Cultura

IPC convida Ró d´Interart a apresentar proposta de recuperação d´Póss

O Instituto do Património Cultural (IPC) convidou o artista plástico mindelense António “Ró d´Interart” Cruz a apresentar uma proposta de recuperação do monumento aos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, mais conhecido em São Vicente por Póss ou Pássaro, que apresenta enormes fissuras e está em risco eminente de derrocada. A informação foi confirmada ao Mindelinsite por este artista, que se fez acompanhar na primeira inspecção ao monumento de um engenheiro civil, para avaliar a sua estrutura, e do director do IPC.

Segundo Ró, uma análise ainda sem grande profundidade confirmou a presença de muitas fissuras em toda a estrutura deste monumento, que foi construído a cerca de um século. “A recuperação deste monumento vai exigir um trabalho muito minucioso e profundo. Vamos ter de desmantelar toda a estrutura e construir uma base e alguma sustentação. É que, daquilo que constatamos, o monumento é praticamente um amontoado de pedras soltas, sem nenhuma estrutura de apoio central. O problema é que fica numa zona de muita turbulência por causa da circulação de viaturas, sobretudo dos veículos pesados e atrelados”, explica este artista, que diz ter constatado o perigo quando visitou o monumento. “Vi o a estrutura balançar”, disse.

Este lembra que, no espaço onde está o monumento antes era mar, o que significa que este pode estar sentado sobre água. “O risco neste momento é muito grande. Mas a sua recuperação é um trabalho que exige tempo e paciência. Penso desmontar o monumento, sinalizando cada uma das pedras e reconstrui-lo com mais segurança. Mas este desmonte exige cuidados especiais. Não pode ser feito de forma empírica. É um trabalho de perícia. Não pretendo fazer nenhuma alteração ao projecto, apenas conferir segurança a este monumento que fica numa zona estratégica e atrai as pessoas, sobretudo durante o carnaval ou outras festas. Muita gente gosta de subir nesta estrutura para ter uma melhor visão ou apenas para tirar fotos.”

Esta recuperação, segundo Ró, será acompanhado por um escritório de engenharia, para conferir mais segurança ao projecto, até porque, afirma, “sou apenas um artista”. Por enquanto, este nosso entrevistado, as partes estão apenas a conversar. Mas este vai avisando, que o trabalho que já começou a ser feito exige tempo e tem um custo.

Postal ilustrado 1935 publicado na blog Mindelosempre Joaquim Saial

O monumento aos aviadores, também apelidado “Póss”, segundo o “Inventário dos Recursos Turísticos do Município de São Vicente”, elaborado pela Direcção Geral de Turismo, foi colocado numa antiga esplanada chamada de Terraço da Alfândega, construído em 1926. A ideia era embelezar esta rua que se encontrava descaracterizada pelos pontões e depósitos de carvão. O monumento foi acrescentado anos depois como homenagem da ilha a Gago Coutinho e Sacadura Cabral que, a 05 de Abril de 1922, fizeram escala no Mindelo durante a travessia do Atlântico Sul. A explanada foi então transformada numa praça com árvores, bancos e um quiosque, e recebeu o nome de Praça dos Aviadores.

A praça desapareceu e hoje o monumento, que tem uma águia no seu topo, está numa rotunda. Muitas pessoas já escreveram sobre a odisseia dos dois aviadores portugueses, entre eles o escritor Germano Almeida, que descreveu com riqueza de detalhes a sua estada em São Vicente, a forma como foram recebidos na Câmara, que inclusive arcou com as despesas da estadia e alimentação, e custeou os telegramas por eles expedidos. Lembra este escritor que, no dia 06 de Abril, a CM reuniu em sessão solene para, em nome do povo, homenagear os distintos aviadores, capitão-de-mar-e-guerra Gago Coutinho e o capitão-tenente Sacadura Cabral. Segundo Almeida, os dois foram amplamente elogiados pelo feito, tendo inclusive Gago Coutinho assumido a presidência da mesa, deferência que este aceitou, aproveitando para agradecer as manifestações calorosas que vinha sendo alvo.

Uma Comissão Municipal abriu uma subscrição destinada a obter donativos para a construção de dois monumentos, um padrão na baía da Matiota e um obelisco a ser colocado na avenida, ambos para comemorar a chegada dos distintos oficiais do hidroavião. “Tanto o monumento como o obelisco foram construídos em tempo breve, o primeiro dentro do mar da Matiota, ao que se diz exactamente no lugar onde o hidroavião ficou amarrado, razão aliás por que nos anos 80 teve de ser dali removido por causa dos arrebentamentos de dinamite durante a construção dos estaleiros navais, mas pontificando hoje em dia à entrada do cais acostável, o obelisco, uma enorme ave fazendo lembrar uma água velha e de asas ferozmente abertas, ainda no espaço para onde foi planeado, uma esplanada que já não existe mas cujo local logo teve e continua com o nome popular de Esplanada dos Aviadores”, escrevia.

Constânça de Pina

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