– Ameriko Costa –
No Arquivo Nacional da Torre do Tombo, entre maços de cartas régias do século XV e relatos de navegadores, uma folha solta, amarelada e parcialmente rasgada, escapou ao fogo dos séculos e à vontade deliberada de apagar. Foi encontrada em 1923, colada por descuido ao dorso de uma doação de 1462 referente às ilhas achadas por Diogo Afonso, escudeiro do Infante D. Fernando. O papel, de fibra grosseira, ainda guardava vestígios de tinta de noz de galha e odores de sal e fumo.
Atribuía-se a um homem de carne e osso: Pero Fernandes de Évora, escrivão e piloto-segundo da caravela Santa Clara, que acompanhou Diogo Afonso na viagem de finais de 1461 e princípios de 1462, quando foram avistadas as ilhas ocidentais do arquipélago, Brava, São Nicolau, Santa Luzia, Santo Antão, São Vicente e os ilhéus Branco e Raso.
Oficialmente, as ilhas estavam desertas. Não se encontrando nelas senão pombos e aves de estranhas sortes, e grande pescaria de peixe, escreveram os cronistas. A narrativa portuguesa precisava de terras virgens para justificar a posse, o povoamento e o silêncio sobre qualquer presença anterior. Mas a folha de Pero Fernandes conta outra história, e por isso foi rasgada, escondida e quase destruída.
A tribo que o mar não esqueceu
Antes da cruz e da caravela existia a Tribo das Verdiãs.
Não eram numerosas, talvez duzentas almas no auge, mas estavam profundamente enraizadas. Habitavam as duas ilhas que hoje chamamos São Vicente e Santo Antão, e a elas davam nomes antigos: Verdiá (a ilha dos olhos verdes) e Fontes Altas (a ilha das águas eternas). Dependiam uma da outra como a mão e o peito. Em Verdiá, mais árida e exposta aos ventos, pescavam nas enseadas profundas e criavam cabras em rebanhos semi-selvagens. Em Fontes Altas, nos vales sombrios e nas ribeiras perenes, especialmente naquela que os portugueses mais tarde chamariam Ribeira do Paúl, cultivavam inhames, milhos miúdos e plantas de folhas largas que guardavam a humidade. Sabiam navegar entre as duas ilhas em pirogas de madeira leve, guiadas pelas estrelas e pelas correntes que conheciam melhor que qualquer carta europeia.
Eram um povo de mulheres. Ou, mais exactamente, um povo onde as mulheres ocupavam o centro do poder e do sangue. Os homens pescavam, lutavam e construíam barcos; as mulheres governavam, curavam, liam os presságios nas vísceras dos peixes e escolhiam os companheiros. Tinham a pele de um bronze claro, como se o sol tivesse beijado a terra vermelha e o mar ao mesmo tempo, e os olhos, quase todos, de um verde intenso, cor de água profunda sob o sol da tarde. Esse verde era o seu selo. Contavam que, nos tempos primeiros, uma mulher saíra do fundo do oceano com esmeraldas nos olhos e ensinara o povo a viver entre duas terras sem se deixar afogar por nenhuma.
Eram guerreiros e pescadores. Usavam arcos de madeira negra, lanças com pontas de osso e pedra polida, e redes de fibra de plantas. Não tinham cidades de pedra; tinham aldeias de pedra seca e madeira, escondidas nos vales e nas faldas dos vulcões. Sabiam que a água era o único tesouro verdadeiro. Em Fontes Altas havia nascentes que nunca secavam; em Verdiá, cisternas escavadas na rocha e canais primitivos que traziam a água das chuvas raras. Quando os portugueses mais tarde afirmavam que aquelas ilhas eram impossíveis de habitar por falta de água, mentiam ou ignoravam deliberadamente o que os seus próprios olhos tinham visto: ribeiras perenes, vales verdes, peixes em abundância e gente que sabia viver ali há gerações.
O encontro
Foi num amanhecer de janeiro de 1462 que a caravela de Diogo Afonso, com António de Noli ainda próximo nas memórias das ilhas orientais, e a tripulação onde figuravam nomes como Gonçalo Ferreira, o piloto Rui Dias, o mestre de velas João Vaz e o escrivão Pero Fernandes de Évora, avistou as silhuetas de Santo Antão e São Vicente. O dia era de São Vicente, e assim baptizaram a ilha menor. Mas quando o pequeno batel se aproximou da costa de Verdiá, encontraram marcas na areia, fogueiras apagadas e, mais tarde, uma mulher.
