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Cabo Verde entre o desencanto e a esperança: a democracia precisa regressar ao povo

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Domingos Barbosa da Silva

A cada ciclo eleitoral em Cabo Verde repete-se um ritual conhecido. Nas semanas que antecedem o voto, os políticos descem às ruas, visitam feiras, apertam mãos, distribuem sorrisos e promessas. O eleitor sente-se visto, ouvido, necessário. Mas, consumado o voto, instala-se a distância: gabinetes climatizados, discursos técnicos, formalismos e uma crescente sensação de afastamento entre governantes e governados.

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É neste intervalo — entre o teatro da proximidade e a prática da distância — que a confiança se quebra. Quando promessas não se cumprem, quando a mobilidade inter-ilhas continua precária, quando a segurança urbana se deteriora e quando as periferias permanecem abandonadas, instala-se a frustração. A frustração gera desinteresse; o desinteresse alimenta a abstenção. E a abstenção, longe de ser
indiferença, é um protesto silencioso. Uma democracia que perde a confiança do
povo perde também a sua legitimidade moral.

O problema agrava-se quando a política se converte em via de ascensão pessoal. Quem recusa pactuar com esta lógica é tratado como ingénuo. Mas a República não pode ser refém de cinismos. República é uma daquelas palavras que usamos tanto que, às vezes, esquecemos a profundidade que ela carrega. No sentido político mais essencial, República significa “coisa pública” — res publica, em latim. Ou seja: aquilo que pertence a todos, não a um rei, não a uma família, não a um grupo, mas à comunidade inteira. E por isso a palavra é tão exigente, e chamar um país de República é assumir um compromisso ético:
 com a igualdade,
 com a responsabilidade pública,
 com a prestação de contas,
 com a dignidade do cidadão.

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Quando esses princípios se perdem, a República transforma-se numa casca vazia — mantém o nome, mas perde a alma.

Foi por isso que o debate conduzido pela jornalista Rosana Almeida, em 13 de janeiro de 2026, representou um momento raro no espaço público. Discutiu-se a democracia cabo-verdiana para além dos slogans: o povo como agente soberano, a distância entre o país oficial e o país real, a urgência de devolver a democracia ao cidadão e não aos relatórios internacionais. Falou-se de consensos históricos,
responsabilidade cívica e valorização da memória cultural das ilhas.

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Se Cabo Verde deseja amadurecer democraticamente, este tipo de debate deve chegar a todas as esferas sociais: escolas, autarquias, sindicatos, universidades, comunidades da diáspora, Forças Armadas, operadores culturais, igrejas, organizações de bairro e cidadãos comuns. E não pode limitar-se à história política ou ao constitucionalismo.

Há urgências concretas que exigem ação:
 insegurança e crime urbano;

 mobilidade inter-ilhas, ainda uma ferida aberta;
 desemprego e fuga de jovens qualificados;
 abandono das periferias;
 empobrecimento cultural;
 dependência económica externa;
 chamamento da sociedade civil
 gestão estratégica da diáspora, tantas vezes reduzida a remessas.

Democracia não é apenas votar. É um conjunto de instituições, práticas e valores que permitem ao povo exercer soberania com dignidade. Para isso, Cabo Verde precisa de algo ainda ausente: educação emocional no parlamento, psicologia nos debates, cultura de consensos entre governo e oposição. A vitória partidária não pode continuar a valer mais do que a vitória nacional.

O respeito — essa virtude civil discreta e estruturante — é o cimento das democracias maduras. É ele que permite transformar divergências em acordos operacionais, que impede que o debate se torne guerra, que garante que o outro seja reconhecido como sujeito e cidadão. Onde falta respeito, sobra cinismo; onde sobra cinismo, instala-se a paralisia.

O cabo-verdiano não pede milagres. Pede respeito. Pede verdade. Pede ser ouvido. Pede que a política regresse ao seu lugar natural: o serviço da polis, e não das carreiras individuais.

A história do país confirma essa exigência. Durante séculos, o cabo-verdiano foi marginalizado, educado na paciência e na contenção, habituado a sobreviver com o pouco que lhe era concedido. Mas, sob essa superfície de resignação, sempre ardeu um desejo profundo de progresso, de ser mais e melhor. Desde a luta pela independência até à afirmação cultural das mornas e à vitalidade da diáspora, a força da nação reside no seu compromisso ético e na sua capacidade de se reinventar.

Hoje, a contínua saída de jovens qualificados revela que o espírito cabo-verdiano não aceita a estagnação. O corpo social pode, por vezes, parecer preso a limites herdados, mas a mente e o desejo avançam. Querem evoluir, superar-se, afirmar-se no mundo. A diáspora é testemunha dessa força — fuga, sonho e reinvenção ao mesmo tempo.

Cabo Verde vive entre a memória do que lhe faltou e o impulso de alcançar o que ainda não tem. É nessa tensão que reside a possibilidade do seu futuro. A democracia cabo-verdiana tem futuro, sim — mas não o terá sozinha. Ou regressa ao povo, ou limitar-se-á a existir por inércia. E uma democracia que vive por inércia está sempre à beira de se perder.

Oslo, fevereiro de 2026

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Kimze Brito

Jornalista com 30 anos de carreira profissional, fez a sua formação básica na Agência Cabopress (antecessora da Inforpress) e começou efectivamente a trabalhar em Jornalismo no quinzenário Notícias. Foi assessor de imprensa da ex-CTT e da Enapor, integrou a redação do semanário A Semana e concluiu o Curso Superior de Jornalismo na UniCV. Sócio fundador do Mindel Insite, desempenha o cargo de director deste jornal digital desde o seu lançamento. Membro da Associação dos Fotógrafos Cabo-verdianos, leciona cursos de iniciação à fotografia digital e foi professor na UniCV em Laboratório de Fotografia e Fotojornalismo.

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