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O debate que se criou sobre os terapeutas precisa de mais honestidade, base séria e menos ruído

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Helga Fonseca

Nos últimos tempos, ganhou espaço público o debate sobre o papel dos terapeutas. O que poderia ser uma discussão séria sobre ética, responsabilidade, limites de atuação e complementaridade entre áreas tem-se transformado, muitas vezes, numa sucessão de generalizações pejorativas, rótulos apressados e leituras pouco cuidadas do que realmente está em causa. É importante trazer este tema para um plano mais lúcido e intelectualmente honesto.

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O primeiro ponto essencial é simples: o ser humano não pode ser analisado a partir de uma única dimensão. Reduzir a experiência humana ao comportamento observável, ao sintoma ou apenas ao raciocínio lógico é uma leitura incompleta da sua complexidade.

Quando falamos de terapias holísticas e integrativas, falamos de uma abordagem que procura compreender o indivíduo na sua globalidade. Isto inclui a dimensão emocional, comportamental (estes 2 últimos com impacto direto no mental), físico (inclusive a massoterapia por exemplo) energética e espiritual também. Esta última, tantas vezes evitada no discurso público, faz parte da experiência humana de muitas pessoas, independentemente da linguagem usada para a descrever.

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O problema começa quando esta dimensão é tratada como algo ilegítimo por princípio, como se a sua existência no discurso terapêutico anulasse automaticamente o valor da abordagem. Na prática, isso diz mais sobre resistências culturais, sociais e morais do que sobre o trabalho em si.

O ser humano não vive apenas de lógica. Vive de significado, de perceção interna, de estados emocionais e de processos profundos de consciência sobre si mesmo. É nesse espaço que o trabalho integrativo atua.

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A abordagem integrativa não se limita a identificar o que está a acontecer, mas procura compreender por que razão isso se repete e que dinâmicas internas (e não só) estão envolvidas.

Por vezes, a origem está na gestão emocional. Outras vezes, em padrões de crenças profundamente enraizadas, sistémicos e/ou ancestrais. Noutras situações, há um esgotamento interno que não se resolve apenas com análise racional.

Também importa esclarecer, com serenidade, a acusação frequente de que as terapias holísticas se resumem a pseudociência. Essa leitura é, muitas vezes, simplista. Diferentes ferramentas utilizadas neste campo têm sido estudadas em vários contextos e, em diversos casos, apresentam evidência sobre o seu impacto no bem-estar, na regulação do stress e no desenvolvimento pessoal.

Além disso, o valor de um processo terapêutico não se esgota na disputa entre o que é ou não imediatamente enquadrado como científico. Envolve também ética, responsabilidade profissional, estudo e impacto real na vida das pessoas, e aqui falo de transformação.

Também é relevante observar que várias ferramentas hoje associadas a abordagens integrativas foram, ao longo do tempo, incorporadas em formações e práticas dentro de contextos psicológicos e de intervenção clínica complementar. Isto não é uma novidade para quem trabalha neste campo. Na prática, nunca houve uma verdadeira necessidade de oposição entre áreas, mas sim de reconhecimento da complementaridade entre diferentes formas de trabalhar o ser humano.

Curiosamente, aquilo que hoje é apresentado como novidade no debate público é, muitas vezes, conhecimento que já circula há bastante tempo entre profissionais de diferentes áreas. Para quem está no terreno, essa “descoberta tardia” tende a soar menos polémica do que parece no discurso externo.

O trabalho terapêutico integrativo não substitui a psicologia, a medicina ou a ciência numa leitura rígida. São campos distintos, com enquadramentos próprios, que podem coexistir de forma complementar quando existe ética e clareza de limites.

Na prática, isto implica reconhecer quando uma pessoa precisa de acompanhamento especializado e fazer o devido encaminhamento. A maturidade profissional mede-se também pela capacidade de respeitar fronteiras de atuação e de compreender que o cuidado humano pode beneficiar-se de abordagens complementares.

