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Os Povos de Son Jon (Xangô?): Experimentações etnográficas agonísticas

Por: Alcides Lopes (Ph D)

No sábado dia 27 de maio de 2022, o Estado de Pernambuco amanheceu sob um autêntico dilúvio. Foi tanta água que os deslizamentos de terra encharcada vitimaram mais de uma centena de pessoas, em soterramentos, afogamentos e outros tipos de mortes violentas. As vítimas são, na sua grande maioria, moradoras das franjas e periferias perenemente vulnerabilizadas por uma pluralidade de perigos, abandonos e violências características do mundo contemporâneo globalizado.

As cidades de Olinda e Recife são tidas como irmãs desde a aurora do Novo Mundo. Olinda é a mais antiga cidade pernambucana Patrimônio da Humanidade, o município foi fundado em 1535 pelo donatário da Capitania de Pernambuco, o português Duarte Coelho. Por sua vez, o município de Recife tem origem intimamente ligada à de Olinda. No foral de Olinda, concedido por Duarte Coelho em 12 de março de 1537, elevando o povoado à categoria de vila de Olinda, há uma referência ao “Arrecife dos navios”; um lugarejo habitado por mareantes e pescadores.

Não pairam nuvens de dúvida, no semblante do leitor kriolu, sobre as semelhanças e a familiaridade com que o episódio trágico e o evento de origem narrados acima ressoam na mente. A chuva de 1984 na ilha de Santo Antão vitimou quatorze pessoas. Destas vítimas, nove viviam na localidade de Martiene. Nas memórias de criança, ainda ecoam vozes aflitas numa transmissão de rádio: “Era un eskur topode, nô n tava t’oiá kumpenher (…), un perna d’ága ben, kel pedra debangá lá de riba…”

Por sua vez, o mito fundacional sobre a história da cidade do Porto Novo não se beneficia de nenhuma “regalia” da Coroa, a exemplo da Diocese de Santiago, criada em 1533 na cidade de Rª Grande,  e se estendia entre a atual Gâmbia e Libéria (Cabo Das Palmas). Ou a portentosa Vila de Olinda, cujo título e edifício da Câmara e do Senado foram concedidos por Duarte Coelho em 1537 e a sua jurisdição se aplicava a toda a Capitania de Pernambuco.

Para qualquer filha das ilhas, rabidante, professora ou agricultora, os filhos pescadores, trabalhadores ou pastores, que sabem da aspereza do nosso clima, da estiagem protagonizada pelo vácuo deixado pela escassez das chuvas e pela ausência de rios, a experiência do cenário visto a partir do Alto da Sé de Olinda ao sul da costa de Pernambuco é paradisíaca. Na realidade, trata-se de uma paisagem tão intensa e viva que leva tempo para ser processada. Eu cheguei em Recife, pela primeira vez, via Varig, em 1997. Nunca esqueci o impacto daquela imagem aérea sobre mim. O verde vivo penetrante das matas, o dourado da areia e o cristalino das águas do mar, as enseadas de coqueirais e os mangues – aquilo tudo era inacreditável.

Uma vez em terra firme e após a digestão do primeiro alumbramento, foi possível começar a enxergar os rachamentos e as distonias habitacionais, os défices infraestruturais, os estados permanentes de calamidade, a ausência catastrófica de saneamento, a apropriação predatória e a alteração profunda dos ecossistemas. Eu vejo os rios urbanos, em processo de assoreamento, pântanos e mangues em processos de aterramento, há pelo menos vinte e cinco anos. 

A julgar pelas fotos e gravuras, dos finais do séc. XIX e inícios do séc. XX, disponíveis em edições antigas dos jornais, revistas e livros, este processo de sufocamento e soterramento das áreas alagadas tem sido interminável. No caso de Recife, estamos a falar de uma cidade que comporta atualmente 1,6 milhão de habitantes e Olinda, mais de 375 mil habitantes. Mais uma vez, me refiro às realidades topográficas e geográficas cuja fenomenologia transcende os espectros possíveis da experiência insular.

Ora, mas como dizia anteriormente, o mito de Mé Maia narra as razões e as condições de fundação do vilarejo de pescadores e comerciantes, cenário das festas de Kolá Son Jon de Porto Novo. Dados históricos nos informam que, a partir de 1548, houve tentativas, sem sucesso imediato, de povoar a ilha de Santo Antão. Os primeiros aglomerados populacionais  se fixaram inicialmente no extremo norte e nordeste da ilha. Uma cadeia de montanhas separa a região norte da região sul da ilha e foi considerada intransponível durante muito tempo.

