Adolfo Lopes
Introdução Editorial:
Há territórios que vivem voltados para a terra. Cabo Verde nasceu voltado para o mar. Entre as águas do Atlântico, as ilhas de São Vicente e Maio conheceram cedo a passagem dos ventos, dos navios e das ideias. A presença inglesa deixou mais do que rotas comerciais, deixando o eco de um arquipélago que descobriu, na sua posição geográfica, uma vocação para ligar mundos. Do carvão às correntes, dos portos às oportunidades, Cabo Verde aprendeu que o mar nunca foi fronteira, foi e sempre será horizonte.
Hoje, quando se pensa na Commonwealth, talvez a questão não seja para onde queremos ir, mas reconhecer que, desde sempre, o Atlântico nos ensinou a partir sem deixar de ser quem somos, ideia expressa na cabo-verdianidade da música “biografia d’un kriol.”
Maré Baixa – O tempo da observação e da construção silenciosa
Toda maré baixa revela aquilo que o mar escondia. Ao pensarmos na eventual adesão de Cabo Verde à Commonwealth, surgem reservas de diferentes latitudes. Alguns receiam impactos sobre a influência histórica de Portugal e da língua portuguesa; outros questionam se novos espaços de cooperação poderão trazer novas dependências, na opinião de que poderemos ser um polo satélite do Reino Unido, tal como Malta ou Chipre.
Talvez a questão não seja escolher entre Portugal e o Reino Unido, entre a herança lusófona e as novas plataformas de cooperação. A verdadeira questão é saber se Cabo Verde consegue continuar a fazer aquilo que sempre fez melhor: abrir-se ao mundo sem deixar de pertencer a si próprio e aproveitar novas oportunidades de cooperação.
Maré Enchente – O tempo da afirmação estratégica
Tal como a maré que sobe sem alterar a natureza da ilha, a Commonwealth cresceu para além da sua origem histórica e transformou-se numa comunidade de 56 Estados soberanos, dos quais um é Moçambique, unidos não pela dependência, mas pela cooperação. Sem impor fronteiras comuns, moeda única ou estruturas supranacionais, este espaço funciona através do diálogo, da confiança e da criação de oportunidades partilhadas em áreas como comércio, educação e desenvolvimento humano, alguns dados ajudam a entender melhor a importância de considerarmos esta possibilidade.
Estudos da Commonwealth identificam aquilo que ficou conhecido como “Commonwealth Advantage”: em média, os custos de transação comercial entre países membros podem ser cerca de 21% inferiores, resultado de afinidades institucionais, jurídicas, linguísticas e administrativas que tornam o comércio mais simples e previsível.[1]
Essa proximidade ajudou a elevar o comércio intra-Commonwealth para cerca de 854 mil milhões USD em 2022, com indicadores que apontam para valores superiores a 1 bilião USD até 2026, as projeções futuras apontam para 2 biliões USD até 2030.[2]
Preia-mar (Maré Alta) – O momento de máxima projeção e decisão
A projeção internacional de Cabo Verde vai além da economia e passa pelo fortalecimento da ligação à diáspora. Curiosamente, a nossa maior comunidade cabo verdiana fora do país encontra-se nos Estados Unidos, onde exemplos recentes na área da saúde demonstram o valor inestimável do capital humano e do papel preponderante que a nossa diáspora poderá ter no desenvolvimento de Cabo Verde. Para uma abertura efetiva e plena ao mundo, o país precisa repensar sua política linguística. O exemplo das Seychelles mostra que é possível preservar a língua materna e formar jovens com competências em línguas globais, como o inglês e o francês. Neste contexto, Cabo Verde deve refletir sobre novas abordagens no ensino do inglês. Embora o crioulo cabo-verdiano tenha origem lexical maioritariamente portuguesa, muitos aspetos da sua estrutura gramatical e verbal apresentam um funcionamento mais analítico, aproximando-se claramente mais do inglês do que do português.[3]
Maré Vazante – Não como recuo, mas sim como renovação estratégica
Na celebração do quinquagésimo primeiro aniversário da nossa independência, talvez seja tempo de seguir a filosofia da maré vazante, não como retirada, mas como o movimento sereno do mar que prepara os alicerces do Cabo Verde do futuro que todos ambicionamos.
Com uma eventual adesão à Commonwealth, poderemos aproximar-nos de países que serão referências nas próximas décadas, seja ao nível tecnológico, económico ou geopolítico. Temos exemplos como os da Índia, Nova Zelândia, Austrália, Nigéria e Malásia, nações que se afirmam cada vez mais como centros de inovação, crescimento e relevância internacional. Somos pequenos em território, mas imensos, na resiliência e na capacidade de transformar em conquistas os desafios impostos à nossa condição arquipelágica.
[1] Larch, M., & Wanner, J. (2014). Carbon tariffs: An analysis of the trade, welfare and emission effects (CESifo Working Paper No. 4598). CESifo. Recuperado de https://www.ifo.de/DocDL/cesifo1_wp4598.pdf (consultado em 07/06/2026).
[2] COMMONWEALTH SECRETARIAT. (2024). Commonwealth Trade Review 2024: Strengthening Food Security in the Commonwealth – Trade, Investment and Resilient Supply Chains [PDF]. Commonwealth Secretariat.:https://comsec-web-static.s3.eu-west-1.amazonaws.com/s3fs-public/2024-10/2024_ctr_updf.pdf (consultado em 09/06/2026).
[3]MCWHORTER, J. H. (2005). Defining Creole. Oxford: Oxford University Press. https://doi.org/10.1093/oso/9780195166699.001.0001 (consultado em 15/06/2026).