No meu exercício profissional, isso é uma prática concreta. Já encaminhei pessoas para acompanhamento psicológico, com profissionais que conheço e em quem confio. Situações houveram em que, perante relatos de familiares e sem iniciar qualquer processo de acompanhamento, considerei necessário o direcionamento imediato para o Sistema Nacional de Saúde, nomeadamente para serviços psiquiátricos. Da mesma forma, também recebo pessoas encaminhadas por psicólogos para trabalho complementar no âmbito do autoconhecimento, da regulação emocional e expansão de consciência. Isto não representa conflito entre áreas. Representa responsabilidade, maturidade e respeito pelos diferentes níveis de intervenção.

O problema do debate atual não está na exigência de rigor, que é legítima. Está na facilidade com que casos isolados (segundo foi apontado pela Ordem e que espero que tenham a responsabilidade de mostrar de forma clara, e não generalizada) são usados para invalidar uma área inteira de atuação de uma classe profissional que, sim, tem gerado impacto no ser humano no seu todo.

Esse tipo de generalização não seria aceite em praticamente nenhuma outra profissão.

Em qualquer atividade profissional, seja ela de interação humana direta ou indireta, existem profissionais competentes e outros que não cumprem os padrões éticos adequados. Essa realidade é transversal e não exclusiva das terapias integrativas, sejamos honestos!

Da mesma forma que não seria intelectualmente correto reduzir a psicologia a partir de experiências individuais negativas, com um ou outro profissional inábil daquela classe profissional, também não é justo fazer o mesmo com o campo terapêutico integrativo e seus profissionais. O centro da discussão deveria estar na ética da prática, na responsabilidade individual e na consciência dos limites de atuação.

Um profissional sério sabe o que faz, sabe até onde vai e sabe quando encaminhar. Essa capacidade de reconhecer fronteiras é um dos principais indicadores de maturidade profissional.

O que se observa, por vezes, no discurso público a partir da Ordem dos Psicólogos de Cabo Verde e alguns dos seus profissionais — que insiste em vincular o tema a um nível tendencioso e duvidoso, sem base séria — é uma tendência para transformar esta discussão numa disputa de territórios, como se o cuidado humano devesse ser organizado numa lógica de competição.

Essa não é a prioridade, nunca foi e nunca será. A prioridade deve ser a pessoa, a qualidade do acompanhamento que recebe, a ética de quem a conduz e a consciência de que o sofrimento humano não se esgota numa única linguagem técnica.

Talvez o desconforto em torno deste tema esteja relacionado com o facto de cada vez mais pessoas procurarem abordagens que integrem diferentes dimensões da sua experiência — emocional, mental, energética, vibracional e espiritual. Que não separe, como se de pedaços do mesmo ser se tratasse, onde eles não têm ligação. Somos integração.

Esse movimento não deve ser tratado com desconfiança automática, mas com seriedade e abertura para o compreender.

No fim, a questão não é quem detém a narrativa mais aceite, mas quem está realmente comprometido com o bem-estar e a evolução interna do ser humano, de forma complementar e integrada, gerando impacto real e transformação — com responsabilidade. É por isso que este debate precisa de menos ruído, menos generalização e mais honestidade intelectual.

Mais do que uma disputa entre áreas, está em causa a forma como escolhemos cuidar do ser humano: com responsabilidade, ética e respeito pela sua complexidade.

Quando o debate se eleva, todos ganham. Sobretudo quem mais importa: as pessoas.

E fica o convite e abertura para que a própria Ordem faça o movimento de se aproximar e compreender, de forma real, o que constitui o trabalho do terapeuta. Os terapeutas holísticos, integram… não separam!

  • Terapeuta Holística, Guardiã dos Registos Akáshicos e Educadora Emocional.

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Constanca Pina

Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ). Trabalhou como jornalista no semanário A Semana de 1997 a 2016. Sócia-fundadora do Mindel Insite, desempenha as funções de Chefe de Redação e jornalista/repórter. Paralelamente, leccionou na Universidade Lusófona de Cabo Verde de 2013 a 2020, disciplinas de Jornalismo Económico, Jornalismo Investigativo e Redação Jornalística. Atualmente lecciona a disciplina de Jornalismo Comparado na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

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