Ainda o Sol nem acordou e Francisco Delgado já tomou o seu banho no mar da Lajinha e retomou o caminho de casa. Como ele, várias outras pessoas seguem esta rotina faz anos. Chegam à praia pouco depois das cinco horas da manhã e algumas metem-se na água ainda em plena escuridão. Normalmente são banhadas pelas primeiras luzes solares dentro do mar, mas há quem opte por regressar ao lar ainda antes do dia clarear. Outros chegam às 6 horas e já encontram colegas a despedir-se da Lajinha.
Aos 67 anos, Francisco Delgado ainda carrega consigo um hábito que criou na juventude: ir religiosamente tomar um banho madrugador na praia da Lajinha, de segunda à sexta-feira. Residente em Chã de Alecrim, localidade muito próxima do areal, costuma acordar às 5 horas e regressar uma hora depois à casa “Tenho este hábito desde muito jovem e sinto que fica a faltar-me algo se falhar. Faço isto mais pelo desporto. Sou sensei de Karaté e sei o quanto a prática desportiva é importante para a nossa qualidade de vida”, comenta Francisco Delgado, que respeita a sua rotina faça tempo de verão ou ventania. O resultado é o esperado relaxamento físico e mental e uma sensação única de revitalização.
Alcinda Sousa é também outra fiel frequentadora da Lajinha que costuma chegar à praia ainda à noite. Moradora na zona do Madeiralzim, há cinco anos que segue essa rotina. “Costumo sentir muitas dores nas costas. Já cheguei a tomar injeções para a dor, mas nada se compara com a leveza provocada por um simples banho de mar. Quando venho passo um dia leve, praticamente sem dor, apesar de trabalhar numa loja”, conta esta mulher de 52 anos, que recomenda esse “remédio santo”.

António Pires, 71 anos, junta a sua voz a este conselho. Sabe como se sente quando coloca os pés na areia e entra na água. Há mais de 40 anos que segue este ritual. “Chego normalmente pelas 6 horas e venho até mesmo no tempo frio. Se não vier, o dia fica-me tenso. Para mim, Lajinha é uma espécie de hospital natural a céu aberto”, considera.
Valentina Spencer conta que foi influenciada por outras pessoas que há anos colocaram Lajinha no seu programa matinal. Hoje, com 58 anos, adora seguir essa agenda. Para ela, Lajinha tornou-se num palco de convivência com um grupo de amigos. “Aqui é a nossa casa, um lugar onde conversamos enquanto tomamos um banho revitalizador”, diz. Normalmente, ela fica no mar até às 7 horas, uma hora a carregar a “bateria” para o dia inteiro.
Emigrantes entram na onda
Esta prática não é exclusiva de quem reside na cidade do Mindelo. Até os emigrantes entram na onda. Dois exemplos ilustrativos são os casos de Saturnino, residente na França, e Judite Matias, emigrante nos Países Baixos (Holanda). Revelam nos depoimentos à nossa reportagem que costumam incluir o banho matinal na Lajinha nos seus programas quando vêm de férias a São Vicente. Este ano não foi diferente.
Saturnino, 60 anos, veio passar 3 semanas de descanso na terra, mas tem abandonado o conforto da cama às 5 horas só para ir abraçar a água cálida da Lajinha. E, como diz, o corpo fica logo com outra energia. “Venho em dias alternados, mas sinto uma enorme satisfação por poder disfrutar desta enorme riqueza natural”, comenta.
Judite Matias confirma que o seu dia ganha outra vitalidade quando entrega o corpo ao mar. “Acordo às cinco horas, sem preguiça. Às vezes a água está ainda fria, mas vale a pena. Em pouco tempo habituamo-nos à temperatura”, assegura esta emigrante, que estava acompanhada da amiga Dionísia Rodrigues, uma ex-emigrante.
Aos 71 anos, Dionísia não troca a sua ida à Lajinha por nada deste mundo. “Para ter uma ideia, fico tão ansiosa que começo a abrir os olhos por volta das 4 horas e meia. Fico a acender a luz para ver se já deu as 5 horas para colocar os pés na estrada”, revela.
“Lar d’Idosos”

A maioria dos frequentadores matinais da praia está acima dos 50 anos de idade. Normalmente preferem tomar banho junto ao esporão, uma área protegida, onde o mar é mais calmo. Um ponto que acabou por ser baptizado de “Lar d´idosos”. Por outro lado, devido aos benefícios para a saúde, a praia passou a ser conhecida carinhosamente por “Dr. Lajinha”. E são muitos os relatos que testemunham esta merecida fama. Três casos paradigmáticos são os do ex-técnico de futebol Bassana, de Maria de Lourdes e Dionísia Rodrigues.
Quando residia na Itália, esta ex-emigrante operou um joelho. Foi o seu próprio médico quem lhe “receitou” o mar de Cabo Verde.“Ele disse-me que tinha um remédio especial em C. Verde, que era o mar. Que, se eu me banhasse constantemente voltaria a andar”, conta. Assim que regressou a São Vicente, colocou o mar na sua lista prioritária de “remédios”. Hoje, diz, já consegue locomover-se graças a uma energia mágica do “Dr. Lajinha”.
Há 13 anos que Maria de Lourdes transformou Lajinha num ginásio ao ar livre. Ex-praticante do Karaté e Capoeira, ainda mantém o corpo activo diariamente, apesar de ter um tumor na cabeça. “Fico muitas vezes cansada, mas Lajinha é minha terapia. Há 3 anos que estou à espera de evacuação, enquanto não sou chamada venho para o mar porque me faz muito bem”, comenta Maria de Lourdes, 50 anos, que faz sempre flexões de braços e pernas na areia.

Faz pouco mais de um ano que Bassana, ex-futebolista e antigo treinador, frequenta a referida praia com mais dois amigos. O objectivo principal é reverter as mazelas de uma forte pancada num joelho que ameaça limitar a sua locomoção. O ex-internacional cabo-verdiano conta que se deslizou num piso molhado, caiu e ficou com problemas sérios no joelho, a ponto de ir fazer tratamento nos Estados Unidos. “O médico perguntou-me o que faço para melhorar a situação e disse-lhe que costumo frequentar o mar. Ele disse-me que era a melhor coisa que poderia fazer, para continuar”, conta Bassana, 68 anos de idade.
Hoje já consegue andar, embora ainda com limitações, e até fazer um pouco de agachamento. Satisfeito com a progressão registada promete nunca mais parar de fazer essa terapia. “Se parar, vou regredir!”, exclama. Bassana e os amigos, refira-se, costumam aproveitar as suas idas à praia para limpar o areal de plásticos e garrafas, um gesto de gratidão para com essa dádiva da natureza.
António Adevino é outra “mobília” da Lajinha. Há 30 anos que segue essa rotina cinco vezes por semana. Chega às 6 horas e, enquanto espera por um grupo de amigos que costumam fazer treino de grupo, vai executando movimentos de Kata. Uma forma de mexer o corpo e continuar ligado ao Karaté, arte marcial que chegou a praticar no tempo da escola Igrejinha. “Posso dizer que o mar é o meu vício. Venho para Lajinha mesmo sem vontade. É um compromisso com a minha pessoa e sinto-me extremamente bem quando faço o meu treino e tomo o meu banho”, salienta. No final, diz, sente-se tonificado.
Praticamente as mesmas motivações levam o artista plástico Ró d’Interart a frequentar a praia de manhã. Acrescenta que, para ele, um dos factores relevantes é a absorção do iodo, mineral importante para o funcionamento normal do organismo. Ró aproveita a oportunidade para defender a construção de uma rampa para facilitar o acesso ao mar dos cadeirantes.







