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Considerações políticas sobre Cabo Verde da 2ª metade do séc. XX (1ª parte)

(1ª Parte) Amílcar Cabral: o nascimento do PAIGC na Guiné, e o seu impacto político em Cabo Verde

Por: José Fortes Lopes

Em Julho de 1975, o arquipélago de Cabo Verde ascendeu à independência sob a égide do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) fundado na Guiné por um grupo, segundo conta a história, inicialmente composto por cabo-verdianos e guineenses, mas Amílcar Cabral terá sido o seu inspirador, ideólogo e secretário-geral (até a sua morte em 1973). Consta também que nos anos 60, mesmo antes do PAIGC, proliferavam partidos independentistas na Guiné, mas Amílcar Cabral conseguiu impor o seu partido por várias razões que não abordarei aqui. Não obstante a sua composição e sigla, o PAIGC era um partido criado na Guiné para a independência da Guiné, para os guineenses e pelos guineenses.

De acordo com o programa do PAIGC os dois países, após as respectivas independências, seriam organicamente incorporados e unidos numa estrutura supranacional. É um facto que a estratégia de Cabral teve sucesso, tendo conquistado a Independência da Guiné e Cabo Verde, sendo por isso considerado “Pai da Nacionalidade” de Cabo Verde, pelo menos por uma facção que se revê no PAIGC ou não questiona a sua narrativa.

Segundo consta em diferentes biografias, Amílcar Cabral era guineense; terá nascido em Bafatá, na então colónia da Guiné portuguesa, hoje Guiné-Bissau, e seria filho de um de casal de cabo-verdianos. O pai originário de Santa Catarina, uma localidade na ilha de Santiago, Cabo Verde, foi um quadro na administração colonial na Guiné, a colónia em que a maioria dos quadros era cabo-verdianos. Tendo a mãe regressado a Cabo Verde, Cabral faz os seus estudos secundários no arquipélago, mais especificamente em S. Vicente (uma vez que na altura a Praia, apesar do estatuto de capital não tinha um Liceu). Tem, pois, a oportunidade de viver na ilha uma parte significativa da sua juventude, numa altura em que ela era o centro económico e cultural do arquipélago, e em que o grosso da actividade do arquipélago girava em torno do Porto Grande do Mindelo (S. Vicente), graças às companhias britânicas ali instaladas para o apoio à sua frota e ao centro de telecomunicações da sua rede dos cabos submarinos.

Ilha povoada mais tardiamente, S.Vicente (séc. XIX) pelo efeito induzido da presença inglesa, vê a sua população crescer, transforma-se num centro urbano, cosmopolita e cultural de referência do arquipélago, equipado de infra-estruturas básicas, tendo o único Liceu de Cabo Verde. Os hábitos ingleses são adoptados pela elite local, tais como o chá das 16 horas, desenvolve-se a prática dos desportos britânico: cricket, golf, ténis, futebol etc. As companhias inglesas instaladas incentivam a criação de sindicatos baseada no modelo britânico, em que a gestão das conflitualidades é superada pelo diálogo, a tal ponto que a Inglaterra torna-se o país referência. A ilha vai atrair as elites intelectuais e culturais do arquipélago, para além de proporcionar alguma imigração de estrangeiros.

É, pois, nesta cidade que Cabral forma-se culturalmente e intelectualmente, adquirindo uma bagagem cultural e o conhecimento do Mundo, indispensável para o confronto futuro com outras realidades e ideias. Sabe-se que teve como professores e mestre ilustres intelectuais, destacando o Dr. Adriano Duarte Silva, professor reitor e deputado de Cabo Verde na Assembleia Corporativa em Lisboa, representante diplomático de vários países europeus, e o Dr. Baltazar Lopes, advogado, poeta e escritor Claridoso. No tempo da forte presença britânica, estes homens e vários teriam acesso a contactos e informação do que se passava fora, o que lhes dava uma visão do Mundo da época. Não é pois de estranhar que Adriano Duarte Silva já defendia nos anos 40 ideias reformistas do Império Português, tendo apresentado em 1946 uma arrojada proposta à Salazar e à Câmara Corporativa (Assembleia Nacional), que passava por Autonomias e Descentralização no Império e incluía a Adjacência de Cabo Verde a Portugal (1, 2). É mesmo possível que ele tenha tido alguns contactos diplomáticos no sentido de convencer Salazar sobre a Reforma apresentada, conhecendo o respeito que Adriano Duarte Silva gozava em Lisboa.

Acredita-se, pois, que Mindelo possa ter jogado um papel importante na formação política inicial de Amílcar Cabral, a sua personalidade não sendo resultado de uma geração espontânea, como alguns pretendem equipará-lo a um super-herói nato. Amílcar Cabral completa o Liceu em 1944, adquire uma bolsa de estudos do governo de Cabo Verde, e ruma a Lisboa para cursar Agronomia, que conclui em 1952. Em Lisboa, mergulhado no meio estudantil da época, adquire uma cultura de esquerda, provavelmente próxima do marxismo-leninismo. Mas é nas colónias (Guiné e Angola) que o político evolui, associando a sua formação marxista à nova ideologia que adoptou de acordo com os ventos da História que varriam a África e o Mundo do pós Guerra: a do nacionalista pan-africanista e terceiro-mundista. Rico das suas vivências, Cabral adquire uma estatura e carisma internacionalmente reconhecidos, destoando do nível mediano dos seus camaradas, nomeadamente os cabo-verdianos formados, já que os guineenses pouco ou nada de escolaridade tinham.

Amílcar Cabral pode ter valido da sua ambivalência cultural, aparecendo aos olhos dos cabo-verdianos do Mindelo como um cabo-verdiano da Guiné, que ainda por cima estudou no Liceu da ilha. Mas é um facto que Cabral assumia-se como guineense e não como cabo-verdiano, como terão desabafado os seus camaradas. Por isso, só Amílcar Cabral poderia criar um partido como o PAIGC defendendo a Unidade Guiné-Cabo Verde. As ambivalência assumidas, as contradições da causa e da luta, as dissensões no seio do PAIGC associadas a problemas essencialmente étnicos, o assumir de ideias que terão criado inimigos internos e externos (o anti-imperialismo assumido e as críticas ao neocolonialismo não são ainda hoje assuntos pacíficos) podem ter concorrido para o seu assassinato, apesar de nunca ter sido esclarecido este assunto cabalmente.

Relativamente ao envolvimento de cabo-verdianos no PAIGC, o facto de Amílcar Cabral ter passado a adolescência na ilha de S. Vicente como estudante, acabando adoptado pelos jovens como um dos seus, um mindelense, ao ponto que alguns embarcarão na aventura cabraliana (‘a luta’) e mobilizarão outros (alguns emigrantes) na fase posterior da sua luta.

A questão que muitos colocam hoje é se, após a morte física de Amílcar Cabral, resta alguma coisa do cabralismo e dos sonhos revolucionários desta geração, para além, é claro, da Independência da Guiné tirado a ferros, e a de Cabo Verde concedida por Portugal. O projecto de Cabral não era ir muito mais longe rumo ao pan-africanismo libertador (3, 4)?!

Referências:

1-A Acção Parlamentar do Dr Adriano Duarte Silva. Publicação feita por um grupo de amigos por ocasião da Inauguração do seu Busto na Praça 1º De Dezembro na cidade do Mindelo em 1 de ezembro de 1964.

2-https://debates.parlamento.pt/catalogo/r2/dan/01/04/01/057S6/1946-04-12?sft=true#p11

 3-ÂNGELA BENOLIEL COUTINHO Os dirigentes do PAIGC: da fundação à rutura

URI:http://hdl.handle.net/10316.2/43427

4- Helena Ferro de Gouveia, Quarenta anos após a morte de Amílcar Cabral o que resta do seu sonho africano? https://www.dw.com/pt-002/quarenta-anos-ap%C3%B3s-a-morte-de-am%C3%ADlcar-cabral-o-que-resta-do-seu-sonho-africano/a-16803396

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