Desporto

Ducha, o craque “todo-terreno” que cedo abandonou o futebol

Ducha, de nome próprio Adriano Dias de Melo, foi um dos grandes nomes do futebol de São Vicente e de Cabo Verde. Era um dos poucos que tinha “autorização” dos treinadores para ir buscar a bola nos guarda-redes da sua equipa e levar até a baliza contraria para marcar golos, tendo em conta a sua velocidade e habilidade. Por conta disso, era apelidado de “todo-terreno”. Mas, por causa de doença, cedo abandonou os “pelados” da ilha, mas ainda é presença assídua no Adérito Sena. 

Quase nunca aceita dar entrevistas, salvo quando foi abordado pelo jornalista José Mário Correia para o livro “Nas rotas dos Tubarões Azuis – 40 anos de História da Selecção Nacional”. Agora, ao Mindelinsite, contou que começou a jogar futebol com 16 anos. “Fui levado ao Mindelense por meu cunhado Duca e iniciei a minha carreira futebolística. Estive pouco tempo com a equipa. Fomos para Guiné Bissau participar num torneio e, no regresso, mudei para o Castilho”, relata.

A mudança de clubes foi sobretudo para satisfazer o irmão mais velho, que era adepto do Castilho. “Na altura, os irmãos mais velhos comandavam os mais novos. Ele era adepto do Castilho e acabei por satisfazer sua vontade. Mas eu gostava do Mindelense. Isso aconteceu no ano de 1975, ou seja, depois da independência de Cabo Verde”, pontua, realçando que permaneceu neste clube por quatro épocas.

Mas regressou depois ao clube encarnado da Rua de Praia e acabou por singrar como “Ducha do Mindelense”, como ainda é chamado. “Regressei depois para o Mindelense onde conquistei vários campeonatos. Mas também joguei pelo Derby, embora na altura já estivesse pouco motivado para continuar a jogar futebol. Acabei por abandonar os campos com 30 anos, após ficar doente”, frisou. 

Enquanto jogador de futebol, lembra que para além de vestir as camisolas do Mindelense, do Castilho e do Derby, foi convocado por diversas vezes para as seleções de São Vicente e de Cabo Verde. “Desde que comecei a jogar no Campo da Fontinha era sempre chamado para a seleção de São Vicente. Fui também convocado para a seleção de Cabo Verde, embora tenha negado algumas vezes acompanhar os meus companheiros. Por exemplo, uma vez neguei porque o meu filho estava prestes a nascer.”

Felizmente, nunca teve nenhuma lesão grave e é com os olhos a brilhar que fala da “beleza do futebol”. “Futebol bem jogado . É vida”, enfatiza Ducha, que dedicou cerca de 15 anos intensivo à este desporto. “Joguei dos 16 aos 30 anos, com muita alegria. Aliás, sempre incentivo os jovens a jogarem futebol porque é riqueza e beleza. E não estou a falar de dinheiro porque no meu tempo jogávamos por amor a camisola. Recebíamos 100 escudos como prémio de jogo por cada vitoria da equipa.”

Ducha, nas páginas do livro “Nas rotas dos Tubarões Azuis – 40 anos de História da Selecção Nacional”

Ducha garante que conseguia conciliar a sua paixão pelo futebol com o trabalho. “Gostava de treinar. As vezes fazia três treinos por dia, de manhã logo cedo, na hora do almoço e depois do trabalho. Corria e jogava futebol nos campos pelados das fraldas. Fazia isso por gosto, então não me sentia cansado. Mas, por volta dos 30 anos e numa altura em que estava em forma, fui convocado para a Seleção de Cabo Verde, então treinada por Alexandre Alhinho. Infelizmente fiquei doente e acabei por largar tudo.”

Hoje, aos 66 anos, a sua “maior alegria” é ir ao Estádio Municipal Adérito Sena ver os jogos do Regional e Nacional, mas também aos campos de fralda para ver jogos de futebol. “Sou torcedor assumido do Mindelense, mas gosto de ver bons jogos de futebol. Na minha carreira fui marcado positivamente por Tchida. Foi o melhor treinador que me orientou. Ele era explosivo, mas entendia de futebol. Temos muitas histórias. Por exemplo, uma vez na Praia o Mindelense perdeu com o Botafogo e o Tchida brigou comigo. A minha mãe ficou chateada e exigiu que eu saísse do Mindelense. Decorria o ano de 1980. Vencemos o campeonato nacional e saí do clube em 1981.”

Ducha conta que se inscreveu então no Derby, que passou a acumular títulos. “Fui campeão pelo Derby quatro vezes e cinco pelo Mindelense. Sou feliz por tudo o que fiz e por minhas conquistas. Hoje digo aos jovens jogadores para encarar o futebol com mais seriedade. Precisam concentrar mais no desporto e esquecer outras coisas que acabam por os distrair dos seus objectivos. No meu tempo treinávamos e íamos para casa com recomendação para deitar cedo para descansar”, remata.  

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