Silvino Rodrigues
Santo Antão é uma das ilhas mais deslumbrantes de Cabo Verde, um verdadeiro santuário natural onde as montanhas tocam o céu e as paisagens, únicas no mundo, encantam quem as visita. É uma terra de gente trabalhadora, inteligente e profundamente humilde, que transforma desafios em força e hospitalidade em identidade.
Escassamente a uma hora da ilha de São Vicente, Santo Antão mantém com esta uma ligação marítima intensa e simbiótica. Não é por acaso que, de cada cinco pessoas em São Vicente, quatro têm raízes em Santo Antão, um laço humano, cultural e económico que faz desta a mais forte e vibrante conexão inter-ilhas de Cabo Verde.
O aeroporto de Santo Antão continua a ser uma promessa reiterada por sucessivos governos. Apesar da existência de estudos preliminares e da definição do local para a sua implantação, não há, até ao momento, obras em curso nem financiamento assegurado. O projeto permanece numa fase de mobilização de recursos e gera um debate cada vez mais intenso quanto à sua viabilidade técnica, financeira e ao real impacto no desenvolvimento da ilha.
Estima-se que a construção do aeroporto represente um investimento entre 70 e 80 milhões de euros, um valor que, na minha perspetiva, deveria ser canalizado prioritariamente para a expansão do Porto do Porto Novo e para o reforço do transporte marítimo, nomeadamente com a introdução de mais uma embarcação na ligação com a ilha de São Vicente.
A construção do aeroporto parece ser uma prioridade política, mas dificilmente pode ser considerada, neste momento, uma opção estratégica para reforçar a mobilidade inter-ilhas ou impulsionar de forma sustentável a economia local. Santo Antão é uma ilha montanhosa, com um turismo em crescimento e vocação clara para o turismo de natureza. Neste contexto, faria mais sentido investir numa ligação marítima mais eficiente e flexível. Um exemplo prático seria a criação de horários alternativos ou a permanência de um barco que pernoitasse na ilha, permitindo o percurso inverso aos navios atualmente em operação.
Tal medida possibilitaria a mobilidade diária de cidadãos que vivem numa ilha e trabalham na outra, algo que hoje é inviável, uma vez que após as 15h00 não existem ligações marítimas no sentido São Vicente/ Santo Antão, nem nas primeiras horas da manhã no sentido Santo Antão / São Vicente. A expansão do Porto do Porto Novo deve ser encarada como uma prioridade estratégica, pois trata-se de uma infraestrutura essencial para a conectividade da ilha, o desenvolvimento económico local e a consolidação de um modelo de turismo sustentável.
O local escolhido para o aeroporto, Casa do Meio, no município do Porto Novo, é considerado tecnicamente viável para uma pista com cerca de 2.000 metros. No entanto, essa área poderia também ser integrada num plano estruturado de expansão urbana, com investimento em habitação, estradas e serviços, promovendo a fixação da população local e o regresso de cidadãos que desejam
estabelecer-se na terra dos seus antepassados.
O projeto continua a dividir opiniões. Enquanto alguns defendem a sua execução imediata, especialistas e setores da sociedade civil alertam para os riscos associados à sua sustentabilidade financeira e operacional, bem como para a possibilidade de o aeroporto não gerar o impacto socioeconómico esperado, tornando-se mais um elefante branco.
Num país com recursos financeiros limitados, impõe-se uma reflexão séria sobre as prioridades nacionais. Mais do que obras simbólicas, Santo Antão precisa de investimentos que respondam às necessidades reais da população e promovam um desenvolvimento equilibrado, sustentável e duradouro.







