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A culpa não pode morrer solteira no caso da venda do Dornier ao Quénia

Há cerca de dois anos denunciávamos nas páginas desde jornal «a negociata» existente entre o Estado cabo-verdiano e uma empresa portuguesa (a Sevenair), que favorecia, claramente, a empresa portuguesa, sediada no Aeródromo de Tires, no concelho de Cascais (Portugal), porque permutava um Dornier (ainda a voar) por dois aviões CASA que, segundo os especialistas, «aterraram de vez» na Base da Força Aérea Portuguesa, do Montijo.

Passados 18 meses, depois de ter ido a leilão por várias vezes, surge a notícia que, afinal, o avião Dornier, que esteve durante vários anos ao serviço da Guarda Costeira, em missões de patrulhamento e de busca e salvamento, ainda voa e que, inclusivamente, conseguiu o milagre de «levantar voo», na terça-feira, 21, do Aeroporto Internacional Nelson Mandela, na Praia, em direção ao Quénia. Provavelmente, graças «à intervenção divina» de Nossa Senhora da Graça, Padroeira da cidade da Praia.

Na altura do nosso primeiro artigo sobre este tema colocávamos em causa as razões mecânicas, mal explicadas, que estavam na origem do «estacionamento» da aeronave, há mais de cinco anos, no hangar do aeroporto da Praia, por causa de uma alegada avaria, que agora ficou demonstrado que era de fácil resolução e sem grandes custos.

Problemas no motor de arranque afiançava um oficial que acompanhou de perto todo esse processo. Segundo ele, o Dornier tinha apenas um problema no motor de arranque, que ficou resolvido com a troca de um conjunto de cabos, que, para além de servir de arranque, serve também como gerador. «Foi só isso que os novos donos fizeram no avião, que esteve hangarado há cerca de cinco anos». Aliás, espantosamente, essa cablagem de fiação elétrica para o motor 1, que custou cerca de cinco mil contos, foi adquirida pela Guarda Costeira, mesmo antes da decisão de se vender o avião, como foi afirmado pelo jornal A Nação.

Tudo isto vem dar força às suspeições que levantamos na altura. Tanto no passado, como no presente, tudo nos leva a crer que todas «estas acrobacias aéreas» só tinham um objetivo: desvalorizar o Dornier. Só assim se compreende esta venda.

Aliás, os factos comprovam essa teoria. O Dornier, cujo preço de mercado ronda os cinco milhões de euros (550 mil contos), foi vendido em hasta pública por 48 mil e 100 contos à Blue Wave Aviation, com sede nas Maurícias.

Em declarações ao A Nação, uma fonte realça que a empresa que comprou o avião encontrou mais de 100 mil contos em peças e ferramentas desse avião, que estavam num dos armazéns da TACV. «Por conveniência de alguém, eventualmente ligado ao Governo, o Dornier foi desbaratado», denuncia a mesa fonte. Corroborando assim aquilo que já tínhamos denunciado há dois anos.

Contudo, hoje tal como ontem, o Governo entendeu, «de acordo com os estudos feitos por técnicos e especialistas», que o custo da manutenção do Dornier é elevado.

Em princípios de 2021, o jornal A Nação lembrava, e muito bem, que o actual Governo assumiu a responsabilidade de dotar as Forças Armadas cabo-verdianas com os meios indispensáveis para garantir as diversas operações consideradas importantes em termos de protecção civil, de busca e salvamento e de patrulhamento das nossas águas territoriais. Pelos vistos, rapidamente foram esquecidas essas promessas e o avião que podia realizar essas missões «voou» em direção ao Quénia.

Neste momento de crise pandémica a única exigência que se pode pedir a quem nos governa é transparência. Por isso, está na hora do Governo explicar porque não estão ao serviço esses aviões que tanta falta fazem e que seriam ferramentas muito úteis no trabalho desenvolvido pelas Forças Armadas no quadro do atual Estado de Emergência.

Esperamos, também, que o atual Comandante Supremo das Forças Armadas de Cabo Verde ordene um inquérito para apurar a verdade, porque a «culpa não pode morrer solteira», e que o atual Chefe da Casa Militar ajude a esclarecer a verdade acerca do sucedido.

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