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Ex-reclusos de São Vicente recebem certificado e kits para iniciar negócios 

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Um grupo de 10 ex-recursos, com idade entre os 17 e os 34 anos, recebeu na tarde desta segunda-feira, 12, certificados de conclusão de cursos e kits para iniciar negócios próprios e ter suas próprias fontes de rendimento, numa parceria entre o Gabinete de Reinserção Social da Cadeia da Ribeirinha e a Igreja de Jesus Cristo Dos Santos Dos Últimos Dias. Em nome dos colegas formandos, Arlindo Delgado agradeceu a Igreja, o Gabinete e o formador pela oportunidade e prometeu valorizar o trabalho e contribuir para a reinserção de ex-reclusos em São Vicente. 

De acordo com este ex-recluso, é com grande satisfação que concluíram esta importante etapa para as suas vidas. “Queremos dizer que foi uma boa iniciativa do Gabinete de Reinserção Social da Cadeia Central da Ribeirinha em fazer e implementar este projecto. É uma grande oportunidade para quem está a ser reintegrado na sociedade. Não é fácil sair da prisão e encontrar um trabalho porque as pessoas não querem relacionar connosco pelo facto de sermos ex-reclusos”, declarou Arlindo Delgado.

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Para este ex-recluso, todos os intervenientes abraçaram esta causa, com esforço, dedicação e sentido de responsabilidade para com este grupo. “Jamais esqueceremos o que foi nos dito por um dos responsáveis, que nos garantiu ter um grande respeito pelos ex-reclusos. Esta frase ficará para sempre nas nossas mentes e esperamos que a sociedade também tenha esta atitude de acolhimento destes que abraçaram esta causa e implementaram este projecto. Percebemos que, afinal, a reinserção social está a funcionar. E isto não depende apenas dos técnicos do gabinete, mas sim da vontade de cada um dos ex-reclusos”, frisou, mostrando-se emocionado com este projecto que, afirmou, vai-lhes permitir integrar e evitar a reincidência criminal. “Vamos valorizar o vosso trabalho”, prometeu.  

Estea iniciativa integra o projecto “Vidas Boas” e tem como objectivo, de acordo com a sua coordenadora, criar condições psicológicas para que estes ex-reclusos consigam integrar na sociedade de forma socialmente aceitável e pessoalmente satisfatório. “O projecto surgiu depois de vários atendimentos com os arguidos e reclusos em liberdade condicional que revelaram uma grande dificuldade de enquadramento laboral. Foi neste sentido que participaram do curso ‘ Iniciar e Melhorar Meu Negócio’ e receber os kit de auto-emprego”, informou Vanda Gomes, revelando que, inicialmente, este tinha por objecto apenas tratar da parte psicológica e de grupos e auto-ajuda, mas tiveram de enquadrar a vertente laboral devido as queixas por causa das dificuldades em conseguirem emprego. 

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É que, para Gomes, um dos maiores motivos para a reincidência é a falta de emprego, pelo que, com este trabalho, o Gabinete pretende eliminar ou então contribuir para que o número de reincidentes seja cada vez menor. Foi com este propósito que, a 12 de setembro de 2022, este serviço, localizado temporariamente na Cadeia da Ribeirinha, iniciou actividades. “Trabalhamos nas áreas de penas e medidas alternativas a prisão, com arguidos condenados à trabalhos a favor da comunidade, grupos de reflexão VBG, encaminhamento das dependências, de entre outros”, especificou esta responsável.

Trabalha nas medidas de flexibilização de penas, fazendo a recolha de dados, que são encaminhados para o serviço central para efeito de relatórios para pedidos de liberdade condicional, onde constam informações sócio-familiares, das entidades empregadoras e das vítimas face ao seu pedido. Após a liberdade acompanha os ex-reclusos, ajudando-os na elaboração de projectos de vida, na procura de emprego e orientações psicológicas no sentido de seguirem por um caminho satisfatório e aceito pela sociedade de forma a evitar a reincidência.

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O Gabinete já recebeu 52 pedidos de trabalho a favor da comunidades e todos foram integrados. Vanda Gomes lamenta, no entanto, que nem todos estejam em cumprimento. “Neste momento temos 18 arguidos a prestar trabalho a favor da comunidade em diversas instituições publicas, designadamente no Centro de Acolhimento de Crianças com Paralisia Cerebral, Lar de Idoso da Ribeira Bote, Centro de Doente Mental de Vila Nova, escolas e Organização das Mulheres de Cabo Verde”, detalha. 

Vanda Gomes, formando, Presidente da Estaca da Igreja de Jesus Cristo Dos Santos dos Últimos Dias e formador

A nível dos programas de grupos reflexivos, esta responsável informa que receberam sete processos, número considerado ainda insuficiente para iniciar os trabalhos.  Já no que tange ao tratamento das dependências e acompanhamento psicológico, o gabinete tem nas suas mão 12 ofícios, dos quais sete foram encaminhados para o Centro de Atenção Psicossocial da Ribeira Bote e cinco para os Centros de Saúde de São Vicente. “Relativamente ao acompanhamento da liberdade condicional, fazemos uma centena de atendimentos mensais de reclusos. Infelizmente, tivemos quatro incumprimentos e os reclusos voltaram para a cadeia. Em seguimento, temos 19 reclusos na ilha de São Vicente.”

Enquanto financiador, a Igreja de Jesus Cristo Dos Santos Dos Últimos Dias, por intermédio do seu presidente da Estaca do Mindelo, explicou que ao longo dos anos a instituição tem vindo a ser um importante parceiro da Cadeia de São Vicente, apoiando vários projectos, visando dotar os reclusos de melhores condições e ferramentas para uma melhor reinserção. “Temos apoiado projectos educacionais e virados para a formação profissional. Foi neste sentido que fomos contactados pelo Gabinete de Reinserção Social para apoiar o projecto Vidas Boas e sentimos necessidade de responder positivamente por acreditarmos que vai ajudar na vida dos beneficiários e também às famílias.”

Helton Sequeira não tem dúvidas que este projecto vai ajudar estes ex-reclusos a se inserirem no mercado de trabalho pela via do auto-emprego, numa altura em que, diz, é cada vez mais importante enveredar pela via do empreendedorismo. “Acreditamos que desta forma vocês vão ter meios de auto-sustentar e ajudar as vossas famílias. Foi com este propósito que estamos a financiar estes kits de mecânica-auto, construção civil, barbearia, artesanato, vendedor ambulante, pintura, etc. Pode parecer que são pequenas coisas, mas um pequeno negocio bem cuidado poderá vos ajudar a ter rendimento e cuidar das vossas vidas”, pontua, realçando que, para além do financiamento, a Igreja decidiu oferecer aos ex-reclusos o curso “Iniciar e Melhorar Meu Negócio.”

Este responsável da Igreja por S. Vicente, Santo Antão e S. Nicolau desejou os maiores sucessos aos ex-reclusos na sua nova jornada de ser empreendedor e deixou claro que podem contar sempre com a Igreja e demais instituições que testemunharam o acto, enquanto agentes de reinserção social. 

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Constanca Pina

Formada em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ). Trabalhou como jornalista no semanário A Semana de 1997 a 2016. Sócia-fundadora do Mindel Insite, desempenha as funções de Chefe de Redação e jornalista/repórter. Paralelamente, leccionou na Universidade Lusófona de Cabo Verde de 2013 a 2020, disciplinas de Jornalismo Económico, Jornalismo Investigativo e Redação Jornalística. Atualmente lecciona a disciplina de Jornalismo Comparado na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

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