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Cadeirantes criam grupo “Porta d´trás” para denunciar discriminação e problemas de circulação em SV

Carolina Freitas, Anabela Santos e Amadeu Castro são três amigos com as suas estórias de vida, mas que têm em comum o facto de se deslocarem pela cidade do Mindelo nas suas cadeiras de roda. Carolina ficou com mobilidade reduzida devido a sequelas de poliomielite, enquanto Anabela e Amadeu sofreram danos na coluna vertebral e ficaram paraplégicos. Porém, andar e fazer actividades tão simples como compras num minimercado, é muitas vezes uma experiência que lhes afecta a própria autoestima. Decidiram criar um grupo denominado “Porta d´trás” para denunciar a disicriminação e os problemas de circulação que enfrentam em S. Vicente. Para Amadeu Castro, o nome do grupo diz tudo.

O problema, dizem em conversa com o Mindelinsite, é que se deparam com enormes dificuldades de acesso a instituições e serviços como bancos, hotéis, lojas, universidades, autocarros, barcos e a própria Câmara Municipal, por não possuírem rampas ou as mesmas não serem as mais adequadas para as suas necessidades. E, quando encontram um serviço com acesso, não conseguem circular no seu interior. “Quando vou a certos supermercados sou atendida à porta. Não posso entrar e escolher sequer a minha marca de iogurte”, ilustra Carolina Freitas, 51 anos.

A forma directa ou implícita como são tratados tem afectado o ânimo aos deficientes físicos. Em muitas situações sentem-se discriminados, como se fossem pessoas inválidas. “Sentimo-nos relegados para a porta de trás porque nós não podemos usar a porta da frente na maioria dos casos. Há empresas que colocam rampas, mas pensando primeiramente em beneficiar os seus movimentos de carga e não nos clientes com problemas de locomoção”, critica Carolina Freitas, que apanhou poliomielite aos dois anos de idade e ficou paraplégica.

Para Anabela Santos, 59 anos, a baixa da cidade do Mindelo é relativamente fácil de circular para um cadeirante. Porém, adverte, há casos em que a inclinação das rampas é mal feita, além de haver buracos nos passeios que constituem autênticos perigos para esses tipos de peões. “Podemos facilmente ser cuspidos da cadeira para o chão devido a um buraco”, alerta esta portuguesa, que reside na cidade do Mindelo há cerca de vinte anos.

Noutros casos, os cadeirantes encontram a rampa de subida para um passeio, mas não sabem onde fica a descida. A solução muitas vezes é andar na estrada, com todos os riscos que isso representa. Aliás, Carolina Freitas, que tem uma moto eléctrica, partiu o braço direito e a perna direita há um ano devido a um choque com um automóvel perto da praia da Lajinha. Ela foi operada e até hoje não se lembra como tudo aconteceu.  

Anabela Santos, que ficou paraplégica aos 24 anos na sequência de um acidente de viação em Portugal, chama atenção para o facto de o problema de circulação dos cadeirantes dizer respeito a toda a gente. Lembra que qualquer pessoa está sujeita a ficar com mobilidade afectada de forma temporária ou permanente, por isso defende uma visão mais abrangente da problemática. Sublinha que os cadeirantes são pessoas que ainda são úteis e que precisam fazer as suas actividades físicas tanto ou mais do que as “normais”. Entretanto, diz, é-lhes negado o direito de utilizar as praias, como a Lajinha, que poderiam ajudar-lhes bastante no processo de recuperação.

“Hoje fala-se muito no turismo de saúde. Cabo Verde tem um clima excelente e certamente que muitas pessoas residentes noutros países gostariam de vir usufruir deste ambiente, mas é preciso criarmos as condições para o efeito”, salienta.

Segundo Amadeu Castro, que deu uma queda de uma varanda e ficou sem movimento nas pernas, resolveram recorrer à imprensa como um grito de revolta e para pedir ao Estado de Cabo Verde que seja parceiro das pessoas com problemas de locomoção, sejam elas cadeirantes, idosos, crianças… Ele que se mostra indignado por ter sido impedido de votar nas eleições presidenciais, quando recebeu por diversas vezes mensagens da Comissão Nacional das Eleições para exercer esse direito. Porém foi impossibilitado porque a mesa de voto ficava num segundo piso. Mais um caso ilustrativo das barreiras que, segundo Castro, os deficientes físicos enfrentam.

Como ele e as duas colegas enfatizam, há leis que contemplam aos deficientes certos direitos, mas é só para “inglês ver”. Na prática, dizem, as regras são desrespeitadas ou ignoradas.

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