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Génesis de um Crioulo: cidadão do mundo

Por: Marisa Moura

Com a realização de mais um Europeu, conquista de apuramento para a 3a CAN e olhos postos na qualificação para o Mundial, a polémica das nacionalizações voltou à ribalta.

Lamentavelmente este tema vem desde há muito a gerar conflitos e debates, alguns deles bastante calorosos, onde pude, inclusive participar, tanto no âmbito público, como privado.

Se num passado muito recente tivemos no seio da controvérsia nomes como Nany, Nelson Semedo, ou Rolando Fonseca, actualmente o campeão nacional português Jovane Cabral vem fazendo correr muita tinta a propósito. Em todos eles há um fio condutor – a não representação dos “Tubarões Azuis”. Pese embora ainda não seja clara nem pública a decisão do último.

O nosso país ao longo de toda a sua história viu nascer, formou e capacitou inúmeros atletas nas mais variadas modalidades e escalões. Contudo, se por um lado, o fraco investimento no Desporto tem culminado com a escassez de políticas públicas de desenvolvimento e maximização do sector, por outro lado, por vezes a ausência de trabalho focado, rigor, disciplina, empenho e dedicação aliada ao talento levam ao abandono da prática da parte de alguns atletas. Apraz-me questionar: é justo e correcto acusar um atleta de falta de patriotismo pelo facto deste optar por vestir as cores de outro país em detrimento da nossa bandeira?

Na minha opinião, que vale o que vale, estamos a ver o copo meio cheio, ao invés de atacarmos a problemática pelo prisma que esta exige. Quem conhece minimamente a história do desporto em Cabo Verde sabe que sempre fomos uma nação de desportistas, em que na sua grande maioria o ponto de arranque ocorreu no desporto escolar. Hoje tal não se verifica, e porquê? A covid-19 veio impor desafios enormes e mais exigentes dos que já vínhamos enfrentando. Porém, defendo que as dificuldades devem ser encaradas como oportunidades e não podemos continuar a marcar passo, retomar assim que as condições sanitárias permitam, pelo que urge o fortalecer do desporto escolar.

Cabo Verde, país pobre, de parcos recursos, altamente vulnerável e dependente do exterior tem de fazer escolhas e agir em consonância. Neste quesito restam-nos dois caminhos: definir um modelo, que visa o investimento forte e direccionado, elevando o desporto nacional para patamares outrora alcançados; Ou continuamos a formar, capacitar e oferecer de bandeja os nossos embaixadores desportivos a clubes e, consequentemente, selecções estrangeiras.

Se a escolha, voluntária ou involuntária, recair na segunda opção abandonem, por favor, a hipocrisia e o falso moralismo do discurso da negação à Pátria, pois um atleta profissional tem uma carreira muito mais curta do que em outras profissões, logo todos os caminhos percorridos serão mais impactantes. Portanto tem que priorizar sim valores de mercado, possibilidades de ascensão e condições de trabalho.

Aqui aproveito para fazer a devida vénia ao live Adilson Time pela excelente conversa transmitida no passado domingo, 07 de junho, passe a publicidade está disponível no Facebook, caso queiram acompanhar. Soube nesta transmissão que o guarda-redes Josimar Dias, vulgo Vozinha, numa das deslocações recentes para uma eliminatória de apuramento para a CAN esteve em viagem aproximadamente 48 horas, algo que não devia ser admissível. E sim, demonstra amor ao país, compromisso, entrega, espírito de sacrifício e muita resiliência. Todavia, quem não estiver disposto a tal não deve ser condenado, nem enxovalhado em praça pública.

Parabéns Tubarões Azuis, auguro sucessos, a começar por um bom desempenho na CAN!

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