António Santos
Em 12 de janeiro de 2024 escrevi, neste mesmo espaço, um artigo intitulado “Dividir para reinar”. Nele manifestei a minha preocupação com aquilo que então entendia ser uma perigosa divisão no seio das Forças Armadas Cabo-verdianas e com a tendência de valorizar uma componente em detrimento das restantes.
Dois anos depois, gostaria de poder dizer que me enganei e que ultrapassámos definitivamente esta dinâmica de divisão, compreendendo que umas Forças Armadas modernas não se constroem diminuindo uns para engrandecer outros. Mas alguns sinais obrigam-me a regressar ao assunto.
Em 2024 defendi uma organização assente nas componentes terrestre, marítima e aérea, capaz de gerar complementaridade, integração e sinergias. Continuo a defender o mesmo, porque não se corrige uma divisão criando outra, nem se fortalece uma componente enfraquecendo as restantes.
Cabo Verde precisa das três dimensões da Defesa. A nossa condição arquipelágica torna o mar incontornável, mas não podemos pensá-lo isoladamente do ar e da terra. Uma ameaça pode surgir no mar, ser detetada e acompanhada pelo ar e exigir uma resposta em terra.
Terra, mar e ar são dimensões diferentes da mesma soberania. A verdadeira força está na sua integração, interoperabilidade, complementaridade e unidade de comando. O mar não termina onde começa o céu. E há hoje uma dimensão que merece particular atenção: a soberania aérea e o poder aéreo enquanto instrumentos do Estado.
Num mundo em que as ameaças e os interesses estratégicos já não se limitam às fronteiras terrestres e marítimas, controlar e conhecer o que acontece no espaço aéreo é também exercer soberania. Um Estado deve saber quem utiliza o seu espaço aéreo, com que finalidade, por onde opera e em que condições.
O poder aéreo, porém, vai muito além da existência de aeronaves. Resulta da capacidade do Estado para conhecer, regular, vigiar, utilizar e proteger a dimensão aérea do seu território, articulando meios, informação, autoridade, tecnologia e capacidade de resposta.
Os drones vieram tornar esta realidade ainda mais evidente. Aeroportos, instalações militares, infraestruturas críticas, instituições do Estado, representações diplomáticas e eventos de elevada importância estão hoje expostos a riscos e ameaças provenientes também da terceira dimensão: o ar.
Para Cabo Verde, esta dimensão é estratégica. O espaço aéreo não é simplesmente o céu sobre as nossas ilhas e o nosso mar: é território de soberania, espaço de afirmação da autoridade do Estado e dimensão essencial da Defesa dos interesses nacionais. E existe também aqui uma dimensão diplomática. A passagem de aeronaves de Estado estrangeiras, as missões militares internacionais, as visitas oficiais e a proteção aérea associada a determinados eventos ou representações estrangeiras colocam o espaço aéreo no ponto de encontro entre soberania, Defesa e Diplomacia.
Por isso, desenvolver a capacidade aeronáutica militar nacional não é apenas desenvolver aviação. É construir poder aéreo, reforçar a autoridade do Estado e afirmar a soberania da República também no céu.
Quem protege a terra e o mar não pode deixar o céu fora da equação. A soberania aérea é indissociável da soberania nacional. E é precisamente no espaço onde poder aéreo, Defesa, Segurança e Diplomacia se encontram que Cabo Verde deve continuar a desenvolver capacidade, conhecimento e autoridade próprios.
Quem comandou deve saber deixar comandar
Há, porém, outra questão sobre a qual escrevi em 2024 e que não posso ignorar agora: as Forças Armadas não podem viver permanentemente condicionadas por disputas de influência e protagonismo. Um antigo CEMFA possui experiência, conhecimento e todo o direito de continuar a pensar a Defesa Nacional.
Mas existe um tempo para comandar e existe um tempo para deixar comandar.
O atual CEMFA recebeu a responsabilidade institucional de dirigir as Forças Armadas. Deve ter espaço para exercer o seu comando, construir a sua visão, tomar as suas decisões e, naturalmente, responder pelos seus resultados.
Não podemos ter um CEMFA a segurar o leme e um antigo ex CEMFA, nos bastidores, a tentar orientar o mesmo navio noutra direção. Isso não ajuda as Forças Armadas. Divide-as. Desestabiliza-as. Enfraquece-as.
E se em 2024 critiquei precisamente a divisão, não poderia agora defender aquilo que então condenei. Quem já comandou deve ter a nobreza e grandeza institucional de permitir a quem hoje comanda que pense pela sua própria cabeça e caminhe pelas suas próprias pernas, recuperando uma ideia tão profundamente associada ao pensamento de Amílcar Cabral.
Deixemos o atual CEMFA comandar.
Deixemos que apresente a sua visão.
Deixemos que tome as suas decisões.
E depois julguemos o seu comando pelos resultados.
Porque não existe verdadeira responsabilidade sem autoridade para decidir.
Deixemos que tome as suas decisões. E depois julguemos o seu comando pelos resultados. Porque não existe verdadeira responsabilidade sem autoridade para decidir.
As Forças Armadas não podem ficar reféns de amiguismos, favoritismos, vaidades, orgulho pessoal ou egos feridos. Quem verdadeiramente serviu uma instituição deve desejar vê-la crescer, mesmo depois de já não estar no comando.
Os homens passam.
As chefias passam.
Os governos passam.
A República permanece.
Dois anos depois, mantenho aquilo que escrevi em 2024: não é fomentando divisões que se prestigiam as nossas Forças Armadas.
Mais integração e menos divisão. Mais interoperabilidade e menos protagonismo. Mais competência e menos amiguismo e favoritismo. Mais sentido de Estado e menos egos feridos.
Terra, mar e ar, cada um com as suas competências, mas todos ao serviço da mesma bandeira. Porque, quando está em causa a Defesa da República, as fileiras devem estar cerradas.
28.07.2026








