A entrega anual de mochilas recheadas de material escolar a crianças de agregados sem recursos tornou-se o coração de um trabalho que já chegou a milhares de alunos no arquipélago de Cabo Verde. Cada saco leva cadernos, canetas, lápis de cor, uma tesoura, um afia e uma régua. É o bastante para que um aluno comece o ano lectivo sem ficar para trás.
Por detrás dessa logística está a Smiley Kids, associação sediada no Luxemburgo que faz da educação a sua bandeira. Trinta euros — foi esse o valor que a própria associação fixou para encher um único kit. Todos os anos são preparadas cerca de 500 mochilas, que seguem para as ilhas com o nome do aluno já inscrito e o destino traçado à escola certa.
O método é simples e deliberado. Quem recebe os volumes são câmaras municipais ou delegações escolares; quando a comitiva luxemburguesa aterra, o material está à espera e resta a distribuição. Essa parte a associação não delega. “É muito importante que a criança receba nas próprias mãos a mochila“, explicou Jorge Gonçalves ao Letzebuerg Hoje.
Desde 2013, o programa não parou. Segundo o responsável, o número de crianças abrangidas já terá ultrapassado as seis mil, distribuídas por cerca de 60 escolas em seis ilhas — de Santo Antão a São Nicolau, passando por Fogo, Santiago, São Vicente e Maio. A escola é o eixo, mas não o limite. Uma ou duas creches por ano recebem cadeiras e mesas; o contentor mais recente rumou a São Vicente carregado precisamente desse mobiliário.
Ao equipamento escolar juntaram-se, ao longo dos anos, instrumentos musicais — guitarras, cavaquinhos, flautas. A associação apoiou escolas de música em Porto Novo, enviou 60 flautas para um estabelecimento em Santiago durante a pandemia e mantém com a Câmara Municipal de Porto Novo um projecto para uma escola de música municipal, já com guitarras e flautas entregues, à espera de que o espaço físico avance. Planos semelhantes apontam para o Maio, em Porto Inglês.
Num terreno em frente ao centro de dia da ilha do Maio vai nascer um parque infantil. Os baloiços e o escorrega, 14 mil euros de equipamento comprado em Portugal, já seguiram viagem; falta à autarquia local erguer o recinto.
O reconhecimento do mérito escolar entrou também na equação. Num liceu de São Domingos, na ilha de Santiago, seis alunos distinguidos recebem todos os anos uma mochila cheia de material; o melhor do décimo segundo ano, caso entre na universidade, leva um computador portátil. A partir deste ano, a mesma lógica chega a um segundo liceu, em Santo Antão, onde a associação prepara ainda a oferta de uma centena de equipamentos desportivos para os jogos escolares e a criação de uma pequena papelaria solidária, com mil euros em material, destinada aos alunos cujas famílias não conseguem comprar sequer um lápis.
Há gestos que fogem à linha habitual. A associação já custeou dois pares de óculos a irmãos de uma família sem meios, financiou os lanches das crianças que participaram na campanha de sensibilização contra o abuso e a violência sexual sobre menores levada a várias ilhas e apoiou pontualmente um centro de nutrição gerido pelo Instituto Cabo-verdiano da Criança e do Adolescente, o ICCA, parceiro com quem abriu uma estrutura de acolhimento na ilha do Maio. Noutra ocasião, chegou a enviar uma cadeira de rodas a uma mulher de Santo Antão.
O alcance não se esgota em Cabo Verde. Durante a pandemia, a Smiley Kids apoiou um projecto em São Tomé e Príncipe, com 250 kits escolares e um esquema de apadrinhamento em que as crianças recebiam roupa, calçado e uma prenda de Natal e retribuíam com uma carta ao padrinho no Luxemburgo. A viagem prevista acabou travada pelo encerramento das fronteiras, mas o material chegou ao destino. Regressar a São Tomé, de preferência à ilha do Príncipe, continua a ser um objectivo por concretizar. Entretanto, os pedidos multiplicam-se: durante o enchimento do último contentor, uma associação angolana escreveu, em francês, a sondar uma eventual colaboração na construção de uma escola.
A escolha dos destinos não é aleatória. A associação define a sua missão como a promoção da educação e o combate ao abandono escolar nos países de língua portuguesa, e é a língua comum que aproxima. «O que nos move talvez seja a necessidade das pessoas», resumiu Jorge Gonçalves.
O financiamento faz-se de baixo para cima. Quotizações anuais dos sócios, 20 euros no mínimo, um jantar de solidariedade, acções de embalagem de presentes na época natalícia e donativos de empresas parceiras sustentam a operação. Apoio estatal estruturado nunca chegou: em mais de uma década, a associação diz ter recebido uma única vez mil euros, provenientes de uma ONG luxemburguesa, e lamenta que municípios e ministérios tendam a apoiar mais as ONG do que o tecido associativo. Tudo o resto assenta em voluntários que conciliam a causa com emprego e família.
O que os mantém em marcha cabe numa imagem. «Não há preço nenhum para isso», diz o responsável, a propósito do olhar de uma criança que abre uma mochila nova. Cada regresso de Cabo Verde, garante, traz mais vontade de continuar.
Notícia publicada por Letzebuerg Hoje







