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Entre a Cruz e o Crescente: sobre as águas salgadas, sob a terra esturricada

‘Por um mundo sem fronteiras’ [Fasc. 2].

Por: Alcides Lopes, PhD.

Entre os judeus franceses brilhantes que viveram a transição do séc. XIX para o XX e foram tolhidos pelas agruras da guerra e do antissemitismo, encontra-se Émile Durkheim (1858-1917). O Sociólogo, filósofo e antropólogo, alerta que “jamais estamos seguros de reencontrar uma percepção tal como a experimentamos uma primeira vez, pois, se a coisa percebida não mudou, nós é que não somos mais os mesmos.” Certamente, a leitora, ou o leitor, já ouviu falar da parábola sobre a impossibilidade da pessoa banhar-se duas vezes na mesma ribeira, pois nem a água [se houver] nem a pessoa permanecem as mesmas.

Curiosamente, na mesma época, em muitos lugares, incluindo Paris, as noções preconcebidas dos africanos acirraram-se através dos estereótipos de consternação e indolência inatos. Se entre os povos da Europa existiam as animosidades, os antagonismos e o thumos belicosos, pelo menos numa coisa todos eles concordavam com relação aos outros: as mulheres no geral; os aborígenes; os indígenas; os árabes; os africanos; os indianos, os orientais; ou seja, de forma generalizada, todo o mundo não branco – ou não-hétero – era considerado inferior.

Quanto aos cabo-verdianos, considerava-se serem desprovidos de aptidão para conhecerem as artes, as manufacturas – com exceção do panu di téra que só tinha valor comercial devido à “precisão” de alguns dos gêneros “europeus” que os obrigava a vender aos comerciantes da costa da Guiné. 

Hoje em dia, vivemos tempos e transitamos por espaços alienantes que exigem a leitura ponderada de trabalhos como a obra do historiador Danilo Santos, A imagem dos cabo-verdianos nos textos portugueses 1784-1917, publicado pela editora Pedro Cardoso Livraria de Cabo Verde em 2017. O motivo para vos importunar com esta prazerosa leitura tem a ver com as narrativas sobre os cabo-verdianos que destacam a ausência de racionalidade, ciência ou regras; a falta de uma “verdadeira” cultura, não apenas no sentido econômico com relação aos gêneros de primeira necessidade, mas também, no sentido “comercial ativo” de lutar por uma vida mais cômoda, regular e “civilizada.”

Nem as ditas elites, ou “milordes” [sic], escapavam às descrições de António Pusich, João da Silva Feijó, José António Pinto, entre outros. Estes cabo-verdianos mais “chique- bem”, segundo estes autores e através de uma atribuição tendenciosa, não eram diferentes em vícios e mandronguices dos seus conterrâneos nativos das montanhas, rubêras e cutelos: “eles falam em medicina, ninguém é melhor cirurgião, disputam leis e finalmente arrogam a tudo quanto é ciência; legítimos efeitos da sua ignorância.” Esta passagem remete-nos ao tempo atual de governação num flash. Permitam-me ilustrar.

Nestes dias mais próximos ao clímax das festas de Colá Son Jon, durante um período de sete anos, de 2013 a 2019, estive diretamente envolvido com atividades de pesquisa etnográfica, desde as abordagens críticas e colaborativas concernentes ao velho método da  observação participante – um ato de contrição – uma crítica hermenêutica ao etnógrafo tipicamente euroamericano suportado por um sistema colonial, ou neocolonial, no exercício das suas atividades, seja por um estado ou país do terceiro mundo, universidade ou uma instituição de pesquisa internacional. Uma questão digna sob o crivo crítico de Maxwell Owusu.

Nesta perspectiva, a origem daquela criança tímida, sensível, assustada e fascinada pela água, nascida na vila do Porto Novo em março de 1975, que aos seis anos em pranto silencioso, viu-se afastado da sua mãe, embora estivesse na companhia da sua irmã mais grande num mundo mágico e estático de Martienne, é essencial para a nossa análise crítica. Pois aquele menino foi alfabetizado aos seis anos de idade e não parou mais. Ei-lo aqui aos quarenta e seis ciclos. 

Nas manhãs da escola, os meus olhos acendiam em direção às janelas abertas e para o verde viçoso da cana de açúcar, o colorido das mangueiras, papaieiras, amendoeiras e, talvez, um pé de fruta-pão que estivesse ao meu alcance visual. Sentia-me e, ainda, sinto-me atraído pela água límpida e translúcida que escorre em saltos pelas levadas riscadas por entre as propriedades e meradas

O frescor primaveril e veranesco tangíveis nas páginas dos romances de Kipling e Austen, no palimpsesto das suas narrativas coloniais das terras distantes, sob as garras inevitáveis do império anglo saxônico, não transcendem este sentimento genuíno.

