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A Dialéctica da Liberdade

Por: Alcides Lopes (PhD)

O capitalismo, quimera real obcecada pelo tempo.

Nas ilhas de Cabo Verde, o oportunismo político, o apagamento dos verdadeiros problemas que afligem as populações, a ignorância histórica e a devoção à cultura neocolonial protagonizados por uma elite digna dos ataques fanonianos – uma classe indiferenciada de incompetentes nocivos – perpetuam as práticas atrofiantes e fragmentárias do culto ao pequeno poder e à permanência num estado de apatia e falta de criatividade gritantes

A violência que domina os corpos marcados nas sociedades ocidentais contemporâneas está expressa de forma naturalizada em várias camadas que ocasionalmente se sobrepõem e podem ser classificadas em pelo menos três domínios distintos, mas interconectados pelas formas de opressão e pelo exercício de diversos tipos de violência direta, direcionada ou indiscriminada.

As dimensões a que me refiro são as diferentes formas através das quais o estado neocolonial atual governa e administra as populações no sistema capitalista, no qual, os sujeitos são obcecados pelo tempo, pela disposição positivista das etapas da escala de mobilidade social, e padecem de excêntrica anomalia no que tange à configuração das suas quasi classes sociais. 

A ‘sociedade civil’ administrada através das suas constelações de instituições, direitos e cidadãos se opõe rigidamente à ‘sociedade não-civil’, ou seja, onde há suspensão das instituições, dos direitos e da cidadania. Nesta, a violência protagonizada por indivíduos, grupos e, igualmente, pelo estado é letal: as favelas; os bairros auto construídos de forma precária nas margens das metrópoles cosmopolitas que se estendem pelos hemisférios; os acampamentos provisórios de refugiados são exemplos concretos. A estes dois domínios mais propriamente urbanos, onde o maniqueísmo administrativo tem ditado as cartas, acrescenta-se a dimensão da ‘sociedade tradicional’, essencialmente, as aglomerações de populações rurais e dos grupos tradicionais.

A revelação menos especiosa que, sistemática e insistentemente, nos surpreende desde os tempos fanonianos é que o estado-nação não só não representa a totalidade das populações inscritas no seu espaço territorial, como também se mostra ausente e impotente junto às comunidades migrantes transnacionais, rendendo assim um déficit de justiça e igualdade de direitos.

Os processos de construção da nação são absolutamente centrais para os países africanos independentes desde a década de 1960, cujos projetos nacionais foram estabelecidos no lastro da ideia do Desenvolvimento. Este conceito tornou-se o paradigma de construção da nação através de um programa sócio-político-econômico liderado pelo próprio estado. Nesta esteira, a partir da década de 1980 os reajustamentos estruturais começaram a ser impostos pelo Banco Mundial. Na década de 1990, as ONGs começaram a substituir as atividades estatais e o processo de erosão das estruturas sociais desemboca hoje nos estados sucateados, críticos, unilaterais e, evidentemente, neocoloniais.

O mundo todo enxerga a situação escabrosa em que o Brasil se debate estupefacto. Para quem olha de fora, parece incrédulo que um país tão magnânimo tenha caído cativo de uma horda de políticos milicianos sem o mínimo de escrúpulos, moral, dignidade e humanidade

Em 2019, uma onda de violência motivada pela xenofobia na África do Sul denunciou a situação frágil da economia e os altos níveis de desemprego que flagelam a grande maioria da população negra. Os casos de corrupção política e da crescente violência urbana, os problemas crônicos de insegurança habitacional social vêm se destacando e prenunciando um futuro perigosamente incerto para a sociedade sul-africana. 

Por sua vez,  o mundo todo enxerga a situação escabrosa em que o Brasil se debate estupefacto. Para quem olha de fora, parece incrédulo que um país tão magnânimo tenha caído cativo de uma horda de políticos milicianos sem o mínimo de escrúpulos, moral, dignidade e humanidade. Os altíssimos números de mortes causadas em decorrência da Covid-19, o desmantelamento das políticas sociais, a depredação das empresas, centros de pesquisa, universidades estatais e federais e a volta da política do cabresto se somam à epidemia de depressão, alcoolismo e abuso indiscriminado de drogas, ao desemprego estrondoso, ao racismo estrutural, ao genocídio negro, à homofobia, xenofobia seletiva e muitos outros problemas graves que enevoam a luz do fim do túnel.

Nas ilhas de Cabo Verde, o oportunismo político, o apagamento dos verdadeiros problemas que afligem as populações, a ignorância histórica e a devoção à cultura neocolonial protagonizados por uma elite digna dos ataques fanonianos – uma classe indiferenciada de incompetentes nocivos – perpetuam as práticas atrofiantes e fragmentárias do culto ao pequeno poder e à permanência num estado de apatia e falta de criatividade gritantes. 

A esta altura da narrativa, alguém pode indagar: “Mas quem ele acha que é?” Isso não me surpreenderia, pois, na minha vida sempre me deparei com criaturas que achavam que podiam “colocar-me no meu lugar”, na maioria das vezes sem me conhecer, ou compreender propriamente as minhas intenções. Pelo contrário, sempre mantive a postura de encontrar o meu próprio lugar por mim mesmo e, quando me apetecer, mudar de lugar novamente. Sempre para um lugar melhor. 

Assim aconteceu quando criança em Martiene, inícios da década de 1980, durante uma brincadeira de casamento inglês. Um colega de turma quis persuadir-me a escolher a pretendente “certa”. Não dei ouvidos a ele. Também foi o caso, nos últimos anos do liceu, o nosso saudoso professor de latim, Padre Bernardo Soares, queria que eu cortasse os cabelos, não trajasse os meus jeans rasgados ou usasse as botas militares BRDM. Ele nunca teve a mínima chance de me convencer.

Quando me matriculei no Ano Zero em Mindelo, no ano de 1996, procurei a direção do Liceu Ludgero Lima e ofereci os meus serviços para lecionar inglês no antigo 3º ano nas turmas J e L, pois estas careciam de professor. Na ocasião disseram-me que eu não era a pessoa indicada para preencher a vaga, mesmo com dois anos de experiência adquiridos na Escola Secundária do Porto Novo, nos anos anteriores. Não teve outra, peguei no papel e caneta, redigi do meu próprio punho uma solicitação para preencher a vaga ao então ministro da educação. Em quinze dias, a direção do liceu telefonou para a casa do meu tio António e mana Zinha para avisar sobre a minha nomeação. Enquanto estudava, naquele ano, também trabalhei como professor no liceu.

Foram muitos os episódios com estas características que aconteceram ao longo da minha vida. Em todas as ocasiões foi exatamente o momento de reagir, não compactuar com uma visão colonialista e estática de vida. O indivíduo, como que, ao provocar uma catástase, ou seja, uma complicação da trama teatral da vida, precisa acatar ou aprender a transcender as consequências que a liberdade de escolha sempre traz no seu bojo dialéctico.

O que vem acontecendo é um processo de politização asqueroso nas dimensões da cultura e educação musical e nas artes em geral em Cabo Verde.

Quando trabalhei com a Universidade de Cabo Verde na Casa da Música publiquei um pequeno artigo, no qual afirmo acertadamente que “a existência de uma educação musical em Cabo Verde em termos legais e integrados é questionável, tendo em vista que sempre se deu de forma particular e informal.” Hoje, dez anos depois daquele artigo, pode-se afirmar a mesma coisa com agravantes.

