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100 anos de história de S. Vicente e das suas gentes a partir do espólio da Foto Melo

O jornal A Nação divulga este sábado uma rica reportagem, que já tinha sido publicada na versão imprensa, sobre o vasto espólio da Foto Melo. Trata-se de um património de valor histórico incalculável, retratada em cerca de 100 mil chapas, pelo que o Mindelinsite faz questão de reproduzir alguns excertos desta investigação da antropóloga e fotógrafa portuguesa Liliana Rocha, que está a fazer uma tese de doutoramento sobre a família e a Foto Melo. Um trabalho que se confunde com a ilha de S. Vicente.

Esta começa por dizer que, em Cabo Verde, sobretudo na zona de Barlavento, raro é o lar que não tenha no seu álbum familiar fotografias tiradas pela Foto Melo. A estes juntam-se instantâneos sobre o dia-a-dia de São Vicente e Santo Antão. Cenas como baptizados, casamentos, carnaval, desporto, chegadas de reis, ministros e governadores, que permaneceram guardados na antiga casa Foto Melo, no Alto de Miramar, no Mindelo.

“Esse espólio pode estar, agora, em vias de ser recuperado, preservado e trabalhado para dar a conhecer aos cabo-verdianos e ao mundo uma ampla narrativa, não só sobre o desenvolvimento da sociedade mindelense, mas também de várias outras ilhas, que se esconde por detrás de cerca de 100 mil chapas que se estimam existirem, em cerca de 100 anos de história que deram vida à casa Foto Melo”, lê-se, que lembra que ainda que a Foto Melo foi fundada em 1890 (fechou em 1992), por João Henriques de Melo (1871-1944), mas não é certo ainda se terá nascido em São Vicente ou Santiago.

A investigadora garante que, em SV, antes da Foto Melo, houve pelo menos uma outra casa de um fotógrafo belga, Maximilien Baumont. Com negócios em Santiago e em São Vicente, a Foto Melo deixou, nessas ilhas, uma geração de fotógrafos, sendo o mais conhecido o Djessa Melo. Por isso, na história da fotografia em Cabo Verde, os Melos têm um lugar de realce.

Meio que por acaso, escreve o jornal, a Foto Melo cruzou o caminho com a fotógrafa portuguesa Liliana Rocha. “A primeira vez que vim a Cabo Verde, em 2016, visitei a livraria Nho Djunga, pois, na altura era a única referência de um fotógrafo cabo-verdiano que eu tinha, em Cabo Verde, e comecei à procura do espólio e fotografias de João Cleofas Martins, como ele se chamava, mas toda a gente me falava da Foto Melo. Diziam que do Nho Djunga havia pouca coisa preservada, mas que na Foto Melo havia um arquivo inteiro por explorar”, declara.

A sua tese de doutoramento, intitulada “Clichés identitários em Mindelo: estudo antropológico sobre fotografia em Cabo Verde a partir da Foto Melo (1890-1992)” debruça-se sobre o estudo da história da fotografia neste arquipélago, uma matéria que, segundo diz a nossa entrevistada, “se encontra ainda inexplorada”, centrando-se naquela que foi, outrora, a casa de fotografia mais importante de Cabo Verde. “Com base no vasto arquivo da Foto Melo e nos retratos que foram feitos no estúdio do Alto de Miramar, na cidade do Mindelo, pretendo debruçar-me sobre questões que envolvem a representatividade e a complexa identidade cabo-verdiana”.

Junto com a tese, esta antropóloga quer recuperar o estúdio da Foto Melo, o arquivo, o espólio e torna-lo acessível às pessoas. A vontade de recuperar o espólio da Foto Melo é um sonho antigo da família. Jorge Melo, actual guardião do arquivo e neto de Djindjon (João Henriques de Melo, fundador da Foto Melo) e sobrinho do conhecido Papim, o último proprietário do estúdio, admitiu ao jornal que há uma tentativa de começar a recuperar o espólio, mas quanto há musealização não há para já nenhum projecto.

“Estamos a ver se reedificamos a Foto Melo, noutros moldes, naturalmente, sem ser casa fotográfica, mas um museu, algo dedicado à fotografia e à família Mello. Estamos a trabalhar no levantamento do espólio, porque o espaço já foi assaltado duas vezes, misturaram as chapas. Por isso há que tentar, primeiro, recuperar, guardar e conservar e, depois, dar um passo maior que é expor isso e pôr à disposição das pessoas”, afirma.

Segundo Jorge Melo, há negativos desde “1800 e troca o passo” até a morte do Papim, em 1999, que foi já o último fotógrafo da família Melo. De referir que a actividade da Foto Melo na ilha de São Vicente começa ligada à vida do Porto Grande, cujo crescimento foi impulsionado pelos ingleses. Mas, de acordo com a investigadora, a grande maioria do espólio é constituída por reportagens e retratos das pessoas que viviam e vivem no Mindelo. “Temos retratos desde o início do século XX até à década de 90, sejam retratos de família ou fotografias tipo passe, as carinhas para o Bilhete de Identidade e Passaporte e, ainda, imensas reportagens, como, por exemplo, dos bailes de Carnaval no Grémio, no Castilho, no Consulado ou no Éden Park. E ainda reportagens sociais como casamentos, comunhões e funerais.”

Fonte: Jornal A Nação

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