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Artesãos com obras “encalhadas ” tentam vender peças nas ruas

Três artesãos ouvidos por Mindelinsite dizem que estão com os seus produtos encalhados em casa porque eem 2020 não conseguiram vender as suas obras na edição 2020 da Feira de Artesanato e Design, que aconteceu de 25 a 29 de novembro. Afirmam que também não se realizou a tradicional Feira de Natal, duas grande oportunidades para escoar as suas obras. Inconformados com a situação, e a enfrentar grandes dificuldades financeiras – um deles teve de entregar a casa onde residia porque não conseguia pagar o aluguer -, estes artesãos decidiram sair à rua para tentar vender algumas peças.

É o caso da artesã Nélida Almeida que, desde as vésperas do Natal desce para morada para tentar vender bolsas, carteiras e outros produtos, confeccionados com tecidos africano e pano di terra. Ao Mindelinsite conta que está a sentir os efeitos da não participação na URDI e também do cancelamento das habituais feiras realizadas durante a quadra festiva. “Não participei na URDI este ano porque não tinha condições de receber potenciais compradores na minha casa e também porque tenho um filho de risco. Entendi que não valia a pena expor a minha família. Infelizmente, também não realizaram as habituais feiras. Por conta disso, tenho uma boa quantidade de produtos encalhados. Foi por isso que decidi vender os meus trabalhos na rua. Durante a quadra festiva estive na Praça Dom Luis. As vendas estão fracas, mas é melhor do que ficar em casa”, conta esta jovem.

Sem nenhuma fonte de rendimento fixa, segundo Nélida, viu-se obrigada a entregar a casa onde residia com os filhos e procurar “guarita” junto de uma irmã.  “Não conseguia pagar o aluguer. Felizmente, a minha irmã cedeu-me uma casa onde estou com os meus filhos. Mas a situação está difícil. Neste momento estamos a depender da venda de uma ou outra peça para sobreviver. Felizmente que tinha armazenado algum material e trabalhos em casa na esperança de realizar boas vendas na URDI e nas feiras da quadra festiva. É com a venda destes produtos que estamos a aguentar. ”

Reciclagem garrafas

Há menos tempo a trabalhar com artesanato, Aurizia Delgado também não escapa às dificuldades decorrentes da pandemia da Covid-19. Esta conta que começou a trabalhar com reciclagem e pintura de garrafas e a fazer vasos decorativos há cerca de dois meses. Há um mês que o filho e alguns amigos estão a vender nas ruas do Mindelo. “Aprendi a fazer este trabalho com uma amiga. Inicialmente oferecia as obras aos familiares e amigos, mas depois percebi que podia vender. Infelizmente a altura não foi a melhor porque não se realizou nenhuma feira de artesanato na ilha para que pudesse escoar os meus produtos. Então, o meu filho e alguns amigos, que também estão a aprender a fazer este trabalho comigo, decidiram vender nas ruas”

Residente na zona de Ribeirinha, esta artesã garante que sempre se consegue escoar algumas peças. “Ás vezes as pessoas gostam de alguma obra, mas alegam falta de dinheiro. Então faço fiado para pagarem conforme puderem. Mas faço isso porque não vivo exclusivamente deste trabalho. Tenho um pequeno bar em minha casa, mas neste momento as vendas também baixaram. Com a venda das obras consigo complementar a renda familiar. Os meus filhos estão desempregados e tem também ajudo alguns dos seus amigos na mesma situação. Somos uma equipa de quatro, sendo que estes ainda apenas reciclam e pintam as garrafas”, acrescenta Auriza, que vê ainda ver o seu trabalho como uma forma de libertar do stress da vida.  

URDI sem feira na Praça Nova

Para o artesão Alberto Diogo, os relatos destes dois colegas coincidem com o de muitos outros espalhados por todo o Cabo Verde. É que, defende, por causa da pandemia da Covid-19, este ano não se fez a feira na Praça Nova, que junta estes profissionais que vinham produzindo há muito tempo para a URDI. E a modalidade “expor nos ateliês ou em casa” não funcionou. “Apesar do Ministro da Cultura e do Director do CNAD afirmarem que a URDI foi um sucesso, os artesãos fazem outra leitura porque não conseguiram escoar os seus produtos. Entendo, por isso, que deve ser feito algo para apoiar os artesãos, que estão com os seus produtos encalhados. S. Vicente é uma ilha com muitas praças, inclusive nos bairros, pelo que a organização do certame poderia ter optado por um outro formato. Poderia montar stands em diversas localidades e permitir aos artesãos vender as suas obras”. 

Para este artesão mindelense, só assim se poderia ajudar esta classe, que está a enfrentar grandes dificuldades porquanto depende da venda dos seus produtos, sobretudo para os turistas que há dez meses não visitam o país. “Penso que, à semelhança do que foi feito para outros artistas, o MC deveria alocar parte dos 3.500 contos da URDI ou então retirar do Orçamento de Estado para 2021 algum recurso para distribuir aos artesãos profissionais. Isto tendo em conta que este ano a URDI foi basicamente em termos de painéis e discussão de política. Os temas podem ter sido importantes, mas entendo que nesta altura não foram oportunos para os artesãos profissionais que precisam colocar os seus produtos para sobreviver”, pontua Beto Diogo, que exemplifica com relatos ouvidos de colegas que tiveram de retornar às suas ilhas de origem por não conseguirem suportar as suas despesas fixas. 

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