Espectáculo “Amontoados” abre hoje a 32.ª edição do Festival Mindelact em São Vicente

A peça «Amontoados», uma coprodução entre o Festival Mindelact e o Teatro Griot, de Portugal, sobe hoje ao palco no Mindelo para marcar a abertura da 32.ª edição do Festival Internacional de Teatro. A criação, encenada por Zia Soares, propõe uma viagem pelas memórias, histórias e vivências cabo-verdianas, cruzando questões de identidade, colonialismo, comunidade e pertença.
Construído a partir de um processo colectivo, o espectáculo nasceu sem um texto previamente definido ou uma ideia fechada. A criação foi desenvolvida através de conversas, partilhas de experiências e memórias dos artistas sobre Cabo Verde, as suas famílias e comunidades, tendo também como referência o Movimento Claridoso e a revista Claridade.
Em declarações à imprensa hoje no Mindelo sobre a peça, a encenadora Zia Soares explicou que a criação integra ainda reflexões sobre as revoltas rurais e o protagonismo das mulheres na soberania alimentar. Neste contexto, a purgueira assume um lugar central na narrativa, enquanto elemento da paisagem cabo-verdiana e símbolo das relações históricas de exploração colonial dos recursos e dos territórios.
“A purgueira é presença fulcral no nosso espetáculo. É uma planta que está muito ligada, integrada, na paisagem cabo-verdiana e que, na altura das revoltas, por exemplo, em 1910, durante a revolta de Ribeirão Manel, teve como grande protagonista também uma mulher, Anhã-anhã. Esta purgueira estava no centro também desta revolta e ela também está no centro do nosso espetáculo“, explicou a encenadora.
A encenadora Zua Siares realçou que a planta representa também as contradições do passado colonial, uma vez que os seus frutos e o seu óleo foram explorados e transportados para a Europa, onde serviram, entre outras utilizações, para iluminar as ruas de Lisboa e alimentar a indústria do sabão em Marselha, França.
O título “Amontoados”, informou, remete para a acumulação de memórias, histórias, objectos e pessoas, mas também para a importância da proximidade humana e da vida em comunidade. Segundo Zia Soares, o espectáculo procura reflectir sobre uma sociedade em que as pessoas estão cada vez mais afastadas umas das outras e sobre a necessidade de recuperar os laços que devolvem humanidade às relações.
“Houve um período muito recente, que é a pandemia, que todos nós vivemos e eu vivo em Lisboa, vivo na Europa, a maior parte do ano, e aquilo que eu senti foi, numa altura tão violenta e tão difícil para todos, eu senti que as pessoas afastaram-se. Quando o movimento para mim orgânico e natural seria juntar-se, amontoar-se.
No plano visual, a criação aposta numa estética monocromática, inspirada nas texturas das rochas, da terra e da paisagem cabo-verdiana. A cenógrafa e actriz Elisabeth Gonçalves explicou que o trabalho procurou transformar memórias em texturas, criando cenários e figurinos capazes de despertar sensações visuais e tácteis no público.
“Foi dentro desse conceito, falávamos muito sobre isso durante as minhas férias que estive cá a trabalhar. Eu vim de praia para trabalhar nesta peça. Então, a ideia, e pensamos nisso monocromático. Pegamos do castelo das rochas, pegamos das texturas das rochas, e criamos esses amontoados“, declarou.
A componente artística reúne ainda um trabalho de iluminação de Abdullay dos Santos e Edson Costa, música e desenho de som de Neu Lopes, além da coordenação de movimento de Dy Fortes, que integra igualmente o elenco. Para Zia Soares, abrir a edição deste ano do Mindelact representa uma grande responsabilidade, mas sobretudo uma honra e um privilégio, destacando o contributo e o talento dos artistas envolvidos na produção.
O Festival Mindelact inicia a sua 32.ª edição com uma proposta teatral que convoca a memória colectiva, questiona heranças históricas e coloca no centro da reflexão a identidade cabo-verdiana, a força das comunidades e a necessidade de proximidade entre as pessoas.






