Pub.
Opinião
Tendência

Djosinha, o adeus aos palcos e ao mundo

Pub.

David Leite

Uma ínclita geração da nossa música está se extinguindo. Hoje, o nosso Djosinha, José Vieira Duarte, partiu para os esplendores da luz perpétua. Foi um dos pioneiros da nossa música no mundo e um dos derradeiros a deixar o nosso convívio.

Publicidade

O adeus aos palcos foi no dia 25 de abril. O seu último espectáculo. E agora despede-se da vida, nem mais nem menos que 92 anos bem vividos e 70 anos de carreira!

Na hora do adeus, sinto partir para sempre um amigo (não obstante a distância e a diferença de idade). Faz hoje um mês estávamos juntos tomando um café e recordando longínquos tempos da Rádio, cada um na sua: ele nos States, eu em São Vicente. Momento descontraído, de contar pirraças entre amigos, ambos lembrando com divertida nostalgia este episódio em dois tempos: eu a entrevistá-lo nos anos oitenta, ele a entrevistar-me na “sua” Rádio em 1992. “Estamos quites”, era ele no final da entrevista, brincalhão como era seu jeito. Djosinha era um homem alegre e divertido.

Publicidade

Hoje dou comigo a pensar no “Voz de Cabo Verde” tocando e fazendo história na Europa desde 1966. Penso na música caboverdeana ecoando pela primeira vez na Holanda, viajando tão longe quanto lhe consentia a nossa diáspora em Luanda, Dakar, Lisboa ou Nova-Inglaterra! Tocando e fazendo o gosto ao pé nos recintos e salões por onde a banda passava.

Hoje o meu pensamento vai para Luis Morais, Jean da Lomba, Bana e Frank Cavaquinho, que já partiram; Morgadinho, Toy de Bibia e Chico Serra que ainda estão no nosso convívio.

Publicidade

Djosinha chegou depois, mas deixou a sua marca indelével no Voz de Cabo Verde, diversificando-lhe o repertório com outras musicalidades. Quando se juntou ao grupo, os rapazes já não não se contentavam com a música tradicional, extravasando para outros ritmos e sonoridades. Na esteira do Bana e do Morgadinho, Djosinha também cantou as nossas mornas e coladêras, que ao tempo conviviam bem com o samba e os slows brasileiros… mas o showman foi mais longe e mais ousado, tão à vontade estava como intérprete de salsas, boleros e cúmbias, os ritmos latino-americanos da época. Essa foi, aliás, a sua marca.

Djosinha, o showman, diferente do Bana, vocalista austero e majestático no palco, com seu lencinho branco na mão e outro no bolso do blazer – enfin, la classe, quoi! Bana e Djosinha no palco, a perfeição na diferença!

Sim, a geração de ouro da nossa música está se apagando. Mas a sua luz permanece acesa, tal como o seu legado. Partem os grandes deste mundo, fica a sua luz para nos iluminar!

Mostrar mais

Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo