A audição dos 20 suspeitos da operação Shark, 17 homens e 3 mulheres, terá seguimento e término durante o dia de hoje. Devido a complexidade do caso, a dimensão do processo e a quantidade de arguidos ainda para serem ouvidos, a audiência poderá arrastar-se noite adentro.
Capturados terça-feira de manhã numa vasta intervenção policial desencadeada pela Polícia Judiciária em vários bairros da Capital, com base em mandados emitidos pelo Ministério Público, os acusados ficarão hoje a saber quais as medidas de coação individuais. Ontem à tarde foram transportados em três viaturas hiaces para o edifício do Tribunal da Praia, mediante um forte aparato policial de segurança, para o primeiro interrogatório judicial, mas, conforme apurou a nossa reportagem, a audiência não foi concluída.
O grupo de detidos integra 4 agentes da Polícia Nacional, 5 guardas prisionais e o director do hospital universitário da Praia, sobre os quais impendem suspeitas de pertencerem a uma associação criminosa internacional de tráfico de drogas. Estes dados parecem apontar para a preocupante ligação de narcotraficantes ao poder estatal em Cabo Verde. Os suspeitos, cujas idades oscilam entre os 20 e 60 anos, estão ainda indiciados pela prática, em coautoria, dos crimes de conversão e branqueamento de capitais, entre outros delitos, conforme faz notar a própria PJ. No decurso das buscas domiciliárias, as autoridades apreenderam, segundo a Judiciária, uma espingarda caçadeira, uma pistola calibre 6,35mm e munições, cannabis e cocaína, produtos de corte de estupefacientes, 2 viaturas e equipamentos electrónicos, que serão submetidos a perícia. Alguns dos envolvidos, reforça a PJ, que contou com a colaboração da PN e da Cadeia de São Martinho, já são indivíduos referenciados pelas autoridades e com condenações aplicadas por crimes diversos.
No seio dos detidos sobressai, entretanto, o nome do PCA do hospital Agostinho Neto, recentemente indicado para o cargo pelo governo liderado por Francisco Carvalho. É certo, no entanto, que os factos ligados a este processo ocorreram antes da sua posse para como gestor do maior hospital de Cabo Verde. As informações que circulam na imprensa fazem referência a situações investigadas pelas autoridades desde 2016.
Abordado pela imprensa sobre o sucedido, o ministro Carlos Sena Teixeira, titular da pasta da Administração Interna, confirmou que teve conhecimento dos mandados emitidos pelo MP e sublinhou que o Governo não vai proteger quem tenha cometido crimes. Fez questão de sublinhar, no entanto, que os factos associados à operação Shark remontam a 2016 e 2017, antes da entrada em funções do actual Governo. O governante demonstrou, entretanto, estranheza pelo facto de os mandados terem sido executados neste preciso instante, dez anos após o despoletar da investigação.
Salvaguardando sempre a presunção da inocência dos suspeitos, o ministro deixou claro que, se a justiça comprovar as acusações, a situação assumirá outros contornos e será considera inaceitável, principalmente por envolver agentes da Polícia Nacional e guardas prisionais. Assegurou que o Governo quer trabalhar com transparência e respeito pela Justiça e que o Executivo não vai permitir que nenhum processo judicial fique engavetado.







