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Familiares e amigos vão cantar “Sodade” e lançar flores à Baía do Porto Grande em homenagem ao navegador Topad

Amigos e familiares vão depositar esta tarde bouquets de flores no mar da baía do Porto Grande numa singela e sentida homenagem a Topad, navegador mindelense que fez a travessia solitária do Atlântico por 35 vezes. Essa cerimónia visa assinalar o primeiro aniversário da morte súbita desse exímio marinheiro, que foi vítima de um acidente cardiovascular, após uma época intensa de competições.

A homenagem acontece hoje à tarde entre as 16 e 19 horas no cais da Alfândega do Mindelo, local de onde António “Topad” da Cruz zarpou para a Europa escondido num iate, com apenas 14 anos de idade. Doze anos mais tarde, esse ex “mnine d’rua” cumpria a promessa de regressar ao leme de um iate para a baía do Mindelo como comandante. “Vamos depositar as flores ao som da música Sodade porque este é o sentimento que nos invade”, comenta o amigo Albertino “Titino” Francês, organizador dessa cerimónia, que terá, no entanto, uma forte vertente cultural.

Durante duas horas, o cantor Edon “Sampê” Oliveira irá actuar num palco que terá como fundo uma pintura desse falecido velejador, que granjeou uma grande popularidade em S. Vicente muito por causa da sua humildade e simpatia. Segundo esse artista, que será acompanhado por Bau e sua banda, o reportório é composto por músicas cabo-verdianas e internacionais , incluindo reggae, um estilo muito apreciado pelo homenageado. “Não tive o privilégio de conhecer o Topad, mas cheguei a vê-lo algumas vezes pelos lados da Avenida Marginal. Mas sei que ele foi um atleta que divulgou o nome de Cabo Verde pelo mundo. Ele merece o nosso reconhecimento”, diz o cantor Edson Oliveira.

Nascido na Bela Vista, Topad era um homem do povo, que nunca esqueceu a sua origem humilde, motivo que leva a organização a disponibilizar o micro a quem quiser endereçar-lhe uma mensagem hoje à tarde. Esse momento será acompanhado pela mãe desse navegador, que conquistou uma série de troféus e fez questão de carregar nas costas e nas lonas do seu iate Vire Vent a bandeira de Cabo Verde. “Infelizmente a sua família na Suíça não poderá estar presente, mas fizeram questão de ajudar nas despesas desta humilde homenagem. Vários amigos de Topad na França ficaram sensibilizados e colaboraram com a organização. Amanhã vão fazer um almoço e dar um passeio com o seu barco em Geneve para assinalar o seu passamento”, conta Titino, que irá fazer a abertura da homenagem e relatar a história desse navegador que atravessou o Oceano Atlântico por dezenas de vezes e conquistou vários títulos na Europa.

Sepultado sem honras oficiais

O velejador solitário António “Topad” da Cruz faleceu na Suíça no dia 27 de Setembro do ano passado, vítima de um acidente cardiovascular que afectou gravemente o lado direito do seu cérebro. O atleta cabo-verdiano foi submetido a duas cirurgias de emergência, mas não resistiu aos danos provocados acabando por falecer num hospital suíço. Foi sepultado, sem honras oficiais, no dia 8 de Outubro, em S. Vicente, num cortejo que reuniu centenas de amigos.

A notícia do seu falecimento chegou a Cabo Verde através de um telefonema da esposa de Topad, que contactou Albertino Francês, um amigo próximo do velejador mindelense, a colocar-lhe a par do sucedido. Em princípio, esse experiente atleta deveria ser submetido a uma operação ao coração, mas os médicos desistiram da ideia, já que o seu cérebro deixara de funcionar. Por essa altura, Topad estava envolvido nalgumas competições, tendo inclusivamente vencido uma prova na Suíça. É possível que tenha sucumbido à pressão física e mental.

Topad era considerado um exímio velejador solitário, o cabo-verdiano com mais experiência e títulos conquistados nesse mundo desportivo. Foi nessa categoria que conquistou no dia 2 de Setembro de 2018 o seu último triunfo, ao vencer a prova SYZ Translemanique, considerada a rainha das regatas. A competição envolveu 110 velejadores de vários países.

Na sua conta pessoal no Facebook, Topad agradeceu as muitas mensagens de encorajamento enviadas pelos cabo-verdianos com um texto breve, ilustrado por uma foto com o seu veleiro “Vire Vent IV”. “Obrigado pelas vossas mensagens de coragem. A regata foi muito rápida. Fiquei em primeiro lugar na minha categoria e tive o melhor tempo, mas estou com dores por todo o corpo. É a idade. Aquele abraço. God Bless”, escreveu, dando indicações que realmente se sentia cansado. Aliás, pretendia entrar de férias e regressar no mês de Outubro à cidade do Mindelo.

Kim-Zé Brito

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2 Comentários

  1. A ver vamos se algum dia as autoridades nacionais (governo e camara municipal) se lembrarão de dar a devida consideração, dignidade e respeito a esse excepcional caboverdeano (único).

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