Américo Costa
“Nesta minha próxima passagem pelo Mindelo, levo comigo aquela que considero ser uma autêntica joia da literatura cabo-verdiana e da história editorial do espaço cultural lusófono: um exemplar original da primeira edição (1958) de “Morabeza: Contos de Cabo Verde”, de Manuel Ferreira.”
Há lugares no mundo que nos acolhem de tal forma que, mais do que simples visitantes, passamos a sentir-nos parte deles, e eles de nós. Para mim, a icónica cidade do Mindelo e a generosa Ilha de São Vicente representam exatamente esse porto de abrigo afetivo. Cada viagem a esta terra de morabeza é um reencontro com um pulsar cultural único, onde o mar, a música, as conversas de fim de tarde e a genuína simpatia de um povo acolhedor e profundamente humano me fazem, invariavelmente, sentir em casa. É esta ligação umbilical, aliada a um imenso respeito pela vossa riquíssima história, que me move a manter um hábito muito especial: o de tentar enriquecer a Biblioteca Municipal do Mindelo com exemplares bibliográficos raros e de elevado valor histórico, devolvendo a São Vicente um pouco daquilo que ela tão generosamente me oferece.
Nesta minha próxima passagem pelo Mindelo, levo comigo aquela que considero ser uma autêntica joia da literatura cabo-verdiana e da história editorial do espaço cultural lusófono: um exemplar original da primeira edição (1958) de “Morabeza: Contos de Cabo Verde”, de Manuel Ferreira. Esta obra de arte literária, laureada com o prestigiado Prémio Fernão Mendes Pinto em 1957 e publicada originalmente pela Agência-Geral do Ultramar, constitui um pilar fundacional para a compreensão da alma crioula e, de forma muito particular, do pulsar urbano, marítimo e melancólico do Mindelo de meados do século XX.
O autor, Manuel Ferreira, embora nascido em Portugal, transformou-se num dos maiores defensores e estudiosos das literaturas africanas de língua portuguesa. A sua ligação umbilical a Cabo Verde iniciou-se em 1941, quando foi mobilizado como militar expedicionário, permanecendo no arquipélago durante seis anos cruciais. Ali integrou-se e privou de perto com as mentes brilhantes das gerações das revistas Claridade (1936) e Certeza (1944) como Baltasar Lopes, Jaime de Figueiredo e António Aurélio Gonçalves , dedicando mais tarde a sua vida a registar com rigor as dores, a resiliência e a essência identitária das ilhas.
A importância crítica desta obra reside na precisão com que Manuel Ferreira capta o “sentimento intrínseco do povo crioulo”. O Mindelo retratado nestas páginas não é apenas um cenário geográfico; é um espaço psicológico vivo, desenhado por entre os cais de embarque, o vai-e-vem dos cargueiros no Porto Grande, as tabernas portuárias, os copos de grogue, o som dos violões e o cerimonial de gentilezas e nostalgias que definem a própria morabeza. Através de contos emblemáticos como “Os Mandongues de Pudjinho Sena”, “Filipe Cabeça de Peixe” ou a evocação de figuras matriciais como “Nha dos Ramos”, o livro documenta a dualidade mindelense: a vivacidade cultural e a abertura ao mundo proporcionada pelo porto, em constante contraste com o drama da seca, da escassez e da dolorosa necessidade de emigração (“Hora di Bai”).

Determinar a raridade deste exemplar exige cruzar dados históricos. Na década de 50, as edições literárias da Agência-Geral do Ultramar que ficavam fora do circuito escolar tinham tiragens estimadas curtíssimas, situando-se geralmente entre 500 exemplares. Com a transição política em 1975, muitos acervos oficiais foram desmantelados ou perdidos. Adicionalmente, o clima tropical húmido e a salinidade de arquipélagos como Cabo Verde são historicamente implacáveis com o papel de matriz ácida usado na época, provocando uma acentuada destruição por térmitas, bicho-do-livro e oxidação.
Ao aplicarmos uma taxa de sobrevivência histórica estimada de cerca de 5% a 8% para edições desta natureza expostas a estes ambientes ao longo de quase sete décadas, calcula-se que existam hoje apenas entre 75 exemplares desta 1.ª edição em todo o mundo, a maioria protegida em depósitos legais de grandes bibliotecas nacionais. Em São Vicente, devido às agressivas condições climáticas costeiras e à dispersão das antigas bibliotecas familiares, estima-se que o número de exemplares originais intactos seja extremamente reduzido, restando provavelmente menos de 5 sobreviventes em todas as ilhas.
Entregar este exemplar à Biblioteca Municipal do Mindelo é resgatar e proteger um fragmento físico da memória viva e da gesta cultural desta cidade. É um humilde tributo meu a esta ilha que tanto me dá e a este povo fantástico que sempre me recebe de braços abertos. Espero, com este gesto, contribuir para que as novas gerações de mindelenses continuem a ter acesso direto às fontes impressas que ajudaram a moldar a sua riquíssima identidade cultural.
Espero que este gesto inspire outros apaixonados por Cabo Verde a preservarem a herança escrita deste arquipélago de poetas. Envio este texto com o desejo sincero de partilhar com os leitores do prestigiado Mindel Insite o orgulho de pertencer, mesmo que de coração, a esta magnífica comunidade.







