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Eu e a língua cabo-verdiana

Por: Adriano Pires

Oficializar (impor) um outro alfabeto do crioulo por pressões, legitimas ou não, ou mesmo por “decreto legislativo”, é igual a estar a querer “oficializar” o povo de Cabo Verde e a sua cultura, ou não, através de um decreto lei, o que não deixará de ser um absurdo, sobretudo, quando já se sabe que, afinal, o “ALUPEC” que se quer “unificador”, não o é.

Nasci, cresci e desenvolvi a falar o CRIOULO. O crioulo que falo hoje, enquanto corpo vivo que evolui, evoluiu e há de continuar a evoluir-se em paralelo com a sociedade, resultou dos contactos, na mesma proporção temporal, com os crioulos do Fogo, Santiago e São Vicente, todos resultantes da língua portuguesa que também é minha, como a é de um português do Minho ou do Algarve. Que maravilha!

E é esse crioulo que vou continuar a falar e a escrever, quando quero, usando sempre a estrutura do alfabeto da língua portuguesa, por razões óbvias, técnicas e científicas. Aliás, aviso à navegação que a língua portuguesa que estou-me a referir é a de “todos os falantes da língua portuguesa”, não a “língua” dos colonialistas portugueses.

É como que dizer: oficializar (impor) um outro alfabeto do crioulo por pressões, legitimas ou não, ou mesmo por “decreto legislativo”, é igual a estar a querer “oficializar” o povo de Cabo Verde e a sua cultura, ou não, através de um decreto lei, o que não deixará de ser um absurdo, sobretudo, quando já se sabe que, afinal, o “ALUPEC” que se quer “unificador”, não o é. Assim sendo, qualquer iniciativa em relação ao crioulo deve considerar a sua evolução de 1462 a esta parte, não fazendo sentido o “retrocesso”, o voltar-se a uma “certa origem”, ou seja, andar para trás como faz o caranguejo, e recomeçar do “arcaico”, passando a usar um crioulo que a evolução “negou” e que já não se fala e nem se escreve em nenhuma ilha ou localidade de Cabo Verde, como língua “padrão/norma”.

Parafraseando Antoine-Laurent de Lavoisier, na Natureza nada se cria, nada se perde, nada se decreta, tudo se transforma, …“Somos os prisioneiros de uma sociedade”. Logo, enquanto dádiva da Natureza intrínseca ao ser, a cada povo, a nossa língua não deve ser “oficializada”, ou não; criada, retocada ou remendada.

Quando é que já se viu povo sem a sua língua, ou cuja língua é para ser decretada mais tarde? Como ela própria já ensinou a todos, aquilo que é da Natureza não deve ser alterado ou retocado, sob pena de consequências catastróficas.

Compete a Ela fazer os seus próprios reajustes, tal como o crioulo os vem fazendo, naturalmente, há mais de 500 anos. Assim como o crioulo, todos sabem, por exemplo, que o português que Luís de Camões falava (sem este deixar de ser o maior poeta português de todos os tempos) não é o mesmo que se fala hoje em Portugal, nem passará pela cabeça dos linguistas portugueses propor a oficialização, por decreto-lei, do português que o autor de os Lusíadas falava e escrevia, para que o português que é escrito e falado hoje passasse a ser genuíno, unificador.

Portanto, o Sr. PR de CV, ou qualquer outro político, pode ir falar o seu crioulo nas Nações Unidas, na OUA, ou no Parlamento Europeu, e a AN pode oficializar o “ALUPEC” com os votos do MPD, PAICV e UCID. Tudo certo, mas que saibam o que estão a fazer.

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