Chamava-se Lira.
Tinha os olhos da cor do mar quando o sol se põe atrás das montanhas de Fontes Altas. A pele brilhava com óleo de peixe e cinzas de plantas. Não fugiu. Ficou de pé, com uma lança na mão e uma criança de olhos verdes agarrada à coxa. Os portugueses, armados e assustados, hesitaram.
Foi Pero Fernandes quem desceu primeiro, sem espada, apenas com a pena e o papel que sempre levava. Não falavam a mesma língua, mas os gestos são mais antigos que as palavras. Ela apontou para o norte, para Fontes Altas, e depois para o mar. Mostrou-lhes fontes, redes, campos escondidos nos vales. Mostrou-lhes que a ilha não estava deserta.
Durante três dias a tripulação permaneceu. Houve troca de presentes: contas de vidro por peixes secos e um amuleto de pedra verde. Houve também medo. Diogo Afonso, homem prático e leal ao Infante, compreendeu logo o perigo político. Se as ilhas fossem habitadas, a doação régia complicava-se; a narrativa de terras virgens desfazia-se. Ordenou silêncio. Mas Pero Fernandes, que sabia escrever e que sentira o olhar de Lira como uma faca doce, escreveu naquela noite, à luz de uma candeia, o que viu.
Houve romance, breve, intenso, impossível. Lira levou-o até uma ribeira de Fontes Altas, onde a água corria fria e clara mesmo no estio. Ali, entre as sombras das bananeiras selvagens e o cheiro da terra húmida, o escrivão português e a mulher de olhos verdes partilharam o que os corpos sabem quando as palavras falham. Ele prometeu voltar. Ela riu, com uma tristeza antiga, e disse-lhe, com gestos e com uma palavra que ele anotou como voltarás-não, que o mar dos homens brancos nunca deixava regressar os que levava.
Quando a caravela partiu, Pero Fernandes rasgou a metade da folha onde descrevia o encontro e o amor. Guardou a outra metade, a que falava da existência da tribo, das fontes, da navegação entre as ilhas, das mulheres de olhos verdes e da pele de bronze claro. Essa metade, anos mais tarde, chegou à Torre do Tombo misturada com documentos oficiais. Alguém, talvez o próprio Diogo Afonso ou um funcionário zeloso, tentou destruí-la. Mas o papel resistiu.
A folha
Aqui está a transcrição clara, em português moderno, do que restou do manuscrito de Pero Fernandes de Évora (c. 1462):
“Em o dia de Sam Vicente do anno do Senhor de mil e quatrocentos e sessenta e dous, sendo nós na caravela Santa Clara, de que era capitão Diogo Afonso, escudeiro do Infante Dom Fernando, e eu, Pero Fernandes d’Évora, escrivão e piloto-segundo, avistámos duas jlhas grandes a loesnoroeste. À primeira, por ser dia do santo, puzemos nome Sam Vicente; à segunda, por ter muitas águas correntes e vales verdes, Santo Antão.
Mas estas jlhas não eram desertas como as outras. Achámos nela gente, não muita, mas bem enraizada e adaptada. São homens e mulheres de pele bronze clara e olhos verdes como esmeralda, a que eles chamam Verdiãs. Vivem nas duas jlhas e sabem navegar entre elas em barcos leves. Em Sam Vicente pescam e guardam gado; em Santo Antão cultivam nos vales onde há fontes perenes, especialmente na ribeira grande que desce das montanhas. Têm guerra e têm pesca. São guerreiros e pescadores.
As mulheres governam. Uma delas, de nome que soava Lira, mostrou-nos as fontes e os campos escondidos. Disseram-nos, por sinais, que vivem ali desde tempos antigos, antes que nós chegássemos.
O capitão mandou que se calasse esta coisa, porque as jlhas devem ser dadas como desertas. Mas eu vi com estes olhos e escrevo para que não se apague de todo a verdade. Há água. Há peixe. Há gente. E há olhos verdes que o mar não esquece.”









