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A luta de Libertação e o associativismo em Itália

Por: Maria de Lourdes Jesus

O pesado legado da política colonial não se limitou apenas à degradação económica, à alta mortalidade infantil ou à falta de saneamento. Manifestou-se também através de um controlo sistemático e muito eficaz sobre toda população especialmente a mais pobre com o nível de alfabetização muito baixo. A grande maioria da população vivia no obscurantismo total, ignorando a luta de Libertação no continente africano, que começou em 1961 em Angola e em ’63 na Guiné-Bissau.

Quando cheguei a Roma, (aos 15 anos, em 1971) não tinha ainda nenhum conhecimento de Amílcar Cabral e da luta da libertação, como a maioria das mulheres que emigraram para Itália.

Itália estava a atravessar um período de forte contestação política. O mesmo estava acontecendo a nível Internacional. Multiplicavam-se as manifestações para reivindicar os direitos civis e sindicais, pelo divórcio, pela igualdade e emancipação das mulheres. Toda essa mobilização era o resultado duma grande capacidade organizativa das associações feministas, dos sindicados e sobretudo dos partidos de esquerda.

Nas várias cidades italianas intensificaram as manifestações contra a ditadura do governo português, obstinado em manter as colónias africanas. É precisamente neste contexto sociopolítico que a Maria Crescência Mota chega a Itália. Conhece, na casa da sua prima, (casada com um italiano) um jovem, activista de esquerda, que, ao vê-la assim tão interessada e entusiasmada em conhecer Amílcar Cabral e a luta de libertação, convidou-a a tomar parte nos encontros políticos e sindicais. É nesses encontros que ela começou a denunciar a situação da pobreza e do analfabetismo em Cabo Verde e pela primeira vez a falar da exploração das cabo-verdianas em Itália.

Crescência foi a primeira cabo-verdiana a entrar em contacto com importantes personalidades da política italiana e Movimentos de solidariedade que apoiavam a luta de libertação das colónias portuguesas em África. Caso de Molisv, Movimento Liberazione e Sviluppo. A luta contra o colonialismo português contava com o apoio da Fundação Lelio Basso, Ipalmo e figuras importantes como Bruna Polimeni, a fotógrafa que seguiu Amílcar Cabral afim de documentar as zonas libertadas. Conheceu também Dina Forti e Marcella Glisenti, duas mulheres que desempenharam um papel fundamental na organização dos dois grandes eventos históricos em 1970. Trata-se da Conferência Internacional de Solidariedade para os povos das colónias portuguesas, de 27 a 29 de Junho, e a organização da Audiência privada dos lideres dos movimentos de Libertação das colónias portuguesas em África com o Papa Paulo VI, no dia 1 de Julho do mesmo ano. Um capítulo importante da nossa história, mas ainda pouco conhecido, seja em Cabo Verde como na nossa comunidade em Itália.

Crescência alarga o seu horizonte e os seus contactos. Na escola portuguesa conhece Deolinda Lima, a sua companheira de luta para sensibilizar e preparar a comunidade para o novo Estado que havia de nascer após a Independência. Às duas mulheres juntaram-se alguns elementos mais activos na comunidade como Jacinta Ramos, Aida e mais tarde integram-se três jovens estudantes: Tiago e Bernardino Brito e Severino Almeida. Esse grupo entra em contacto com Paolo Caccetta, uma figura muito importante da MOLISV. Paolo convence o grupo da importância de organizar e fundar uma associação, com o objectivo de obter uma maior visibilidade, ser reconhecido pelas instituições italianas e adquirir o poder de tratar e resolver os problemas da comunidade cabo-verdiana.

Foi assim que nasceu a primeira Associação dos cabo-verdianos em Itália, inaugurada no dia 5 de Julho de 1975, dia da Independência de Cabo Verde, na sede de MOLISV. Um dos pontos de referência político e diplomático da luta de Libertação das colónias portuguesas.

Homenagem a Hernani Moreira. Dia 9 de Julho às 18.30 – Villa Veientana

Os organizadores da Festa da Independência de Cabo Verde (Caboverdemania/Tabankaonlus) decidiram este ano homenagear o nosso saudoso Hernani Moreira, expressão máxima do empenho na divulgação da cultura cabo-verdiana em Itália. Foi uma figura muito amada e admirada na nossa comunidade e em Cabo Verde.

S. Vicente, a ilha que ele adorava mesmo até que a chamava “New York em pont pequeno”. Dizia-me assim também só para provocar: “Vais pa S. Nicolau? Mas não podes voltar para Itália sem passar pa New York.” Era assim o seu humorismo, às vezes muito subtil.

Com ele realizamos uma nova leitura da nossa realidade “nel Bel Paese”. Uma leitura capaz de apreciar e valorizar o aspecto cultural da nossa identidade. Paralelamente às reivindicações para um salário justo, direitos sindicais, autorização de estadia em Itália, era urgente investir na cultura cabo-verdiana como instrumento fundamental para uma boa inserção na sociedade de acolhimento.

Hernâni Moreira na cidade Eterna

Conheci Hernani numa reunião na sede da Associação Cabo-verdiana na Embaixada de Cabo Verde em Roma. A eleição do novo directivo da associação estava próxima a chegar. Ninguém tinha dúvida de quem iria ser o novo presidente. Nesse dia, de simples sócio, Hernâni subiu ao poleiro como presidente da associação cabo-verdiana em Itália.

Estamos no fim dos anos ’70, num contexto sociopolítico formidável. Era nesse contexto, assim tão fértil e carregado de entusiasmo, que Hernâni se integrou-se perfeitamente. A comunidade estava organizada através da associação, que se ocupava sobretudo de informar e apoiar a comunidade na defesa dos seus direitos sindicais. Reinava uma grande euforia pela independência de Cabo Verde que, em parte, punha em questão a nossa identidade. Hernâni foi a pessoa que muito contribuiu para alargar o nosso horizonte, através de propostas e iniciativas culturais, levando a comunidade a reconhecer e reforçar a própria identidade projectada num Cabo Verde livre, independente, próspero e cheio de orgulho. Hernâni detêm a primazia cultural em tudo o que foi realizado em Itália durante a sua permanência.

Estou certa que os organizadores do evento em que Hernani vai ser homenageado souberam interpretar da melhor forma o sentimento da comunidade cabo-verdiana perante o “Imperatore d’Africa”.

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