País tamanhu murgudjadu

é mininensa. E ten txeru di mangi

mordedu na sol d’agostu.

Di bitxus ta padesi num veron di febri (…).

Mas kel ki poi ombru na kaminhu,

ku ánsia  na lugaris undi ki noti

é ka vos traisueru di bentu

ta trasa senárius di dizolason,..

Nosso Eça. Paraíso Apagado por um Trovão (2010). Uma das leituras mais cuidadosas que tive o prazer de conhecer neste exílio. Presente precioso de uma pessoa amiga. Você já experimentou ler este poeta ao som de Franz Schubert Octet em Fá Maior D.803? Se bem que, mais de uma vez, preferi decifrá-lo ouvindo The Mande Variations de Tounami Diabaté, ao som das ruas de Saly Portudal, enquanto eu tentava adivinhar quem teria sido o nosso Ahmadou Bamba!

Now matter how many claps the dragon has, it cannot reach the Emperor.

-Pois! Falava-me um vereador de cultura. Isso, depois de anos em que a minha pessoa vem tentando conversar com o ilustríssimo. – Acho que estás equivocado. Disse ele. Eu, apreensivo, deixo-o continuar. – Acho que o pedido que me foi enviado foi respondido de forma que tínhamos intenção, mas não tínhamos possibilidade de atendê-lo. 

Nisto, o fulano referia-se ao ano anterior àquele em que gastaram, supostamente, porque na realidade ninguém sabe mesmo quanto foi ao certo. Contou-me um passarinho que 17.000 contos foram gastos para trazer Kassav às festas de Son Jon em 2017.

Em setembro deste mesmo ano, fui ao lançamento de Os Tamboreiros da ilha das Montanhas. Cheguei do Brasil e passei uma noite na minha cidade. Tive que insistir com o vereador no seguinte aspecto. Eu fazia questão que no ‘arraial’ Aldeia Cultural Nôs Reíz, naquela noite, 2 de setembro, se fizesse presente um grupo de tamboreiros. Aqueles senhores cuja paixão pelo santo retrata-se nas páginas da obra. Os Srs. Manuel de Chuco, Vitorino de Josefa e Jon d’Ângela. Para  mim, era inevitável ouvir a toca daqueles tambores. E assim foi.

Em 2016, a minha proposta incluía, além de participar das atividades relacionadas com as festividades e com os artistas locais, um projeto de educação patrimonial, no qual, abordagens lúdicas, pedagógicas, artísticas e museológicas, seriam compartilhadas com professores, adultos, jovens, adolescentes e crianças através de atividades programadas para todo o mês de junho e, provavelmente noutras ocasiões. Nos anos seguintes, as respostas foram unidirecionalmente mais escassas e telegráficas. Telepáticas, rsssss…

Uma coisa me incomoda muito. Como propostas experimentadas através de inúmeras atividades lúdico-pedagógicas promovidas desde a década de 2000, as experiências das práticas performáticas, nos trabalhos de campo no país e na diáspora, entre outras atividades sobre as construções do imaginário e dos conteúdos para as mídias culturais e educativas desenvolvidas em centros associativos comunitários e departamentos universitários, como investigador convidado ou voluntário, não seriam do interesse analítico, ou melhor fracassaram nas expectativas, para o pelouro da cultura da minha cidade? 

Além do mais, para quê contratar teimosamente grupos e outras empresas estrangeiras, passando por Ongs, que tão logo se vão, para administrar cursos técnicos em cuja formulação fragmenta-se, abandona-se e esvai-se? De que vale se esforçar e participar em grupos de pesquisa, escrever e publicar livros, capítulos e artigos no âmbito internacional e em revistas especializadas, se as instituições locais onde poderia-se apropriar desses estudos e para as quais eles se destinam, preferem virar a cara para o lado com despeito?

Stiff necked fools!

Estas falhas estruturais não estão relacionadas com uma ou outra força partidária. Antes, são componentes mesmo de uma rivalidade ‘gressives, pah’ e irrefletida na prática político-partidária eivada de maus hábitos rapaces, hegemonia, crimes e coerções, a partir da mobilização de interesses econômicos [etnocêntricos?] que se desenvolvem diversa e descontroladamente nas práticas sócio-político-partidárias caras às “elites” do país. 

Um relatório publicado na semana passada informa que Cabo Verde sofreu a sua maior contração econômica no ano passado e, atualmente, figura como o terceiro maior devedor da dívida pública. Sem prospecções visando a recuperação econômica, as instituições estatais locais estão sem financiamento e vulneráveis à intimidação, extorsão e corrupção por parte de elementos criminosos que incluem a máfia russa, os cartéis de tráfico da América Latina e os branqueadores de capitais angolanos. As estatísticas positivas mundiais, vez ou outra, anunciadas por âncoras da TCV, não têm correspondência proporcional com o que está a acontecer.

Acredito que toda a população já está farta, e agora, se for esperta, apreensiva, com tamanha falta de segurança, ausência de sensibilidade administrativa, empatia, sororidade e a quantidade de erros crassos cometidos no dia a dia da administração das obras, da gerência de resíduos sólidos e do lixo [hospitalar], das questões educacionais, da saúde coletiva, segurança, no combate ao alcoolismo e a outras substâncias químico dependentes, na violência contra as mulheres e crianças, na epidemia da gravidez precoce, no analfabetismo, na prevenção dos feminicídios, dos suicídios e da pandemia da Covid-19.

O argumento principal do vereador é que ‘todo o mundo pode ser doutor.’ É evidente que não duvido. Quando trabalhei em Praia,  era apenas licenciado em música e a maioria das pessoas me chamavam de “doutor,” mesmo quando recomendava que não o fizessem. Pois bem!

Depois que investi mais sete anos da minha vida, ao lado de uma companheira amável e paciente, algumas pessoas maravilhosas, forças vivas, com as quais, alguns obstáculos estruturais se apequenam, para cursar um mestrado e um doutorado, por méritos que não são atribuídos ao financiamento nacional e sim às agências estrangeiras, não sou mais doutor, e sim, arrogante. Cá entre nós, digamos que ganhei o direito legítimo à certa ‘arrogância’ e ironia para desconsiderar nescidades e brejeirices inaceitáveis.

Sugeri a ele que fosse fazer seu próprio doutoramento, pois deste modo, a cidade servir-se-ia de melhor e mais maduro gestor no quesito da ‘agenda cultural.’ Um bem haja. Quando assim quiser, serei o primeiro a encorajá-lo, até orientá-lo. Precisamos de tantas mãos e mentes quantas necessariamente possíveis.

All hands on deck, not the contrary.

Tais situações acontecem, na realidade, por via de influências perniciosas infiltradas nos discursos políticos, nas administrações locais subsidiadas ao controle do governo central, que paradoxalmente valorizam conceitos como sustentabilidade, resiliência e empreendedorismo, mas que na verdade, precarizam e depredam as potencialidades tão humanas quanto materiais ou espirituais responsáveis pela saúde humana, material e espiritual da comunidade. Seria bom que houvesse uma legislação que protegesse as populações das armadilhas construídas por maus gestores locais e ‘gatunos de tocaia’ sem visão nem compreensão da dimensão e da importância dos eventos culturais e o próprio peso da cultura no destino da liberdade de um povo.  

Nasci numa ilha e lá existe uma cidade onde não se compreende os conceitos de desenvolvimento e progresso. Eles são anacronicamente interiorizados ‘izatu i kual’ como foram no início do século XX, quando o mundo era mormente fascista. ‘Colonizar os pretos da África’, era a palavra de ordem. A branquitude, o supremacismo racial, o ‘tlobesque’ colonial e a falta de horizontes humanizados mapeiam seus movimentos titubeantes no escuro, mesmo com a lâmpada de Tales de Mileto em mãos. Acredite, nasci nesta ilha. Meu umbigo foi arremessado ao mar, “lá por trás d’cais”. 

“Atravessar a fronteira, e passar pelas típicas privações e entusiasmos da migração, tornaram-se um tema importante na arte da era pós-colonial”, escreveu Edward Said em 1993. O curioso das perspectivas críticas da modernidade oferecidas por este pensador estadunidense, nascido em Jerusalém, filho de árabes cristãos,  educado no Cairo e, posteriormente, em Nova Iorque, é a conexão muitas vezes inefável, outras, contestada ou subsidiada, que ele explora entre a cultura e o imperialismo. Ele relembra Raymond Williams para destacar que não há documento da civilização [museu] que não seja também um documento da barbárie. 

As conjunturas políticas  e culturais mais ‘interessantes’ da atualidade concentram as conexões mais embranquecidas que se agarram insistentemente numa transcendência a priori e se afastam da humanidade em toda a sua diversidade. Esta configuração hegemônica é geradora da necropolítica e vassalagens distópicas a que estamos sujeitos cada dia mais em dimensões nunca antes imaginadas ou concebidas. 

Como na vigília do sono humano, a partir de tecnologias e inteligências artificiais com finalidades invasivas. As atmosferas da vigilância a que nós estamos sujeitas têm domínio panóptico e os claustros virtuais, cada vez mais, insistem demagogicamente em levar-te de volta ao navio negreiro, não importa a tonalidade da sua pele, ou quão “branco” você acredite que seja, ou mesmo se falas aquele Sant’Antôn Fund e cantante. 

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro.

(a continuar).

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