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Moradores do largo “Corte em queda” revoltados com construção de um edifício comercial defronte das suas residências: “Vamos ficar encurralados.”

Os moradores do largo “Corte em queda” na Ribeira Bote, ao lado do Jardim Mundo Infantil, estão revoltados com o início da construção de um edifício de três pisos defronte as suas residências. Para além de perderem a vista, queixam-se da insegurança que o prédio vai trazer por causa dos “canais” de acesso as casas e realçam que o terreno sempre foi destinado para uma praça ou um espaço verde. Por causa disso, desde que surgiram os rumores de que o terreno tinha sido vendido, em 2020, fizeram um abaixo-assinado que foi entregue em fevereiro do mesmo ano na CMSV, mas nunca tiveram uma resposta. Hoje, não foi possível ouvir a CMSV, mas o empresário dono da obra, Adriano Delgado, garante que o projecto vai valorizar e trazer mais segurança para a área.

Foi com desanimo, mas também com “muita vontade de continuar a lutar” que os moradores da rua por detrás da “Invicta do Porto” assistiram esta segunda-feira o arranque das obras. Aliás, após uma denuncia pública feita através dos Sokols e de uma entrevista ao Mindelinsite, foram de imediato marcar um encontro com a presidente da Assembleia Municipal e procurar um advogado. Maria Júlia Neves, filha da primeira moradora do largo, Bia de Páscoa, confessou à este diário que foi com muita tristeza que viu o construtor a marcar o terreno para iniciar as escavações. “Tenho 50 anos e nasci nesta casa. Sempre tivemos vista para estrada. Por isso estou triste por ver que o presidente Augusto Neves vendeu este terreno, que se destinava a construção de uma praça ou de um espaço verde”, desabafou.

Segundo Duntcha, como é conhecida, neste largo moram pessoas com mais de 90 anos, algumas acamadas, que vão ficar encurraladas. “Pelas delimitações feitas, percebemos que esta construção vai ocupar todo este largo, porque vai desde o jardim até a casa da minha mãe. São cinco casas que vão ficar completamente tapadas e, pelo menos três delas, têm garagem. Vão deixar uma pequena via de acesso, que será um “canal de fogá macoc ou então um matadouro” porque estamos na divisa entre Ilha de Madeira e Ribeira Bote e todas as pessoas sabem o perigo que isso representa. Esta construção está a consumir os moradores. Estamos afrontados”, declara.

Foi por isso que quando ouviram os primeiros rumores, em 2020, os moradores prepararam rapidamente um abaixo-assinado com 200 assinaturas e foram entregar na CMSV, na expectativa de travar o processo. Infelizmente, dizem, até hoje nunca tiveram nenhuma resposta, apesar da sua insistência. E o seu pior pesadelo começou hoje com o início das obras, que deixou Álvaro Faustino da Rosa, 91 anos, muito chateado. Para este idoso, militante da UCID, esta construção é uma provocação. “Fui emigrantes durante muitos anos e, quando decidi fixar residência em São Vicente, construi a minha casa aqui. Foi há 16 anos. Sinto que estamos a ser provocados pelo presidente. Ele é um incendiário, mas quero alertá-lo que nem todos aqui são coitadinhos. Se ele sabe falar, nós também. Então, ele que não nos provoque. Que tenha muito cuidado. Não estou a fazer uma ameaça, mas sim uma advertência. O povo é quem mais ordena”, diz este morador, que garante que a obra só vai avançar por cima do seu cadáver.

Largo Corte em Queda

Na mesma linha segue a moradora Margarida Chantre, que reside no largo há mais de 40 anos e diz não estar a sentir “nada bem” com esta construção. “Vão nos colocar em um chiqueiro. Tenho receio que, com esta obra, aumenta a nossa insegurança porque vão construir um canal entre as casas. Vão colocar “terroristas” aqui. Estamos com medo e não vamos aceitar esta obra nunca. É demais. Iremos tudo fazer para travar a construção.” Esta afirmação de D. Guida, contou com total apoio do vizinho Carlos Pires, que lamenta que há mais de um ano estejam a insistir junto da CMSV sem sucesso. “Nunca tivemos uma resposta. Infelizmente, agora vieram iniciar as obras. Mas não vamos calar, já denunciamos este despautério através dos Sokols e agora na imprensa. É uma aberração construir um prédio em frente de casas que estão aqui há mais de meio século”, lamenta.  

