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Nuno Martins transpõe versos de poesia da triologia Imagine Morraud para telas na sua primeira exposição de pintura

Nuno Martins transportou a sua poesia para as telas na sua primeira exposição-instalação de pintura, na Galeria Zero Point Art no Mindelo. Em uma entrevista exclusiva ao Mindelinsite, o agora também artista plástico explicou que são 13 +1 telas, inspiradas da sua primeira obra poética “Imagine Morraud”. Esta mostra de pintura poética vai estar patente até o dia 7 de novembro.

Por- Constânça de Pina

Mindelinsite: Explica-nos como surgiu a ideia de transformar os seus versos em quadros para esta exposição?

Nuno Martins: Esta exposição surge de um conceito que tenho há muito tempo de levar a minha poesia para outras narrativas. Iniciei um processo de desenhos a pastel no meu primeiro livro, que tem 25 anos se a memória não me falta. O livro “Abandoned by Wolves, Raised by Flowers foi publicado em 1999 e tem seis capítulos. Com estes capítulos fiz um trabalho inspirado no teatro, que resultou em seis telas de 50 por 30 centímetros.

Entretanto, completou agora quatro anos do lançamento da minha Triologia Imagine Morraud e já tem bastante tempo que venho trabalhando no desenvolvimento deste conceito, agora em tela acrílica. Quero com isso dizer que todas as minhas obras, escrita e pintura, estão interligadas. A trilogia tem 13 capítulo, então resolvi brincar com este número. Transformei cada tela em um capítulo, daí o título da exposição “13 +1”. Este título foi-me sugerido por meu amigo Tiago Leão, que fez o texto de introdução desta exposição.

M: Fala-nos destas telas?

N: Basicamente temos alguns capítulos que nortearam toda a composição, outras foi apenas uma frase, um verso ou uma palavra que deu forma à um quadro. Mas é a minha tentativa de transportar todos os versos por uma narrativa mais pictórica, mais visual.

M: Alguns dos quadros são em tons muitos suaves, outros mais fortes. Como explica estes “gritos” e “silêncios” nestas telas?

N: Toda esta narrativa, como disse, parte da poesia. Assim, conforme a poesia, também é o quadro. Mas também ao longo do processo de pintura, estabelece-se um diálogo com o quadro, que muitas vezes nos conduz por um caminho que inicialmente não tinha previsto, não obstante a composição, como é óbvio, tenha sempre um ponto de partida bem defenido.

M: Como é que do Nuno Martins gestor emerge um pintor?

N: Sou gestor de profissão. O meu percurso académico sempre foi na área de letras, mas a gestão está no meu ADN. O meu avô foi gestor, antigamente dizia-se comerciante. O meu pai também e eu, intrinsecamente, acabo por estar neste meio. Não enveredei pelas artes inicialmente, talvez porque na altura não surgiu esta oportunidade, ou então faltou coragem. Mas senti-me felizardo. Sou um afortunado por conseguir fazer os dois: arte e gestão. Tudo isso me traz uma enorme satisfação.

M: Esta é a sua primeira exposição-venda. Porquê a escola da Galeria ZeroPointArt?

N: Esta é uma pergunta extremamente pertinente. Enquanto fazia este trabalho, em nenhum momento pensei em um lugar de exposição e nem na venda. Não era essa a questão na altura. Qualquer processo criativo não tem um preço. Acabamos depois por colocar um preço porque aparecem pessoas interessadas. Mas, para ser sincero, pode até parecer um bocadinho egoísta, mas se pudesse não vendia os meus quadros. O máximo poderia oferecer. É difícil colocar um processo ou mesmo desfazer de um “filho”. Já ZeroPointArt aparece porque pertence ao meu grande amigo Alex.

M: Teve alguma influência de Alex Silva para a pintura, pelo menos esta é a minha percepção ao ver os seus quadros?

N: Fomos grandes amigos e era um artista que admirava. Então, como é óbvio, o seu trabalho e ele enquanto pessoa acabou por ter influência em todos nós, as vezes mesmo inconscientemente. Bebemos em tudo o que nos rodeia. Acabamos por dar o nosso toque, mas é normal e natural ver traços do Alex no meu trabalho. Acaba por ser uma grande honra para mim expor aqui, tendo em conta todo o conceito que sei está por detrás da galeria.

M: Nuno tem alguma formação na área da pintura?

N: Não. Sou um autodidata. Não tenho nenhum tipo de formação especifica em pintura. Mas gosto de pintar. É uma criação minha, que começa com um pensamento e depois executamos, continuamos este diálogo enquanto vemos a obra a ganhar forma e a seguir o seu caminho. É uma satisfação grande, sobretudo quando vemos as pessoas a ver e a apreciar o nosso trabalho. Esta é a minha estreia como pintor. Mas sempre brincava em algo muito meu, reservado. Desta vez tive esta ousadia de fazer esta exposição, que é um processo de levar a minha poesia para outras narrativas.

Já tinha levado Imagine Morraud para uma instalação. Montei uma cabine telefónica no Centro Cultural do Mindelo em 2018, uma combinação de poesia, áudio, cabine e projecção de vídeo. Esta é a terceira vez que esta minha triologia ganha vida na cidade do Mindelo.

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