezes sem tempo para fundamentação. Entre esses temas preferenciais das chamadas milícias digitais para criação de bolhas reacionárias e promoção de divisionismos raivosos na sociedade estão as mais sensíveis como a corrupção, o aborto, a igualdade de género, o racismo, etc e mais recentemente a divisão entre os que defendem políticas públicas de combate a COVID-19 baseada em evidências científicas e os que não estão dispostos a pagar o preço dos impactos económicos dessas medidas. A polarização rola solta como se não houvesse o amanhã; como se não houvesse meio termo e correlação entre os esses extremos e sem a mínima chance para o diálogo. O modus operandi das chamadas milícias digitais tendo sido o mesmo: gerar “likes”, “dislikes” e popularidade digital a partir desses temas polémicos e lucrar com isso. Algum problema nisso? Em princípio não se houvesse uma preocupação com a verdade. O problema é quando não há esse comprometimento com a verdade e os fins (popularidade, lucros e cargos políticos) se sobrepõem aos meios. Ademais, criam-se sutilezas e truques que exploram a falta de tempo, de conhecimento e de paciência das pessoas em checar os fatos e isso tem contribuído por aumentar a disseminação das fakenews e desinformação e que tem sido usadas como poderosas ferramentas de manipulação de massas. Isso tem contribuído de forma cabal com a crispação e a intolerância mundo afora. 

Na arena politica o custo disso tem sido a chegada ao poder de indivíduos absolutamente intolerantes; que ganharam notoriedade a partir de falas extremistas e criminosas ditas à margem da lei e sob proteção de foro privilegiado e impulsionados pelo apoio das chamadas milícias digitais. Com pretextos obscuros de mero acesso ao poder, as milícias digitais pouco importam com a verdade e muito menos com os efeitos disso na sociedade. 

Portanto, o custo é alto e esse mal moderno precisa ser combatido. O combate é uma tarefa de todos os cidadãos que realmente promovem a política do bem comum e de quem de direito nas esferas dos poderes públicos. Como? 

Inicialmente através de campanhas educativas com ampla cobertura e com claro objetivo de chamar a atenção da sociedade civil sobre os impactos desse mal na sociedade inclusive expondo os truques chamativos usados por eles. É também papel fundamental dos pais e encarregados de educação o engajamento nesse tema sob o aspecto educativo. Desde cedo formar cidadãos que tenham consciência seletiva no acesso à informação de qualidade, da importância de checagem dos fatos, do compromisso com a verdade e a ética; da importância de denunciar e não passar adiante informações duvidosas oriundas de fontes não confiáveis. É também papel dos verdadeiros bloggers, digital influencers, youtubers, instagamers de bem (independente da sua orientação politica, ideológica, raça, orientação sexual, etc) o devido comprometimento com a verdade e o papel de cada vez mais ocupar os espaços das milícias digitais e sufocá-los com a verdade. Cabe aos cidadãos de bem não corroborar com a politica do “quanto mais likes melhor” também chamada por aqui pejorativamente como politica da lacração. E a melhor forma de fazer isso é checar os fatos, dar crédito às informações verídicas e às fontes confiáveis e não consumir ou passar adiante informações e conteúdos de cunho duvidoso. Dito de outra forma é não seguir milícias e extremistas digitais, eles vivem de financiamentos obtidos por propaganda divulgada nos seus canais. Não seguí-los significa não financiá-los.  

Nas esferas do poder público é necessário criar e/ou adequar a legislação e mecanismos de fiscalização para combater os crimes cibernéticos incluindo a disseminação de fakenews e desinformação. A internet e as redes sociais não podem se transformar em uma espécie de terra sem lei onde as pessoas não raras vezes, sob anonimato, ou de forma proposital e com objetivos obscuros são capazes de ocultar a verdade; assassinar reputações; influenciar massas e levar ao poder mentes perturbadas e criminosas com aprovação popular. Quem promove isso tem que frequentar antes as páginas policiais e perder o direito de pleitear cargos eletivos. Isso é absolutamente o caminho da morte das democracias. É notória a importância das redes para encurtar distâncias e a comunicação. Não deve ser espaço para criminosos e fundamentalistas digitais! Torço para q CV siga um caminho diferente!

(*) Cidadão ativo, Escritos de 24/11/2020 (jbosco.cv@gmail.com)

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