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Inconformado com tratamento dispensado aos professores em SV, Sindep pensa agendar manifestação ou greve

O sindicato Sindep está desgastado com o tratamento dispensado aos professores em S. Vicente pela Delegação Escolar e responsáveis de algumas escolas e não descarta a possibilidade de agendar uma manifestação ou uma greve. Segundo Jorge Cardoso, a classe docente anda a sofrer perseguição, ameaças e processos disciplinares descabidos, além de ser obrigada a lecionar com carga horária excessiva e turmas superlotadas, contrariando a própria indicação do Ministério da Educação. Cardoso confirma que houve instrução superior para se promover a passagem de ano dos alunos – como forma de aumentar a taxa de aprovação -, uma prática que, diz, coloca em causa a qualidade do ensino e incentiva os estudantes a se relaxarem, cientes de que irão passar de ano sem nenhum esforço. Este sindicalista adianta que tem recebido queixas variadas de docentes de S. Vicente, Sal, Paul e RIbeira Grande, pelo que defende a substituição dos delegados nesses concelhos.

Mindel Insite – Quais os assuntos em relação aos professores em S. Vicente que neste momento preocupam o sindicato Sindep?

Jorge Cardoso – A começar pela gestão incorrecta dos recursos humanos por parte da Delegação de S. Vicente e dos responsáveis de algumas escolas secundárias. Os professores enfrentam problemas com a mobilidade, atribuição de horários excessivos, turmas superlotadas nas secundárias. Há turmas com um número de alunos, como na Escola Jorge Barbosa, que ultrapassa a própria orientação do Ministério da Educação e consideramos isso muito grave. Estamos a atravessar ainda a pandemia da Covid-19 e o nosso entendimento é que nunca poderíamos ter turmas com mais de 25 alunos.

Outra preocupação tem a ver com o relacionamento da delegada com os professores. Há docentes que trabalham numa escola, onde lecionam há mais de 20 anos, e são mudados de repente para outra escola. Além disso, a delegação atribui horários apertados e obriga os professores a lecionar disciplinas que não estão preparados para ensinar por falta de formação específica. Mais ainda, tem havido instauração de processos disciplinares por tudo e por nada. Há professores que solicitam licença sem vencimento, como manda a lei, e a delegada nega e tenta obstaculizar a vida aos professores. Vamos analisar tudo isso e vermos quais as formas de luta que vamos adoptar para a reposição da normalidade em S. Vicente

MI – Qual o sentimento dos professores no reinício das aulas em tempo integral e num cenário de pandemia?

JC – Os professores estão completamente desmotivados. O problema tem mais a ver com a intimidação a que estão sujeitos. Há um professor que, por ter conversado com a televisão, foi chamado a capítulo pela direção da escola para ser ameaçado. Além das turmas superlotadas, os professores são obrigados a avaliar cada aluno com base em seis itens. Ele tem de ter tempo para ministrar o conteúdo programático e ainda fazer avaliação, quando temos turmas com 40 alunos.

“Forçar” a taxa de aprovação

MI – Chegou ao conhecimento do nosso jornal que houve indicação do Ministério da Educação para os professores aprovarem alunos do quinto ao oitavo ano de escolaridade, com base numa fórmula que aumentou drasticamente a taxa de aprovação. Confirma esta informação?

JC – O Sindep tem conhecimento desse caso e temos até um abaixo-assinado de professores de um liceu de S. Vicente e vamos analisar esta situação. Sabemos que os professores foram obrigados a usar notas do quinto ano, para os alunos do segundo ciclo – que vai do quinto ao oitavo ano -, quando as disciplinas são ministradas por ano ou bianual. No processo de avaliação, o professor teve de procurar notas anteriores que nada têm a ver com uma determinada disciplina para poder aprovar o aluno. Esta prática foi adoptada pela anterior ministra da Educação e seguida pelo actual ministro. Na verdade, o que estamos a ter é uma deterioração do nível do ensino, porque os alunos estão a passar de ciclo de qualquer forma. Estamos a boicotar o futuro da juventude cabo-verdiana e do país. Quando a preparação não for da melhor forma, todos vamos sofrer amanhã com péssimos profissionais.

MI – Considera, então, que os alunos estarão mal preparados para acompanharem o ciclo seguinte?

JC – É evidente, não podem estar preparados. Os professores vão ministrar aulas 2 vezes semana em cada disciplina. Podemos citar o exemplo de Físico-Química, uma disciplina que tem as suas dificuldades, e não vimos nenhuma alteração no programa. O docente tem de fazer a avaliação de vários alunos em seis aspectos e é praticamente obrigado a promover a passagem de ano do aluno. Aquilo que o ME quer mostrar é que há uma baixa taxa de reprovação e de abandono escolar, sem se preocupar com a qualidade. O mais grave é que obriga o professor a fazer uma avaliação fraudulenta, uma falsificação para constar das estatísticas.

MI – Que tipo de mensagem que esse procedimento transmite ao aluno?

JC – Está claramente a dizer ao aluno que não precisa estudar porque vai passar de classe de qualquer jeito. E todos sabemos que o aluno tem a tendência a desleixar-se e aproveitar o seu tempo com outras ocupações. Há sempre excepções, mas a maioria dos estudantes quer passar com o menor esforço. E os pais e encarregados de educação ficam também satisfeitos, pensando que o seu educando está indo bem na escola. Só que, quando o aluno avança para outros níveis, começa a enfrentar problemas graves.

MI – O Sindep não acredita, então, nos dados estatísticos do ME sobre a taxa de aprovação referente ao ano passado?

JC – De jeito algum. No ano passado enfrentamos a pandemia, que teve um forte impacto nas aulas. Houve alunos que tiveram aulas 3 vezes por semana e com carga horária de 25 minutos. Será que todo o conteúdo programático foi ministrado e que houve de facto um aproveitamento dos alunos para passarem de classe? Não acredito.

Delegados que devem ser substituídos

MI – Programou algum encontro com a Delegada da Educação em S. Vicente nesta sua viagem à cidade do Mindelo?

JC – Não fizemos isso porque tenho a agenda ocupada. Vou reunir-me com o secretariado porque temos muitas queixas para serem analisadas. Agora, quero aproveitar para adiantar que já comunicamos ao ministro da Educação o comportamento de certos delegados. Há 4 delegações que andam a criar-nos mais problemas, embora existam em todos os concelhos. Falo de S. Vicente, Sal, Paul e Ribeira Grande de Santo Antão. Nesta região Norte está a haver um levantar de processos disciplinares de forma incompreensível. Consideramos que os delegados aqui referenciados já não reúnem condições para estarem a ocupar esses cargos. Estão lá desde 2016 e já estão cansados. Recorrem ao abuso do poder e à intimidação e isso cria muitos obstáculos. Os professores estão a pedir a nossa intervenção sistemática. O ministro tem de ter coragem para rever a sua equipa.

MI – Acha que há alguma motivação política por trás dessa alegada prática?

JC – Evidentemente, basta termos atenção às transferências no início deste ano lectivo. Temos um professor de S. Vicente que está no Sal há 17 anos e que quer voltar a reunir-se com a família. Pediu transferência, mas a delegada do Sal cria-lhe obstáculos, não dá parecer ao pedido. Há outro professor no Tarrafal de S. Nicolau com 8 anos de serviço, pediu transferência para Porto Novo e é ultrapassado por uma professora com menos tempo. Isto tem cunho político evidente, esses professores gozam da cobertura do poder. A persistir essas práticas vamos para outras formas de luta.

MI – Pode ser mais específico?

JC – Estamos aqui para reunirmo-nos com os dirigentes locais e depois desta reunião vamos estabelecer outras ações, que podem passar por manifestação e greve para a reposição do respeito devido aos docentes. Iniciei o meu mandato este ano e não vou tolerar certas atitudes porque somos uma classe profissional das mais importantes na sociedade.

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