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VBG: A polícia veio, foi-se embora e ela continuou presa no quarto com o agressor

De repente gritos se apoderam da rua. “Ela está na casa do namorado, onde apanha, de novo!”. Saímos para ter a certeza do que todos já imaginavam ser e vemos a moça, em pânico, a apontar na janela com o rosto cheio de nódoas negras. Será que irá tentar pular do primeiro andar, como fez da outra vez, em que bateu nela com a porta trancada? Nada disso – voltou  a desaparecer por entre o breu da casa.

Da rua vê-se mais movimentos dentro do local. A mãe do agressor anda de um lado para o outro.

De repente a polícia aparece. Alguém finalmente decidiu chamar as autoridades e pôr fim ao martírio da moça À porta da casa, a mãe do suposto agressor recebe os agentes e permite que entrem na sua residência. Outro policial fica dentro do carro. Mais pessoas saem à rua para assistirem aquele que pode ser o término desta fase conturbada para a jovem. Da casa, nem um único movimento, nem um único barulho, pois os gritos já haviam cessados.

No seio da plateia ansiosa muitos comentam a situação, que, pelos vistos todos, sabiam que se tratava de uma relação abusiva. Uma senhora comenta que a moça “gosta de levar ou de apanhar, já que sempre volta para o namorado”. Mas, como convencer as pessoas que a vítima não pode ser culpabilizada nunca, porque há diversos fatores que fazem com que permaneça na relação, que muitas acreditam ser de amor?!

Minutos depois a porta da casa se abre e saem os três policiais e a mãe do dito agressor. A vítima continuou presa dentro do quarto com aquele que parece ser seu carrasco. Para o espanto geral, os policiais entram na viatura e vão-se embora. Afinal onde ficou a responsabilidade do Estado em proteger, assistir as vítimas de VBG e responsabilizar os autores?!

Indignada, uma jovem liga para um jurista que a informa que a polícia deveria fazer seu papel de autoridade e, já no interior da residência, por consentimento da proprietária, poderia entrar no quarto, se fosse necessário. Dito isto é de se perguntar se estará a polícia preparada para dar assistência a esse tipo de crime, ou o sistema continua bonito só no discurso e no papel?

Remover a memória

O caso da moça não é único, como é natural. Mas remete-nos para uma cena que ficou-nos gravada na memória: uma moça, queimada pelo marido, na frente dos quatro filhos, a correr desesperada pela rua até ser amparada por agentes da polícia. Para trás deixou os filhos, porque a dor e a adrenalina não a permitiam pensar em mais nada.

Às tantas da noite regressou sozinha da esquadra e foi pedir ajuda aos familiares que a acompanharam à sua casa, porque queria apanhar seus filhos. Porém, o agressor não abriu a porta. A polícia foi mais vez chamada, mas disse que não poderia fazer nada porque se tratava do pai dos meninos. E de nada valeu à mulher revelar que ela e os filhos foram ameaçados de morte por esse pai por diversas vezes. Entretanto, os policiais prometeram que no dia seguinte outro grupo de piquete acompanharia a mãe à casa para apanhar seus pertences e os filhos. Por aquilo que saibamos, o agressor nunca foi punido pela justiça.

Ao que tudo indica, a dificuldade em comprovar a violência faz com que o número de agressores punidos seja muito inferiores ao das denúncias de VBG. Parece-nos que, enquanto não houver uma capacitação correta dos profissionais ligadas à problemática da VBG e as vítimas e a sociedade se calarem, as mulheres (na maior parte dos casos) continuarão a ser meros números estatísticos da violência e de feminicídio. Uma lei bonita apenas no papel de nada vale.

Sidneia Newton

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