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Uma análise sobre os abusos sexuais perpetrados na comunidade religiosa

Por: Dann Andrade

O abuso sexual, de crianças e não só, é absolutamente condenável e mais abominável se torna quando é perpetrado por entidades religiosas que, por detrás de uma batina ou de um título eclesiástico ou pastoral, através da influência e do poder persuasor que detêm sobre os fieis, conseguem aliciá-los na sua inocência e benevolência, muitas vezes utilizando o nome de Deus, para essas práticas horrendas.

Na igreja católica, o abuso de crianças por parte de padres é tão recorrente e expressivo que já atingiu patamares preocupantes, de tal monta que hoje constitui manchete nos mais diversos órgãos de comunicação social e motivo de debates multidisciplinares.

O Papa diz-se preocupado com isso, mas, outros que o antecederam disseram o mesmo. Porém, não conheço nenhuma medida de fundo por parte dessas autoridades eclesiásticas que possa conter essa saga de violações e abusos. Muitos líderes, sobretudo católicos, mesmo sabendo da existência desses eventos dentro da sua Diocese ou congregação, fingem-se de cegos e fazem orelhas moucas, deixando as coisas andar. Muitos até encobrem factos que, mau grado, acabam um dia na praça pública.

No entanto, a prática vai-se perpetuando e fazendo escola nas diferentes comunidades religiosas. Não obstante, os pais continuam a deixar os seus filhos sob custódia da igreja durante longas horas, para cultos, confissões, ensaios de diversa índole, acreditando piamente na bondade e castidade dos padres, pastores e demais líderes religiosos, fazendo fé na pureza e santidade subjacentes às atividades internas das igrejas. Para muitos, os santuários, os confessionários e outros locais de culto privado, são espaços imaculados, onde se dá a purificação da alma.   

O que é que se passa, afinal? Porque é que acontecem abusos sexuais e violações nas igrejas? Não me coíbo de avançar com dois aspetos que penso encerrarem o fulcro da questão:

1º O Caráter perverso de certas pessoas que abraçam a vida sacerdotal ou pastoral;

2º As necessidades biopsicossociais primárias do ser humano;

Pegando no primeiro aspeto eu diria que existem indivíduos que, muito cedo, vislumbram no sacerdócio uma forma de conseguir satisfazer alguns desejos pessoais, entre os quais atrair a atenção de pessoas. Fazem de tudo para conseguirem entrar para a igreja, estudar e se fazer padre, visando atraírem as atenções para si. Há, no entanto, sempre outros interesses em jogo que nada têm a ver com a vocação sacerdotal ou a intenção de servir a Deus.

Após atingirem o objetivo de se consagrar sacerdote, ou pastor, ou missionário, servem-se da sua posição privilegiada de topo na hierarquia eclesiástica da organização religiosa, e conseguem os seus intentos maldosos que vão desde pedofilia à adultério, visando os fieis. 

O segundo aspeto diz respeito ao caráter biológico, psicológico e social que está na composição integral dos seres humanos e animais. Mas, porque estou a falar dos seres humanos, vou cingir-me a eles. O homem e a mulher são compostos por uma vertente físico-anatómico que mais não é que o corpo (cabeça, tronco e membros). Este encerra em si uma componente psíquica com as funções cognitivas e afetivas. Estas duas partes são complementadas por uma vivência social que começa com a conceção do ser e continua com o seu desenvolvimento até a morte.

Falando da relação da característica biopsicossocial dos humanos com os abusos e violações que acontecem na igreja, é inevitável falar especificamente de funções cognitivas como o pensamento, a vontade e a necessidade de contacto sexual que acomete todas as pessoas, independentemente da função social que detêm.

Os padres, como todos os homens, têm necessidades de convívio íntimo e, em última instância, sexuais, porque possuem seus órgãos génito-sexuais que, se estimulados, ficam preparados para o coito. O corpo e a psique pedem sexo como pedem comida ou água, embora o sexo possa esperar. É uma necessidade ambivalente, ou seja, fisiológica e psicológica, regulada socialmente, que extrapola o controlo da pessoa em situação, ou seja, não podemos decidir quando é que necessitamos de relações sexuais. É instintivo, sentimo-lo, mas podemos controlar a sua materialização.

A regulação social sujeita-nos a normativos de ordem legal e não legal, estes de caráter moral, éticos, costumeiras ou tradicionais. Um ato sexual praticado de forma abusiva contra alguém, seja ele criança ou adulto, é uma forma de violência repugnante e, como tal, configura crime. É o que tem acontecido no seio da comunidade religiosa, principalmente na católica que é a que mais vem à baila.

Diante do exposto, põe-se a seguinte questão: porque não se libera o casamento entre os líderes da comunidade católica, permitindo-lhes o convívio íntimo e o alívio libidinoso, de forma livre, espontânea e legal?

Mais do que um questionamento/sugestão, trata-se de uma necessidade. Desejos e impulsos sexuais reprimidos podem estar na origem desses comportamentos no seio dessa comunidade, sem descorar, é facto, a vertente da perversidade que também existe aí. Não diria que iria resolver completamente o problema, todavia, creio que o amenizava significativamente.

Essa reflexão deve ser levada a sério e uma posição canónica a esse respeito deve ser considerada, urgentemente.

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