Entre as profundas contradições e as grandes lacunas que permeiam os relatos particulares e oficiais sobre as ilhas de Cabo Verde, por parte de autoridades e aventureiros portugueses e brasileiros, as informações contidas em algumas cartas sugerem presença humana desde finais do séc. XVI. A ilha era governada, eventualmente, por um Capitão Donatário, munido de feitores, com amplos poderes de foro administrativo, jurídico e econômico, sobre toda a comunidade.

Contudo, alguns aspectos incitam questionamentos necessários. Sabemos que o ano do achamento das ilhas de Cabo Verde coincide com o ano da morte do Infante Dom Henrique – 1460. Deste modo, as ilhas passaram a pertencer a Ferdinand de Bragança, seu primo, por decreto real.  Em 1462, um novo decreto real concede as restantes ilhas do grupo barlavento à viúva de Ferdinand e ao seu filho Diogo de Bragança. Os quais manteriam a posse das ilhas até 1484, quando as ilhas de Cabo Verde retornaram à posse da Coroa portuguesa. 

Neste contexto, questiono: quais foram os tipos de protagonismos desempenhados pela dupla viúva e filho, em defesa de interesses privados, no estabelecimento do comércio de pessoas escravizadas no Atlântico, durante a fase primeva da emergência das sociedades escravocratas de Santiago e São Felipe de Cabo Verde? 

Quão urgente é a necessidade de desconstrução da categoria “elite”, em “grupos” e “bandos”? Como é possível avaliar criticamente a noção “placa giratória de mercadorias africanas” – noção fantasma que nos persegue até hoje, encarnada em hub – através de uma lente que exponha as vantagens em bridgehead, proporcionadas pela localização estratégica das ilhas e a determinação em “aproveitar a oportunidade de exercer dominação sobre outros”?

Atendendo as ilações de Walter Rodney sobre, no início do séc XVI, quase todas as ilhas estarem  sendo “povoadas” – ou seja, usadas como bases para a manutenção em cativeiro, alienação e, posteriormente, revenda de pessoas escravizadas para Europa e Américas; e que, somente a partir de 1550 foi alcançado o compromisso, em que um feitor real residiria, permanentemente, em Santiago, enquanto o comércio de Cabo Verde-Guiné era arrendado, quais os subsídios necessários para a exploração e construção de arquivos alternativos concernentes às últimas décadas da pré-modernidade europeia nas ilhas de Cabo Verde?

Nos registos a que tenho acesso, a viagem mais antiga saiu de Congo em 1514, com 224 pessoas escravizadas navegando rumo ao Atlântico Norte, provavelmente grupos tenham sido alijados nas ilhas de Cabo Verde ou nas Canárias, visto que apenas 166 destes sujeitos desembarcaram em Vigo, Galícia. Dois anos depois, outra embarcação sem nome, cujo proprietário é identificado como Fernão de Melo, sai de Congo em direção a Lisboa com 400 pessoas escravizadas, mas chega com apenas 298. Os dados sugerem, mais uma vez, que grupos tenham sido desembarcados nas ilhas. 

Em 1520, uma caravela de nome Santa Maria de la Luz zarpou do porto de Arguim, Ilha das Garças, na baía da Mauritânia, com sessenta e oito pessoas escravizadas a bordo, em direção ao porto de San Juan, na ilha de Puerto Rico, no extremo leste do Caribe. Destas, dezoito não chegaram ao destino. Estavam assim lançados os dados sobre o colossal morticínio que acompanharia perenemente a secular “passagem média”. 

Sete anos mais tarde, uma “frota” de quatro navios negreiros zarpou das ilhas de Cabo Verde em direção ao Novo Mundo. Concepción, propriedade de Juan Fernández de Castro registado em Sevilha, embarcou 325 e chegou ao porto de destino, ilha de Puerto Rico, com 260 pessoas escravizadas. S. Anton, pertencente ao capitão Juan de Leon, transportou 359 e desembarcou no Caribe 287 pessoas escravizadas. Igualmente, Santa Maria de Guadalupe, pertencente a Francisco Pavon e Antonio Rodriguez, sob o comando do capitão Francisco Pabon e outro navio negreiro sem nome, provavelmente pertencente ao capitão Esteban Carega, transportavam números semelhantes ao de S. Anton e incorreram na mesma média de mortalidade durante as viagens. No mesmo ano de 1527, outro navio de nome S Maria de Bogoña, originário de Lisboa, zarpou da ilha de São Tomé com 300 pessoas escravizadas com destino ao Caribe e chegou ao porto não especificado apenas com 223.

