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Eleições em Cabo Verde: há necessidade de mudar?

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Silvino Rodrigues

Nos últimos anos, Cabo Verde tem registado avanços significativos em vários domínios estruturantes da sua economia e da sua organização social. O crescimento económico médio, a redução da taxa de desemprego, a implementação de medidas de valorização salarial, o reforço da segurança interna e a consolidação da credibilidade externa são indicadores que apontam para uma trajetória globalmente positiva.

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Estes resultados tornam-se ainda mais relevantes quando enquadrados num contexto internacional particularmente adverso, marcado por crises económicas, instabilidade geopolítica e choques externos com impacto direto nas pequenas economias insulares. Apesar dessas adversidades, o país tem demonstrado capacidade de resiliência, adaptação e continuidade de políticas públicas orientadas para o desenvolvimento.

É neste quadro que se impõe uma reflexão serena e responsável sobre o momento eleitoral. A alternância democrática constitui um pilar fundamental de qualquer Estado de direito, mas não deve ser entendida como um fim em si mesmo. Mudar, apenas por mudar, pode significar a interrupção de um ciclo de reformas e investimentos que ainda não atingiram o seu pleno potencial de maturação.

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Importa reconhecer que governar implica não apenas definir boas intenções, mas sobretudo garantir estabilidade, previsibilidade e capacidade de execução.

Políticas públicas exigem tempo para produzir resultados sustentáveis, e mudanças abruptas de direção podem comprometer ganhos já alcançados, além de gerar incerteza junto de investidores, parceiros internacionais e da própria sociedade.

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Isso não significa ignorar os desafios que persistem. Questões como o custo de vida, a necessidade de maior inclusão social, o reforço da qualidade dos serviços públicos e a criação de mais oportunidades para a juventude continuam a exigir respostas firmes e eficazes. No entanto, tais desafios podem e devem ser enfrentados no quadro de uma estratégia de continuidade reformista, que permita corrigir fragilidades sem colocar em risco a estabilidade conquistada.

A questão central, portanto, não reside apenas na vontade de mudança, mas na existência de alternativas sólidas, credíveis e comprovadamente capazes de fazer melhor. A experiência demonstra que nem todas as propostas de rutura conduzem a melhores resultados; pelo contrário, em muitos contextos, a descontinuidade tem implicado retrocessos difíceis de reverter.

Assim, perante os progressos alcançados e os desafios ainda em aberto, a decisão dos eleitores deve assentar numa avaliação ponderada entre risco e segurança, entre incerteza e continuidade. Mais do que uma escolha emocional ou conjuntural, trata-se de uma decisão estratégica sobre o futuro do país.

Num momento em que Cabo Verde procura consolidar o seu posicionamento como uma economia estável, confiável e em crescimento, a continuidade, aliada a uma postura crítica e reformista, apresenta-se como uma via prudente para assegurar que os avanços registados não sejam interrompidos, mas antes aprofundados em benefício de toda a sociedade.

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Constanca Pina

Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ). Trabalhou como jornalista no semanário A Semana de 1997 a 2016. Sócia-fundadora do Mindel Insite, desempenha as funções de Chefe de Redação e jornalista/repórter. Paralelamente, leccionou na Universidade Lusófona de Cabo Verde de 2013 a 2020, disciplinas de Jornalismo Económico, Jornalismo Investigativo e Redação Jornalística. Atualmente lecciona a disciplina de Jornalismo Comparado na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

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