O morador João Andrade lamenta que o presidente da CMSV tenha duas palavras. Lembra que, em agosto de 2020, por ocasião da reinauguração do Jardim Mundo Infantil, o edil Augusto Neves tranquilizou os moradores dizendo que não seria feita nenhuma obra no largo, mas sim uma praça. “Como é que agora vemos aqui o início da construção de um prédio? I presidente faltou a verdade para connosco”, afirma. Já para Carlos Pires, o edil mindelense fez esta declaração porque estávamos nas vésperas das eleições autárquicas e precisava dos votos dos moradores. “A campanha já passou e Augusto Neves foi eleito. Ele já não precisa de nós. Por isso, autorizou a construção do prédio. Houve moradores daqui que pediram este terreno e foi-lhes negado, com a desculpa de que aqui seria um espaço verde. Bastou aparecer mais dinheiro para autorizarem esta construção”.

 O mais caricato, diz Pires, é que para ganhar terreno, estão a puxar a construção para a estrada, completamente desalinhado com o jardim. “Ou seja, para além de uma construção monstruosa, vai ficar uma rua desalinhada e desorganizada. É inaceitável”, assevera este funcionário da CV Telecom. Já a filha de uma mulher de 91 anos, acamada, teme que em caso de emergência seja impossível aos bombeiros prestar socorro a mãe.

Valorização e mais segurança

O empresário Adriano “Yanka” Delgado mostra-se tranquilo, mas lamenta que os moradores não o tenham procurado para conhecer o projecto, antes de revoltarem, nega também estar a prejudicar os idosos, até porque o seu pai tem 91 anos. “Não vão ficar de forma nenhuma encurralados porque iremos construir uma estrada de acesso às residências com as dimensões normais. Respeito as pessoas de idade porque tenho o meu paí. É certo que as casas vão perder a vista, mas isto é algo que têm de discutir com a CMSV porque comprei o terreno e já investi cerca de 3 mil contos aqui”, afirma.

Explica que vai construir um edifício comercial, com uma cave e três pisos, que vai funcionar como uma drogaria, um rent-a-car e moradias, com pouco mais de 200 metros quadrados. “Não vou construir uma discoteca. Depois das 18h30 não haverá mais actividades no prédio por isso não iremos incomodar as pessoas”, informa Yanka, que se mostra também agastado com este processo que, afirma, está a causar-lhe constrangimentos são pessoas conhecidas. “Também sou de Ribeira Bote. Os moradores já retiraram as estacas por diversas vezes e nunca disse nada. Entendo que têm problemas com a camara e devem tentar resolvê-los, não comigo. Comprei o terreno e, de minha livre vontade, fiz doações. Já gastei mais de três mil contos e vou investir mais de 40 mil contos. Acredito que o meu projecto vai valorizar esta área porque vou construir estradas de acesso às casas.”

Relativamente ao medo de casubody, Yanka diz acreditar que o edificil vai trazer mais segurança porque haverá câmaras de vigilância, seguranças e iluminação. “Vai ficar melhor. Fiz uma exposição à CMSV sobre o meu projecto, que vai criar entre 15 a 25 postos de trabalho e foi aceite. No meu actual espaço comercial, que é pequeno, dou emprego para seis pessoas. Com certeza que aqui terei muitos mais na rent-a-car e na drogaria. Penso que se tivessem falado comigo, teriam uma outra visão do meu projecto.”

Apesar de acreditar neste seu investimento, Yanka admite mudar, desde que a CMSV lhe cede outro terreno. “Sei que as casas vão perder as vistas. Compreendo o problema destes moradores, mas devem discutir com a Camara. Se esta colocar algum problema, independentemente do valor já investido, estou disposto a deslocar o meu projecto, desde que me concedam outro terreno, com as dimensões necessárias e uma boa localização.”

Confrontado com o facto de o terreno ter sido anteriormente recusado com o argumento de que este seria para construir uma praça ou zona verde, este empresário diz ter dúvidas de que seria viável. Admite, por outro lado, que a Camara Municipal de São Vicente ter mudado de ideia e decidido por uma construção comercial, ao invés de apenas um espaço de lazer. “Fiz uma exposição e aceitaram me vender o terreno. É tudo legal. Acredito que vou valorizar esta zona e, de quebra, criar alguns postos de trabalho. Muita gente vai ganhar, inclusive falei com alguns moradores que não se importam porque acreditam que o meu projecto vai ser importante para esta área.”

Tentamos ouvir o presidente da CMSV, mas foi-nos informado que hoje é dia de audiência pelo que dificilmente seria possível falar com Mindelinsite, pelo que prometemos trazer posteriormente uma reacção do edil Augusto Neves.

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