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Escândalo de incesto abala elite francesa: “Toda a gente sabia.”

Um escândalo está a abalar a elite francesa. O acusado é o famoso cientista político, constitucionalista e antigo eurodeputado Olivier Duhamel, que já se demitiu do cargo de presidente da Fundação Nacional de Ciências Políticas. Quem o acusa é a enteada, Camille Kouchner que, em livro, revela que Olivier começou a abusar em 1988 do irmão gémeo, então com 13 anos. Ambos são filhos de Bernard Kouchner, ex-chefe da diplomacia francesa e cofundador dos Médicos Sem Fronteiras, e de falecida Évelyne Pisier, ícone feminista, amante de Fidel Castro e professora de Ciência Política. Esta, diz Camille, ao ouvir as denúncias, optou pelo silêncio. E não terá sido a única.

“Não revelo nada neste livro, toda a gente sabia, incluindo os amigos da família”,escreveu Camille em La Familia Grande, cujos primeiros excertos foram revelados na segunda-feira pelo Le Monde e que chegou às livrarias na quinta-feira, retomada pelo DN. Logo na terça-feira, os procuradores de Paris abriram uma investigação preliminar por “violação e agressão sexual” contra Duhamel, que na véspera se tinha demitido da fundação que gere o Instituto de Estudos Políticos de Paris (conhecido como Sciences Po), mas também dos vários media onde era comentador. “Por ser objeto de ataques pessoais e desejoso de preservar as instituições em que trabalho, ponho fim às minhas funções”, escreveu no Twitter, na conta pessoal, entretanto apagada.

Mas Duhamel, de 70 anos, poderá não ser o único a cair por causa do escândalo, com a imprensa a debruçar-se sobre aqueles que alegadamente sabiam e nada fizeram. O título do livro, no original em espanhol, era o nome que o politólogo (filho do ex-ministro socialista Jacques Duhamel) dava ao seu poderoso círculo de amigos, que incluía a elite intelectual e política – apodada negativamente de “esquerda caviar”.

Frédéric Mion, diretor da Sciences Po, admitiu que sabia dos alegados abusos desde 2019 e os estudantes pedem a sua demissão.Isto depois de, na segunda-feira, quando foi revelado o caso, ter enviado uma mensagem aos estudantes e professores dizendo-se “estupefacto” com a acusação contra Duhamel. Disse depois que pensou que se tratava de um “rumor”, admitindo “falta de discernimento” em relação ao caso.

Mion terá sido informado pela antiga ministra da Cultura, Aurélie Filippetti, professora na Sciences Po. Quando soube das acusações, esta consultou um advogado penalista, que lhe disse que os crimes já teriam prescrito, mas ainda assim contou ao diretor, que lhe terá dito que iria fazer algo.Filippetti admite agora que se calhar podia ter feito mais, mas que pensou ter feito o que era acertado na altura.

Quem também está a ser criticada é Elisabeth Guigou, amiga da família, ex-ministra da Justiça e actual presidente de uma comissão sobre o incesto. Guigou reitera que só soube do caso, pela imprensa, indicando que esta é uma prova de que”todos estamos em contacto com vítimas ou agressores sem o saber”. À revista L’Obs, a ex-ministra disse que não é exceção à regra. “O silêncio durante anos nesta família, que conheço, mostra-nos como é preciso ser corajoso para que este tabu possa ser levantado”.

“Este livro nasce de uma necessidade de testemunhar sobre o incesto, para demonstrar que é algo que dura anos e que é muito, muito difícil de sair desse silêncio. A omertà [código de silêncio dentro da máfia], numa família, pesa sobre todos”, declarou Camille numa entrevista à L”Obs. Na altura dos acontecimentos, aquele que era o “padrasto adorado” – com quem Évelyne Pisier se tinha casado em segundas núpcias em 1987, três anos após o divórcio de Bernard Kouchner – impõe-lhes a necessidade de manter o segredo. Os episódios de incesto terão durado pelo menos dois anos.“Eu tinha 14 anos e deixei-o continuar. Tinha 14 anos, sabia e não disse nada”, escreveu Camille, acusando o padrasto de ter feito dela cúmplice.

Uma das razões para nem contar a Évelyne era porque ela passava então por uma depressão – a própria mãe tinha-se suicidado em 1988, dois anos depois do pai. Mas quando Camille e o irmão – ela opta por chamar-lhe de “Victor” no livro – finalmente lhe contam, duas décadas depois, Pisier fica ao lado do marido, contra os filhos.

Já Bernard Kouchner quis “partir a cara” a Duhamel quando soube dos factos, também já em 2008, tendo mantido o segredo a pedido dos filhos. “Felizmente, este terrível segredo que pesava sobre nós há demasiado tempo saiu para a luz do dia”, disse agora num comunicado. “Aplaudo a coragem da minha filha Camille”, acrescentou. Já “Victor” disse ao Le Monde estar feliz por a irmã falar em seu nome e confirmou aquilo que ela denuncia no livro em relação a Duhamel.

Fonte: Diario de Notícias

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