Limpesa-hospitalar

Valorização da profissão: Mulheres que limpam lares e hospitais convivem com medo da morte

As mulheres estão sempre na linha de frente das batalhas e são as que mais sofrem nas crises como esta provocada pela pandemia da Covid-19. Algumas enfrentam mesmo o “espetro da morte”, como é o caso daquelas que trabalham na limpeza das morgues hospitais, caso da cabo-verdiana Isabel Gomes, bem como as outras que fazem a higienização dos lares de idosos, escritórios e serviços. Levantam-se, por isso, muito cedo para deixar tudo operacional antes da chegada dos profissionais de saúde ao trabalho.

     – Por João A. do Rosário –

As mulheres da comunidade cabo-verdiana em Portugal são conhecidas pela sua versatilidade e estão em todas as batalhas pelo que não podiam ficar atrás nesta pandemia da Covid-19. Em alguns casos, aparecem como dos elementos preponderantes na resposta a esta crise pandémica, nomeadamente na ajuda e preparação das medidas de proteção, mitigação e minimização dos riscos de contaminação com o novo Coronavírus. 

É o caso especifico das que labutam nas limpezas dos hospitais, centros de saúde, lares de idosos e escritórios e outros serviços que, nesta altura, não pararam estando mesmo na vanguarda desta luta de todos e de cada um. Levantam-se cedo para fazer o seu trabalho para que os médicos, os enfermeiros, auxiliares e os próprios doentes possam estar em segurança.   

A reportagem do Mindelinsite falou com três mulheres cabo-verdianas que, à semelhança de várias outras, continuam na linha da frente, sem virar as costas ao perigo. Ao contrário, arregaçam as mangas para darem combate desta vez na prevenção contra o Covid-19. Sem direito ao confinamento e ao isolamento social domiciliário foram, algumas delas, as poucas que tiveram de se levantar muito cedo para irem aos hospitais ou aos lares de idosos e escritórios trabalhar nas limpezas, mesmo sabendo dos perigos de infecção pelo novo coronavírus, não só nos locais de trabalho, mas também nos vários meios de transportes que utilizam para se deslocar.

Fátima Semedo, 45 anos, Maximiliana Teixeira, 63, Isabel Gomes, 64, trabalham no lar de idosos da Santa Casa da Misericórdia e num hospital da área metropolitana de Lisboa. Hoje estas três mulheres clamam por maior respeito e reconhecimento do seu trabalho. No caso de Maximiliana Teixeira, neste contexto de pandemia, centraliza ainda os cuidados, seja nas redes de saúde, em casa com os doentes que não estão hospitalizados e também no cuidado com os idosos e crianças, ainda que não doentes.

Situação complicada 

Esta cabo-verdiana que trabalha no Lar de Idosos da Costa de Cão em Almada (Margem Sul do Tejo) disse entender que a situação é deveras “complicada” visto que o receio de contaminação é real desde o início e por causa do desconhecimento desta doença. “Apesar de estarmos sempre bem equipadas, com luvas, máscaras e roupas apropriadas deparamos com casos de colegas com casos positivos”, enfatizou, referindo que três dos colegas contaminados são de nacionalidade portuguesa e uma angolana.

Regozijou-se, por isso, com o facto de, no lar onde trabalha, não se ter registado nenhum idoso contaminado. Mesmo assim contou que há cerca de um mês teve de solicitar baixa médica porque o marido é do grupo de risco. Sofre de insuficiência renal crónica e está em tratamento de hemodiálise.

Já Fátima Semedo está na linha de frente dos cuidados aos infectados, tanto no quadro dos profissionais de saúde quando no cuidado em casa, com a família. Trabalha num centro de dia da Santa Casa da Misericórdia em Almada, que entretanto teve de ser encerrado. Mas ela não parou de trabalhar. Segundo disse, foi convocada para a linha da frente ao ser chamada para prestar serviço no Lar da Granja, pertencente à mesma instituição

“Estamos bem protegidas, não obstante o receio e mesmo o drama de poder trazer o coronavírus para casa e contaminar os nossos idosos, a nossa família”, fez saber Fátima Semedo, revelando que nasceu em Portugal, filha de pais cabo-verdianos. Por isso, diz sentir o sangue e a força do crioulo nas veias, que nunca a deixa virar as costas ao “inimigo”.

Com uma jovialidade que faz inveja a muitas mulheres, Isabel Gomes tem 64 anos, mas a agilidade com que ainda faz as sua tarefas impressiona, apesar de trabalhar e conviver diariamente com a morte. “Trabalho nas limpezas da morgue de um hospital na Área Metropolitana de Lisboa. É claro que tive muito medo de me contaminar, sobretudo quando chegavam os corpos das pessoas que faleceram com o Covid-19” realçou Isabel Gomes. Esta garante, no entanto, que a empresa onde presta serviço lhe forneceu condições de laborar com a máxima proteção e segurança. 

Empregadas de limpeza imprescindíveis 

Isabel frisou ainda que, quando sai do hospital, toma todas as precauções de desinfeção. Chegando em casa, repete todos os procedimentos e, quando entra nos seus aposentes, deixa sempre os sapatos fora e vai colocar as roupas na máquina para serem imediatamente lavadas. Lamenta, entretanto que, neste contexto sanitário complexo, as empregadas de limpeza de instituições como lares, hospitais, escritórios e outros serviços serem as únicas a ter que se levantar e ir para a labuta todos os dias sem alternância, segundo ela, como acontece com algumas profissões e setores.

“O papel de todos são lembrados e, merecidamente, são falados e comentados, enquanto o nosso trabalho sequer um louvor de reconhecimento. Nós é que somos as verdadeiros ‘linha da frente’, as pontas de lança”, sublinhou Isabel, usando a linguagem futebolística e esboçando um sorriso que deixa patente a sua paixão pelo desporto.

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