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Carnaval fora de época… num dia de carnaval…!

Por: Rocca Vera Cruz

De repente vi-me em meio a uma profusão de cores, sorrisos largos de amigos, abraços de encontros e reencontros, de modo amplo, geral e irrestrito. Uma lindíssima crioula, Rainha de Bateria, minha amiga, veio ao meu encontro impecavelmente vestida de branco, tudo perfeito, blusa e short minúsculo, uma coisa tipo turbante na cabeça, dando ainda mais graça ao todo.

Estacionando a sua simpatia à minha frente, entrega-me uma garrafa de água, ‘cuidod bô ca derretê k’esse calor’, pedindo para lhe fazer uma foto. Antes de responder, prestei atenção à sua cara linda, à sua pele da cor da noite e ao peito onde cintilavam duas luminosas luas. Naquele momento que Machado de Assis, por certo, escreveria algo para a preta, qualquer coisa como ‘Ó divina esperança…”, respondi que fazia a foto, claro, assim como aceitava a caipirinha que ela tinha nas mãos. ‘Txam bá bscod um nô ta txi de junte’. Quem resiste?

O Mestre de Bateria puxou pelos rapazes, a batucada começou a aquecer, 1, 2, 3, ‘vamos embora’, saímos da Avenida da Holanda, nem dois passos e encontramos um funeral a subir, contornando a rotunda, antes de entrar na Manuel de Matos, agora é que vai ser bonito, batucada ou choro de morte?

Como que por milagre o pessoal abrandou e deixou passar o funeral, mal o último carro passou a Fábrica Favorita, ouviu-se o sinal, a coisa voltou a aquecer, sangue côrrê na veia, a passista, sorrindo, chamou-me a atenção para uma ‘tia’ que tava ta ptá dos menininha ele, de tonte roça na cumpanher es cabá por beijá despudoradamente. ‘Esse planeta ta prop semelhante, bsote ê descaradas’, quanto mais a velha brigava mais o beijo aquecia, a senhora ameaçou chamar a policia e quase desmaiava quando já perto do clube de ténis, viu dois rapazes também se beijando. ‘Es dos li sentá Nakel Pedra antes de bem e quês dôs menininha quase ta estode ta cmê mut cmida de lata’.

A verdade é que a batucada animava o assalto, motivo era justo, mais do que justo, justíssimo: era carnaval, época onde em S.Vicente ninguém liga aos fdp que pretendem ser polícias da moral e dos bons costumes. Época também em que toda a gente agradece aos grandes do carnaval mindelense, Ti Goy, Nhô Dôi, Dona Lili, Dona Dulce Lola, Djô Borja, Mick Lima, Constantino, Jota e Anisio, Vlu, Daia e mais uns poucos. Acho que todos os que testemunharam reconhecem o valor destes grandes homens e mulheres que quase se esvaíram pelo Carnaval de Soncente, um lindo processo de construção sociocultural e artística.

E dou comigo a pensar no porquê de, ontem, me ter metido a escrever este texto sobre o carnaval. Às vezes a insónia leva-me a isto, A SAUDADE me impele a escrever textos como um Carnaval fora de época… num dia de Carnaval… E lembro-me agora de uma brasileira também fora de época, bem à frente do seu tempo, como os grandes do carnaval do Mindelo, Dona Glorinha, cuja entrevista foi das coisas mais lindas que já li. Dona Glória disse: “Voem. Vocês podem. Vocês conseguem. Vão ensolarar o mundo!”.

E os mindelenses seguiram seus conselhos ao som das caixas floreadas, dos surdos imponentes, dos lúdicos e agitados repiques, chocalhos e tamborins, tudo sob a batuta dos mestres de bateria, da Velha Guarda do Samba Tropical, agitando a elegância do mestre-sala e da porta-bandeira, o requebro frenético de maravilhosas passistas, muita alegria e samba no pé, fazendo do Carnaval um espaço de questionamento de normas, de libertação das repressões, de integração cultural, mesmo para os que são tímidos ou para os que afirmam não gostar do Carnaval. É que, mesmo para esses, existirá sempre a verdade dos versos de Drummond: “O pandeiro bate/É dentro do meu peito/mas ninguém percebe.”

(Noto agora que perdi a Rainha de Bateria desde o início do texto – txá pra lá, hora de durmi – ca tem tempo pa bá espial, ta esperá encontral ot vez na USabor na um cervejada na 2022 antes de rancá na 4ª pa Boi de Amparo e descansa pa oiá desfile de professores. Ah… e um tem de ligá Tixa Patricia Alhinho pa combiná Enterro, sem esquece que nô ta falode desde óne passode pa bai ma Peggy.)

Um cordá na meio de madrugada ta lembrá que hoje ê um dia qualquer mod quel doença que gente ca ta dzê sê nome – pelo s’nal santa cruz que ka ta txa gente oiá nem um joguinha na Fontinha. Felizmente de nôt um tem um livro de Jorge Tolentino pa cabá de alê, assim Dr Elisio ka ta coima-me na rua fora de hora!

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