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Marie Rocha apresenta no Mindelo o livro “O brilho nas ruínas”

A emigrante santantonense Marie Rocha, que reside há largos anos em Luxemburgo, apresenta no próximo dia 19 de junho, na cidade do Mindelo, o livro autobiográfico “O brilho nas ruínas”, publicado em abril de 2025. A obra, segundo relato da autora, retrata o seu percurso de vida marcado por desafios, superação e esperança.

Em “O brilho nas ruínas” – “L’éclat dans les ruines”, versão francesa – a autora revisita experiências de desenraizamento, violência doméstica, solidão, racismo, luto e precariedade, transformando-as num testemunho de resiliência e partilha, detalha Marie Rocha, em uma reportagem publicada no online Virgule em francês, posteriormente traduzida para português e partilhada pelo jornal Contacto.

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Marie Rocha conta que o livro nasceu de um pedido dos filhos, durante um encontro familiar no Natal. “Mãe, sabemos que não tens nada de material para nos deixar. O maior presente que nos podes dar é a história da tua vida”, recorda a autora as palavras que serviram de motivação para escrever a obra.

Os quatro filhos, hoje adultos e alguns já pais, conheciam apenas fragmentos do seu passado, o que levou Marie Rocha a decidir colocar a sua história no papel para ser partilhada com a família e com o público. Conta que escreve desde a infância, sobretudo poesia, e que utiliza a escrita como forma de refúgio.

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“Escrever sempre me ajudou. Não é a minha língua materna, mas sempre escrevi em francês”, afirma. Contudo, admite que publicar a própria história representou um desafio diferente. “Antes, era entre mim e o papel. Desta vez, estava a fazê-lo ao ar livre. Foi ainda mais terapêutico”, sublinha.

Marie Rocha acrescenta que uma das principais motivações para publicar o livro foi a vontade de inspirar pessoas que atravessam momentos difíceis. “Queria que este livro ajudasse as pessoas que estão a passar por dificuldades. Para dizer que há sempre uma saída”, acrescenta.

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Nascida em 1966, na ilha de Santo Antão, Marie Rocha guarda recordações felizes da infância passada em Cabo Verde, marcada pela convivência familiar, pela simplicidade da vida e pela presença constante da avó. “Foi a época mais feliz da minha vida”, recorda a autora, descrevendo uma infância vivida entre uma casa modesta, as montanhas e os afetos familiares.

Emigração para Luxemburgo

O pai, revela, emigrou para Luxemburgo durante a vaga migratória dos anos 70, procurando melhores condições de vida para a família. A primeira tentativa de instalação no país europeu acabou, contudo, frustrada, depois de a família ver recusado o visto. Cinco anos depois, em 1977, a mudança para o Grão-Ducado concretizou-se de forma definitiva. Marie tinha cerca de dez anos.

Na escola, enfrentou dificuldades por não dominar o luxemburguês e nem o alemão, embora tenha aprendido francês. Por conta disso, aos 13 anos, foi informada de que teria de abandonar a escola. Posteriormente, frequentou uma escola complementar e um centro de formação profissional. Sonhava seguir medicina, mas o domínio insuficiente da língua alemã foi um obstáculo.

Aos 18 anos, conheceu um rapaz de outra ilha, com quem encetou uma relação discreta, quase secreta, regida por uma educação rígida. Quando contou ao pai, este exigiu uma data de casamento. Aceitou, mas a violência não tardou a chegar. Três filhos nasceram num clima de medo e de controlo. “Eu já não existia. Trabalhava e marcava o tempo, ele controlava tudo o que eu fazia”. 

A viragem aconteceu quando a filha de seis anos interferiu durante uma discussão violenta. “Ele levantou-lhe a mão. Nesse dia, descobri uma força que não sabia que tinha. Disse-lhe: podes fazer-me tudo, mas não às crianças”. Com ajuda de uma assistente social, abandonou a casa e refugiou-se num abrigo para mulheres. “Levei os meus três filhos debaixo do braço, nem sequer fraldas para o bebé”. 

O divórcio saiu rapidamente. Os anos seguintes foram de reconstrução. Depois da casa de abrigo, foram morar em um apartamento e, posteriormente, com os pais em outra cidade. Os três filhos conseguiram concluir os estudos e, atualmente, trabalham na área da assistência social ou da educação. 

Voltou a casar e teve mais um filho, mas a felicidade durou pouco. No livro, fala também dos maus tratos que sofreu em criança no seio da sua família. Atualmente, vive com o filho mais novo, mas mantém a sua independência. Levou o seu livro ao Festival das Migrações, a 21 e 22 de março, participa em eventos literários e vende o seu livro na Amazon e em eventos comunitários. 

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Constanca Pina

Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ). Trabalhou como jornalista no semanário A Semana de 1997 a 2016. Sócia-fundadora do Mindel Insite, desempenha as funções de Chefe de Redação e jornalista/repórter. Paralelamente, leccionou na Universidade Lusófona de Cabo Verde de 2013 a 2020, disciplinas de Jornalismo Económico, Jornalismo Investigativo e Redação Jornalística. Atualmente lecciona a disciplina de Jornalismo Comparado na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

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