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O batismo de glória dos Tubarões Azuis

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Nelson Faria

Haverá poucos momentos na história de um povo em que o pulsar de um coração se multiplica por milhões, no país e na nossa imensa diáspora. No contexto, foi exatamente isso que aconteceu quando Cabo Verde pisou, pela primeira vez, o palco de um Mundial. No relvado de Atlanta, contra a poderosa Espanha, nos nossos jogadores e staff vimos a personificação de uma nação que decidiu que o seu destino não seria ditado pelas probabilidades, mas pela força da sua própria alma.

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O futebol, esse mestre das emoções, transformou-se no espelho perfeito da nossa identidade, revelando ao mundo a coragem, o brio e a resiliência que correm nas veias de quem nasce com a alma cabo-verdiana, “ness padacim d’tchom spaiód na mar” ou além fronteira. Foi uma estreia banhada em luz e lucidez. No campo, os bravos Tubarões Azuis espalharam a vibração de um coletivo que compreendeu que a união é a forma mais sublime de dignidade.

Mesmo quando as lutas pareciam desiguais, os nossos heróis agiram com uma assertividade e coragem contagiantes, provando que os sacrifícios que a vida nos impõe valem a pena quando servem para demonstrar o valor e os valores que nos compõem. Houve uma harmonia interessante entre a raça e a organização, um bailado de determinação que orientou a postura digna com que nos apresentamos orientado para o objetivo da felicidade de um povo que nunca deixou de acreditar. Todos foram magníficos. A minha vénia.

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Entretanto, neste palco de entrega absoluta, permitam-me destacar a figura do Vozinha, que, em cada defesa e em cada gesto de liderança, pareceu carregar consigo a esperança de todas as ilhas. Ele foi o guardião da baliza, da nação, de todo o esforço e entrega que os seus companheiros depositaram no relvado. Se outrora dizíamos, com justo orgulho, que as nossas figuras planetárias eram a visão de Amílcar Cabral e a voz eterna de Cesária Évora, hoje o panteão nacional ganha novos rostos. Os Tubarões Azuis, com Vozinha em particular, elevaram a nossa bandeira a uma altura onde só chegam os que sonham com o coração.

Esta primeira participação foi um hino à vida e à capacidade de superação. Saímos deste embate histórico com a certeza de que a nossa grandeza não se mede na dimensão territorial das ilhas, mas na imensidão da nossa alma, da nossa atitude, no compromisso e comprometimento, do nosso orgulho e na firmeza da nossa união.

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Obrigado por tanto, Tubarões Azuis. Ontem deram ao mundo uma lição de como se honra uma pátria com sorriso no rosto e dignidade no peito. Que esta alegria continue a navegar connosco, pois o horizonte, para quem tem esta raça, será sempre infinito, mormente para quem contempla o infinito diariamente nos nossos mares.

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Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

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