É imperativo que a população de Cabo Verde se conscientize o quanto ela não está sendo considerada nesta equação. O que vem acontecendo é um processo de politização asqueroso nas dimensões da cultura e educação musical e nas artes em geral em Cabo Verde. Da forma como as coisas se encontram hoje, pode-se deduzir que está em andamento um processo de colonização contemporânea em Cabo Verde praticado descaradamente por uma elite que nas palavras de Fanon traduz-se “spoilt children of yesterday’s colonialism and today’s national governments, they organize the loot of whatever national resources exist. Eu diria, são piores até. Tentam, a todo o custo, impedir a atuação de acadêmicos, pesquisadores e professores nacionais de forma dissimulada e impedem o desenvolvimento das áreas precárias da pesquisa em cultura e educação artística.

Todos os discursos apresentados nacionalmente nas áreas de cultura e educação seguem este propósito e são antes de mais nada, obsoletos e alienantes. Mas, a situação é bem pior. 

Quando me ausentei de Cabo Verde em 2012 para dar sequência aos meus estudos, não recebi nenhum apoio da instituição. A minha decisão fundamentou-se principalmente na falta de projetos concretos com relação ao que a Uni-CV pretendia fazer na área de estudos musicais. Acreditem, até hoje não fizeram absolutamente nada nesta área. A primeira coisa que devem reconhecer é que os investimentos destinados para a área têm sido obscuramente desviados para outras áreas.

Uma coisa é certa, existe muita ignorância e falta de vontade sobre o que são os estudos musicais. Existem muitos complexos coloniais dançando na pista do desenvolvimento das estruturas de pesquisa e ensino em cultura e artes. O mais grave, existe muita invisibilização e silenciamento de propostas concretas que poderiam ser desenvolvidas se as pessoas certas assumirem as respectivas áreas.

Falo de e-mails enviados que não obtém resposta, pedidos de audiência que não são considerados, propostas de trabalho e projetos que não são contemplados entre outras mazelas cotidianas da autoria de vereadores de cultura (afirmo aqui que este cargo é um erro crasso nos sistemas de governação locais), secretários e reitores dos estabelecimentos de ensino superior, ou mesmo, representantes do  governo que atuam nestas áreas, ou pior, que ocupam tais gabinetes.

Perante estas revelações, a leitora e o leitor devem se questionar sobre o que tenho feito com relação a estas injustiças?

Quando deixei a Uni-CV ganhei uma bolsa de mestrado do CNPq (Centro Nacional de Pesquisa) no Brasil. Concluí em 2015 e a dissertação, sobre Património Cultural Imaterial, foi publicada em livro em Cabo Verde em 2017. Iniciei o doutoramento na mesma universidade, com o mesmo orientador, desta vez com bolsa da Capes, e versando sobre o mesmo tema de património, e desta vez enveredei-me pela diáspora cabo-verdiana em Lisboa, Portugal. Escrevi uma longa e densa tese, na qual foi realizada uma revisão bibliográfica transdisciplinar. Conclui o doutoramento aprovado por unanimidade e sem restrições. Recebi até agora alguns convites para a respectiva publicação da tese. Somente em 2020, ano de conclusão da tese, publiquei um artigo em Lisboa e dois capítulos de livro, um na Madeira e outro em Cabo Verde. Todos os ensaios abordam questões como estudos musicais, estudos sobre património cultural imaterial, migrações e diáspora.

Concluo este artigo anunciando que, em conjunto com a co-autora, a antropóloga portuguesa Júlia Carolino, recebi o prémio do melhor artigo científico de 2020, com menção honrosa, da Revista Especializada em Geografia FINISTERRA: FORMAS RESILIENTES DA TRADIÇÃO NA DIÁSPORA AFRICANA EM LISBOA: o Kola San Jon e o direito à cidade (2020).

Portanto podemos afirmar que, embora as instituições cabo-verdianas continuem “dando uma de cegas” , o trabalho segue com pleno reconhecimento no estrangeiro. Não desistimos, mas nos frustramos quando percebemos que somos preteridos nos nossos próprios países justamente por aqueles que deveriam desenvolver a nossa sociedade, mas que se sentem ameaçados no domínio dos seus pequenos ‘podres’ poderes.

Frantz Fanon não poderia estar mais certo.

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