Nelson Faria
Há verdades que se sentem na alma antes de se formarem em palavras, o amor ao nosso cantinho, o solo onde demos os primeiros passos e onde o coração aprendeu a bater ao ritmo de um lugar, não é diminuir o todo. Pelo contrário, é a partir desse amor raiz, profundo e íntimo por São Vicente, que a minha admiração por Cabo Verde se alarga e se fortalece.
Celebrar a morna da minha ilha, o bulício criativo do Mindelo, o abraço salgado da Baía das Gatas, não é fechar-me numa cela de afeto. É, sim, ter uma âncora segura a partir da qual navego, com ainda mais carinho e curiosidade, pelo imenso mar-archipélago que somos.
Amar o meu país é precisamente isso, amar a sua idiossincrasia, essa maneira única de ser que cada ilha cose os fios da história, do isolamento e da criatividade. É celebrar a complementaridade, a força montanhosa de Santo Antão dialogando com a planície salina do Sal, a morabeza sotaventana conversando com a desenvoltura barlaventina. É venerar a autenticidade, esse jeito de estar no mundo, resistente e acolhedor, que não se deixa homogeneizar artificialmente.
O que verdadeiramente nos empobrece não é o amor pelo nosso canto; é a competição cega, a tentativa insensata de subjugar toda esta policromia a um único gosto, um único som, a uma cor única e artificial. Como seria triste se este arquipélago tivesse uma só paisagem, um povo de uma só voz.
O natural, o humano, é amarmos o solo das nossas memórias, das vivências que nos moldaram. Esse amor não carrega menosprezo pelo vizinho; carrega, isso sim, a semente da curiosidade e do respeito. Tenho tido a bênção de ir sentindo, sob as solas dos pés, a alma de sete das nossas ilhas. Em cada uma, além das paisagens de tirar o fôlego, encontrei, sobretudo, gente e cultura. Gente com uma luz própria no olhar, uma maneira distinta de contar uma história, de rir, de resistir. Em todas, só tenho bem a dizer.
Faltam-me duas, o Maio e a Brava. Do Maio, levo na mente a imagem de um mar sereno, espetacular e poderoso, que sinto que falaria à minha alma, e o retrato de uma gente de princípios firmes e suavidade no trato, daquelas que acolhem pelo simples modo de ser. Da Brava, são muitas as histórias de uma beleza florida, de encostas verdejantes e de um povo trabalhador, sério e empreendedor, cuja força quieta atrai. Hei de chegar-lhes. É uma promessa que faço a mim mesmo.
Vivendo em São Vicente, tenho o privilégio irrefutável da proximidade com Santo Antão, um vai-e-vem que é uma extensão natural da minha geografia afetiva. É essa fluidez que, com o coração apertado, desejo para todo o arquipélago. O meu grande lamento é justamente este, que as condições de transporte, a imprevisibilidade, a irregularidade, os custos, nos impeçam de ser, quotidianamente, mais Cabo Verde e menos apenas do nosso bairro, da nossa ilha.
Cinquenta anos depois da Independência, este ainda é um entrave visceral à plena realização da nossa nação. Sonho com o dia em que poderemos andar Cabo Verde de lés-a-lés com fluidez. O transporte inter-ilhas não são meras deslocações, são lições do que é a nação e o que nos torna patrióticos. É ver, ouvir, partilhar, compreender. É deixar que o sotaque de outro canto nos modifique um pouco, que um prato tradicional nos conte uma história de sobrevivência, que os sons e a cultura nos toquem, que uma melodia nos revele uma nova faceta da nossa própria dor e da nossa própria alegria. Essa interação constante, fácil e natural é o que nos alavancará, verdadeiramente, social, cultural e economicamente.
Conhecer todos os cantos deste país como conheço o meu São Vicente, eis um dos maiores desejos da minha vida. Não para comparar, não para competir, mas para me perder na imensidão do nosso todo e, nesse perder-me, encontrar-me ainda mais cabo-verdiano. Porque amar um arquipélago é amar, com igual paixão, a singularidade de cada porto e a beleza inquebrável do mar e da cachupa que os une.







