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Faleceu Nhô Doi: Familiares lamentam falta de reconhecimento da história dessa figura ímpar do Carnaval mindelense

A cultura cabo-verdiana, em particular o Carnaval mindelense, perdeu ontem à noite uma das suas figuras mais proeminentes. Por volta das 23 horas, Isidoro Rocha Brito, Nhô Doi, o eterno impulsionador do grupo Vindos do Oriente, faleceu no hospital Baptista de Sousa, após alguns dias de internamento para tratar um tumor. Para o artista plástico Nóia Morais, a dirigente Lily Freitas, actual presidente do VO, e Humberto Brito, filho do malogrado, partiu um artista humilde, cujo coração batia 100 por cento carnaval. “Tanto assim que esquecia a família e até de comer quando entrava nos estaleiros”, enfatiza Nóia Morais, “sobrinho” por afinidade de Nhô Doi.

Essa faceta é recordada por Lily Freitas, uma das mulheres “angariadas” por esse antigo dirigente para o Vindos do Oriente quando ainda era uma jovem e que hoje tem também o seu nome inscrito na rica história deste grémio emblemático do Carnaval mindelense. Segundo Freitas, Nhô Doi era capaz de trabalhar dias a fio, principalmente na última semana do desfile, sair do estaleiro e ir directamente para a Rua de Lisboa. “Ele nem tinha tempo para tomar um banho. Às vezes ele vestia o traje como estava e seguia o grupo para o desfile. Isto é entrega, é paixão, algo que pouca gente consegue entender”, comenta Lily Freitas. Segundo esta dirigente, Nhô Doi já chegou a desmaiar no dia do desfile por causa do cansaço, da fome e da emoção. 

Lily Freitas afirma que entrou para o Carnaval pelas mãos de Nhô Doi. Durante anos ela conviveu com essa figura, que era vista como o presidente “natural” do Vindos do Oriente. “Mas ele nunca reivindicava essa função, de tanta humildade”, comenta dona Lily, que fazia parte de um grupo de mulheres que costumavam organizar o desfile do VO. Esta recorda que costumavam sentar-se numa pedra na zona de Wilson, cada uma avançava um valor monetário para o arranque dos expedientes e metiam mãos à obra. “Nhô Doi sabia que podia confiar em nós”, frisa essa mulher, que lamenta a perda desse “velho amigo”.

Nhô Doi foi a figura homenageada pelo Vindos do Oriente no desfile de 2014. Entrou na Rua de Lisboa de mão dada com Lily Freitas e foi ovacionado pelo povo. No entanto, esse terá sido um acto isolado na trajectória desse carnavalesco. Aliás, o “sobrinho” Nóia e o filho Humberto Brito acusam as autoridades culturais de descaso para com esse “humilde artista”, por tudo aquilo que deu ao Carnaval tanto na cidade do Mindelo como na cidade da Praia, onde acabou por fundar um grupo.

“Temos um problema grave em Cabo Verde em reconhecer o contributo dos nossos artistas. Nhô Doi é mais um que desaparece sem o devido respeito pelas autoridades ligadas à Cultura. Repare que ele sequer teve direito a ver o Carnaval das bancadas. Lembro-me de vê-lo sentado num banquinho na Avenida Baltasar Lopes a ver o desfile. Estamos a falar de um homem que colocou o Carnaval à frente da sua família e que pegou no grupo Vindos do Oriente logo após a Independência e hoje vemos onde o VO está”, desabafa Nóia, ele próprio um dos artistas mais criativos da festa do Rei Momo em S. Vicente.

Para Nóia, a Cultura cabo-verdiana fechou mais uma pagina doirada. Ele que recorda Nhô Dôi como um homem “fadigado”, mas no bom sentido. Um amante do Carnaval que dava o corpo e a alma para ver o seu grupo no asfalto.

O filho Humberto Brito recorda o pai como um homem dinâmico e humilde, que dedicou a vida à Cultura cabo-verdiana. Um artista e dirigente, diz, que trabalhava em prol do Carnaval sem fins lucrativos, apenas por mera paixão. “Ele fez Carnaval quando ainda não havia qualquer tipo de apoio. É preciso respeito por isso. Acontece que nesta terra quem muito faz é menos reconhecido”, critica Humberto Brito, que faz um parêntesis, no entanto, para agradecer a homenagem que o Vindos do Oriente fez ao pai em 2014. No geral, diz, houve muita falta de consideração e ingratidão pelo empenho do pai. Este questiona se tudo isso teria a ver com o seu nível de humildade, um homem simples, que preferia andar a pé e que fazia as coisas sem esperar nada em troca.

Isidoro Rocha Brito faleceu aos 77 anos no hospital Baptista de Sousa. Nos últimos tempos começou a sentir uma dor pelo corpo, fez diagnóstico e descobriram que tinha um tumor. Esteve internado, mas ontem acabou por falecer. O funeral acontece hoje pelas 15 horas a partir da sua residência em Cruz João d’Évora.

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