De acordo com os dados disponíveis, as viagens desde então ocorreram numa base mais ou menos regular, com alguns períodos animados e outros descontinuados. Duas décadas depois, 1546, a frota que zarpou das ilhas de Cabo Verde contava, no mínimo, com dez navios negreiros, seguindo os mesmos destinos ao Caribe, portando os mesmos nomes de San Juan, Santa Cruz, Fideles de Dios, Buenaventura, Santo Espírito, Sta Maria de Garcia, Sta Maria de la Encarnación, Sta Maria de la Concepción, Anunciada etc.   

Foi na Capitania de Pernambuco onde chegaram os primeiros negros africanos escravizados para o trabalho forçado na cultura da cana e na fabricação do açúcar no Brasil Colônia. Os dados históricos apontam para o período entre 1539 e 1542. Entretanto, o estabelecimento da primeira prelazia ou jurisdição eclesiástica em Pernambuco data de 1614, através de bula papal. A Diocese de Olinda seria finalmente estabelecida nos finais do séc. XVII, em 1676, também através de bula papal. Contudo, ainda em 1586, monges beneditinos se abrigaram na ermida de São João em Olinda. O edifício original, construído no estilo maneirista, sobreviveu ao incêndio ateado pelos holandeses em 1631 e, posteriormente, serviu de matriz durante a reconstrução da Sé de Olinda, entre 1656-1669. Hoje é tombada pelo IPHAN e conhecida como a Igreja de São João dos Militares.

Por sua vez, quando pensamos na dimensão mítica das narrativas sobre Mé Maia, podemos inferir a noção de moça de família de quem se esperava ou se exigia um determinado papel. Bem nascida, em alguma povoação ou ribeira no Norte da ilha. Por alguma ou várias razões, resolveu renunciar àquela vida e se aventurou pela perigosa trilha de montanhas em direção ao Sul desertificado de Santo Antão. 

Uma vez no litoral, árido das praias e lajedos de Porto Novo, encontrou a imagem do santo (ou talvez, tenha sido um pescador que achou a imagem e entregou-a a Mé Maia). Construiu a pequena ermida com “ajuda dos escravos” e lá se dedicou por toda a vida ao santo, com quem conversava e a quem tratava de satisfazer todas as necessidades e conselhos. As pessoas vinham visitar o santo em muita algazarra. Uma vez o santo disse que não lhe apetecia mais tanto barulho e pediu que fosse levado a um lugar sossegado. Mé Maia levou-o à Rª das Patas onde ele permanece e visita Porto Novo, uma vez por ano, de 23 a 25 de junho, quando as pessoas vão encontrá-lo e acompanhá-lo em peregrinação.

Em Pernambuco, as festas de São João são celebradas e geralmente também conhecidas como as festas de Sangò ou Xangô – uma entidade (Orixá) bastante cultuada pelas religiões afro-brasileiras, considerado deus da justiça, dos raios, dos trovões e do fogo, além de ser conhecido como protetor dos intelectuais. Nas cidades do litoral também se festeja, mas os eventos mais importantes são realizados no Agreste e Sertão do Estado, pois São João é uma festa do interior.

No final de fevereiro encontrava-me no Quilombo do Serrote, agreste do estado a 120 km de Recife, e lembro-me de uma conversa que tive, debaixo do alpendre fumando [tabaco de rolo] com Seu João, um dos anciões da comunidade – um patriarca. Ele estava animado porque o tempo estava fresco e isso, ele dizia, era sinal de chuva. Ele disse-me que tinha três quartos de terra limpos e prontos para receber o plantio do milho no dia de São José, dia 19 de março. O semblante de seu João estava feliz. Seus olhos pequenos brilhavam. Olhou para mim de lado e disse-me: “rapaz, até hoje lamento não ter a cara forrada de barba, assim como tu” e riu! 

Este ano, devido à tragédia recente comentada no início deste texto, cogitou-se o cancelamento do São João de Recife, mas a classe artística e comercial reagiu veementemente. “Estamos todos tentando retornar à vida e derrubar esta pandemia paralizante”, dizia uma senhora na tevê. 

As festas de São João, Sangò, Xangô, Kolá Son Jon, San Juan constituem manifestações popularizadas entre uma variedade impressionante de populações negras, cuja história comum compartilhada refere-se ao passado da escravidão e do colonialismo. No nordeste do Brasil, traduz-se na resistência, no enfrentamento das dificuldades provocadas pela seca e pela pobreza decorrente tão presentes na  rica cultura popular.

Fonte digital:

Viagens em Escravo (slavevoyages.org)

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