CarnavalOpinião

Grupo Carnavalesco Montsu: “Djôndjôn ca ta vergá – (Ainda) O povo das ilhas quer um poema diferente para o povo das ilhas»

Por: Airton Ramos

O saudoso Onésimo Silveira – escritor, político… pensador – in “Poemas do Tempo das Trevas” – ao estilo da geração literária da qual fez parte (“Suplemento Cultural” – do discurso de revolta)  assertivamente poetizou: «O povo das ilhas quer um poema diferente para o povo das ilhas…»

E este poderoso texto tem sido debatido – por vezes – nas salas de aulas, em palestras, colóquios e conversas de esquinas… e ecoado sempre que se fala de uma mudança – os “novos ventos” / a ansiada “transformação” – para as nossas gentes e para a nossa terra!

Vibrou tanto – que a exemplo de anos anteriores – em que foram resgatadas figuras, memórias (…) e revivido o outrora do povo cabo-verdiano – ressalta no samba enredo do Grupo de Carnaval de Monte Sossego – São Vicente (2023), “Djôndjôn ca ta vergá” [«(Ainda) O povo das ilhas quer um poema diferente / Para o povo das ilhas»:

Magistralmente escrito por Constantino Cardoso – o autor de “Amor Financiód” e de tantas composições – o mesmo que cresce artisticamente a cada ano – irei conduzir-vos a uma VIAGEM:

«Já lá vai o tempo q´ senhor Coxim reclamá

Um poema diferente pa nôs povo, pa nôs gente

Nôs poema ca mudá, dificuldade ca cabá

Ma no ca ta vergá, um dia no te txga lá»

[Constantino traz-nos a referência – uma intertextualidade – evocando o senhor Coxim (alcunha de Onésimo Silveira) que havia reclamado por “um poema diferente para o nosso povo e para a nossa gente”. Ainda não alcançamos tal desiderato [“o poema não mudou”]. Enfrentamos outros problemas / outras dificuldades! E levantam-se bandeiras e lemas de “para novos problemas, novas soluções”, os “sem djobi pa ladu”, “Cabo Verde tem solução”! E continuamos a sofrer / a labutar / sem nunca vergar [dobrar, desistir]! Há que lembrar também de Ovídio Martins “Nós somos os flagelados do Vento-Leste!” (a tal resiliência / coragem / esperança do “povo das ilhas”). Ainda não nos devemos esquecer do “Nôs Cabo Verde d’Sperança” de Norberto Tavares.]

«Pa nô escrevê nôs história c’caneta permanente

Sem folha rasuród deboxe d’pena d’parlament

Ta incurtá sustento tá vrá gente indigente

N’um demagogia d’parlare, parlare, parlare, parlare

E pa nôs povo nada fatto, nada fatto, ê sô gravata»

Cardoso desenvolve a ideia – lançada na 1ª estrofe [mote] – convidando-nos a “escrever a nossa história com uma caneta permanente” [“sermos donos e senhores do nosso destino” / construirmos “as nossas pontes” / vencermos através da nossa força – sem esperar pelo parlamento – que encurta o nosso sustento (o orçamento das famílias)!]. O Parlamento que faz com que haja cada vez mais indigentes [miseráveis, mendicantes]. Há uma presente demagogia da sacrossanta CASA PARLAMENTAR – onde se fala, se fala e nada se faz para o nosso povo. Com sarcasmo e jogos de palavras, refere que só resta uma “gravata” [duas leituras possíveis – a pomposidade do vestuário e do vazio blá blá dos digníssimos deputados; a gravata que aperta o pescoço (ou o cinto que aperta a cintura) – do pobre “berdiano”.]

«Odju pa céu ondêl ôndel, ainda nô crêl ondêl ondêl»

Tal como uma criança indagamos – mas não em tom de brincadeira – onde está “este novo poema”? Onde está este novo futuro (tão) prometido? Queremo-lo [de facto – e sem gravatas]! “Ondêl? Ondêl”? A interrogativa retórica enfatizada. Só nos resta continuar a olhar para o céu. Quem dera que dali caia a resposta.]

«Trocóde colonialáis pa oportunáis

Tcheu bjôn panhá boleia na mamá d’asembleia

N’esse gol a gol d’pai ma mãe de poder

U cidadão na Var, sem pite e sem palpite

Rendimento d’pôvo esturquid ta inforcá n’ imposto

Pa sustentá ganância d’quem tem mas posto»

Troca-se um jugo (poder instaurado) por outro! Um colossal mal por um mal menor? Os oportunistas de plantão que emergem. A bipolaridade (dos que se julgam pai e mãe do poder – ou versa-vice). O anónimo cidadão que se queda – apenas – no VAR (das redes sociais) e – infelizmente – sem poder de decisão. O povo (elo mais fraco?) – que é “escravo” e deveras extorquido para sustentar os que “SABEM”, PODEM E MANDAM! Ou apenas têm mais trunfos na manga?

«Abernuncia crédo em cruz Barrabás

Djôndjon trazê baigon p’ês pulga ma ês carrapate»

As interjeições e expressões populares são trazidas à tona. E novamente sarcástico, Constantino convida a figura do “Djôndjon” – quiçá conhecido da nossa praça ou uma figura maior [mítica e/ou titânica] – para o combate a tais pragas. Quem / Quais são as pulgas e os carrapatos que impedem o “poema diferente para o povo das ilhas”? “Para bom entendedor meia palavra basta”! Mas para algumas “pulgas e carrapatos” meio Baigon não chega! 

«Nôs ê inteligente, tcholdente e revoltiente

Nô bem bli esse ralôn, repartil pa tud cristôn

Ter casa ma trabói, saúd e educação

Transporte, ága ma luz, pa tud população

Pa cada fidje d’parida ter sê dignidade»

O autor ressalta as qualidades do cabo-verdiano – ou mais regionalmente – do são-vicentino! Há que mexer / bulir a tal “sopa” (“parece que só alguns têm boca / só a máquina do estado que carece de ser alimentada?” Tal como Renato Cardoso enunciava: “tude criston, tude simbron, tem direit na sê góta d’ága”! A enumeração serve para pôr o dedo na ferida – ansiamos por – MAIS – trabalho, saúde, educação, transporte, água e luz para toda a população! [«Odju pa céu ondêl ôndel, ainda nô crêl ondêl ondêl»?] Para que cada ser humano – “fidje d´parida” – tenha a sua dignidade! Que não haja compra de consciências! Que não haja injustiças!

«Montsu já sai na lórge, Montsú já escuá d’casóc

Xlim pa mim, Xlim pa bô, um codjer de papa p’cada um

Nô bem pô lume n’ess papa, sab na mim sab na bo»

O compositor coloca o olhar no grupo – um grande zoom – “Montsú” – que sai(rá) no largo da Morada [ou pelas diversas ruas e ruelas da cidade do Mindelo] de casaco [de gala – num traje pomposo – não em tom irónico mas sim triunfal – a repartir [«Xlim pa mim, Xlim pa bô»] com uma grande “colher” de folia, mensagem panfletária / revolucionária / de política ativa [pô lume n’ess papa]… onde cada um se diverte… mas lembrando que “tudo não acaba na quarta-feira” (de cinzas). A nossa luta é diária – “para que cada cabo-verdiano coloque a panela ao lume” (frase sobejamente usada por António Monteiro, ex-líder da UCID!)

E, em pleno 20 de janeiro, relembrar que cada um de nós pode ser um novo CABRAL! E indagar: “AMADEU lutou/luta em vão?…

Thanks, Constantino Cardoso!

Mostrar mais

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo