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Praça Amílcar Cabral/Praça Nova e o seu valor histórico e patrimonial 

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– Carlos Santos –

De repente, os mindelenses viram o seu espaço de lazer, de convívio e de música ameaçado. Um pequeno grupo, mas detentor de capital financeiro e político e movido pelos seus interesses económicos e empresariais, pretendeu demolir a Praça D. Luís. A ambição dos empresários concretizou-se. Estávamos em 1891. 

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Perante a insatisfação da população, surgiu, de imediato, a necessidade de construir uma nova praça, cuja edificação foi concluída em 1895, dando origem ao nome popular de Praça Nova. O espaço teve, contudo, outras designações: o nome oficial era Praça Serpa Pinto, em homenagem ao governador da colónia de Cabo Verde entre 1894 e 1898, e também ficou conhecida popularmente como Praça Glasgow. A razão desta última designação é simples: os materiais utilizados na construção e ornamentação da praça — nomeadamente bancos, candelabros, uma fonte com repuxo e o coreto — foram fornecidos pela empresa McFarlane, sediada em Glasgow. Esta ligação encontra-se felizmente ainda testemunhada nas colunas que sustentam o coreto. 

No final da década de 1920, a praça foi objeto de obras de remodelação, tendo o coreto sido reconstruído no lado norte. Para esse efeito, foram reutilizadas estruturas de ferro fundido do antigo coreto, designadamente o guarda-corpo, as colunas, as mísulas, a cúpula e o pináculo. Em 1931, iniciou-se a construção do quiosque, concluída em 1932, no antigo local do coreto. 

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O coreto e o quiosque da Praça Nova apresentam um elevado valor arquitetónico, artístico, cultural e social. O coreto é uma obra de planta octogonal regular, assente sobre um pedestal de betão, moldurado por soco na base e friso no coroamento. A cúpula troncocónica é rematada por um pináculo e sustentada por oito colunas, dotadas de capitéis e mísulas de gosto clássico. O quiosque, esteticamente enquadrado no estilo Art Nouveau (Arte Nova), apresenta uma planta quadrangular com cantos chanfrados e uma ornamentação rica e cuidada. Destaca-se pela rigorosa simetria, pelas portas almofadadas em asa de cesto e pelos três magníficos alpendres em ferro forjado e vidro policromado, elementos de grande valor artístico e muito apreciados pelos visitantes. 

Estes elementos, aos quais se acrescenta a fonte, constituem alguns dos principais cartões de visita de quem frequenta a praça. Inserida na cidade do Mindelo, classificada como património nacional desde 2012, através da Resolução n.º 6/2012, de 31 de janeiro, a Praça Nova encerra significados e valores de memória, históricos, urbanos, patrimoniais e sociais muito fortes, tanto para as comunidades locais como para quem visita a cidade. 

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Os valores e significados associados a esta praça histórica impõem, de forma constante, e tendo em consideração os desafios da contemporaneidade e da vida coletiva, a necessidade de as autoridades adotarem políticas que assegurem a sua preservação, valorização e transmissão às gerações futuras. Daí a pertinência de realizar diagnósticos sociais, culturais e patrimoniais exaustivos, fundamentados nas ciências do património cultural, antes de qualquer intervenção física no espaço. 

A cultura de observação e valorização do espaço humanizado e natural envolvente em Cabo Verde, tanto no meio rural como no urbano, revela-se manifestamente reduzida. Neste contexto, a construção de novos volumes na Praça Nova não tem contribuído para minimizar ou melhorar esta realidade. Refiro-me, em particular, à edificação de um “piquenique” e à construção de uma instalação sanitária. 

A primeira destas intervenções, de caráter acrítico — isto é, concebida sem estudos prévios adequados e sem um diálogo efetivo com o património histórico, arquitetónico e artístico existente — surgiu em 2021, numa atitude de cariz saudosista, com o propósito de “recriar” o antigo piquenique, demolido durante o período do governo local de Onésimo Silveira, na década de 1990. 

A mais recente empreitada, destinada à construção de uma instalação sanitária, encontra-se implantada nas proximidades do quiosque, situação que não parece respeitar devidamente os valores de antiguidade, autenticidade e interesse patrimonial associados ao conjunto histórico da Praça Nova. A nova estrutura ocupa uma área do espaço público, condicionando a circulação — sobretudo a das crianças — e constituindo, simultaneamente, uma barreira arquitetónica e visual. 

Face ao exposto, e tendo em consideração os princípios e as normas nacionais e internacionais relativos à conservação, salvaguarda, valorização, divulgação e fruição do património cultural, recomenda-se à entidade local, enquanto guardiã e parceira das instituições responsáveis pela preservação do património nacional, nomeadamente o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, o Instituto do Património Cultural (IPC), as universidades, a sociedade civil organizada e os moradores da área envolvente, a reavaliação da solução adotada. Essa reavaliação deverá considerar, caso tal se revele técnica e patrimonialmente justificado, a possibilidade de remoção da estrutura. Afinal, a herança patrimonial pertence à população, que é a verdadeira recetora dos sítios e monumentos históricos. 

Considera-se, contudo, que a solução não deverá passar simplesmente pela eliminação da infraestrutura. É fundamental promover um diálogo permanente entre os poderes central e local e os cabo-verdianos, de modo a encontrar uma alternativa que responda à legítima necessidade de disponibilizar uma instalação sanitária pública no centro histórico da cidade, sem comprometer os valores de memória coletiva, integridade, história e património que conferem à Praça Nova a sua singularidade. Deste modo, qualquer intervenção futura deverá ser precedida de estudos adequados e enquadrada numa visão integrada do espaço, garantindo que as carências contemporâneas sejam compatibilizadas com a salvaguarda do património histórico e cultural. Importa, igualmente, que os valores patrimoniais da praça sejam devidamente divulgados e apropriados pela comunidade. 

A divulgação e fruição da Praça Nova deverão assentar numa estratégia integrada de valorização patrimonial, privilegiando as seguintes ações: 

  1. Sinalização e interpretação patrimonial da história da praça e dos bens artísticos e arquitetónicos nela existentes, nomeadamente o coreto, a fonte, o quiosque e os bustos de Luís Vaz de Camões e Sá da Bandeira, através da instalação de painéis interpretativos e da utilização de códigos QR. Deverá igualmente ser reforçada a toponímia da praça através de sinalética turística, como forma de preservar e divulgar as suas várias designações históricas, com particular destaque para a designação Praça Amílcar Cabral. 
  2. Valorização da memória oral, através da recolha, registo e preservação de testemunhos de antigos frequentadores, moradores e outras pessoas que tenham mantido uma relação significativa com a praça. 
  3. Programação cultural regular, exposições itinerantes e roteiros culturais e turísticos e outras iniciativas que reforcem a praça enquanto espaço de sociabilidade. 
  4. Desenvolvimento de atividades educativas para escolas com visitas guiadas centradas na história local, na arquitetura, na resistência colonial (praça no período colonial com espaço de segregação social), na cidadania patrimonial e nos processos de ocupação, transformação e expansão da cidade. 
  5. Divulgação digital a partir de conteúdos específicos para plataformas digitais e redes sociais de modo a compreender a praça enquanto lugar de memória coletiva e de identidade cultural. 
  6. Reabilitação e valorização dos elementos culturais existentes.

Desta maneira, será possível reforçar a utilização contemporânea da praça sem comprometer a sua leitura histórica, garantindo a transmissão dos seus valores e significados patrimoniais às gerações atuais e futuras.

 

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Constanca Pina

Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ). Trabalhou como jornalista no semanário A Semana de 1997 a 2016. Sócia-fundadora do Mindel Insite, desempenha as funções de Chefe de Redação e jornalista/repórter. Paralelamente, leccionou na Universidade Lusófona de Cabo Verde de 2013 a 2020, disciplinas de Jornalismo Económico, Jornalismo Investigativo e Redação Jornalística. Atualmente lecciona a disciplina de Jornalismo Comparado na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

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